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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

02
Jun18

O peão é para a via pública!

Ricardo Nobre

O senhor leitor já está a pensar que o autor deste blogue se retirou depois de um acidente de viação com uma bicicleta enquanto caminhava em Lisboa. Ainda não aconteceu, mas deve faltar pouco.

A extravagância ciclista da edilidade (digo assim para parecer o Conselheiro Acácio), que sarjou a cidade (digo assim para parecer o Oliveira Martins a falar de Fontes Pereira de Melo) de pistas verdes, acompanhou o período mais terrível para os transportes públicos de Lisboa. Não só pela gradual quebra na oferta da Carris, que a propaganda Medina iludiu com umas carreiras de bairro — que eram (são?) o redesenhar de carreiras já existentes (ninguém reparou?) — e com cinco ou seis anúncios (é o mesmo anúncio, mas repetido para parecer que as coisas paradas são dinâmicas) de novos autocarros (ubi sunt?, perguntaria Baruque), mas também porque as alterações viárias realizadas no último ano e meio em Lisboa prejudicou o acesso às paragens dos autocarros*. A Carris aceitou a movimentação de paragens para o meio da estrada, a que se acede depois de atravessar outras vias. Por exemplo: do Campo Grande ao Marquês de Pombal, não se sai do autocarro para entrar no metro ou na estação de caminho-de-ferro sem precisar de atravessar estradas e ciclovias (o que cria enormes perigos porque não é raro as pessoas saírem a correr de um transporte para apanhar outro). Já foi pior: como os engenheiros da Câmara nunca perceberam que nesse eixo há autocarros articulados a funcionar (o 83 e o 36) ou que, simplesmente, pode acontecer dois autocarros chegarem em simultâneo à mesma paragem, inicialmente havia canteirinhos de jardim para quem saía do autocarro pela porta de trás ter lama ou pó (que é no que esses jardins estão transformados) para pôr os pés. Como na imagem se vê, isso continua a acontecer porque agora há espaço para um mas não para a paragem de dois autocarros articulados.

2017-11-24 16.43.59.jpg

 

Depois, existe ainda a singularidade de, em Entrecampos, ser normal ser preciso parar para não levar com uma bicicleta (elas apitam porque pensam que atrás das paragens passa a Volta a Portugal); no Campo Pequeno, se sair do autocarro a poente para atravessar a rua para nascente, o peão precisa de atravessar duas passadeiras no sentido oposto para chegar ao semáforo em frente à Praça de Touros. A alternativa é circular pela ciclovia, ouvir protestos e apitos. No Saldanha, numa praça com dimensões consideráveis, as paragens (afastadas do passeio por duas vias e uma ciclovia) não têm acesso senão por um lado. Na Avenida Fontes Pereira de Melo, é preciso atravessar a ciclovia (até têm uma passadeirazinha de bebé pintada!) para entrar ou sair do autocarro.

Resta ao munícipe, habitante e trabalhador, concluir que a Câmara surge, portanto, como agente impulsionador da mobilidade citadina por meio de bicicletas porque não há outros transportes. O impulso foi dado primeiramente pela criação de ciclovias e mais recentemente pela disponibilização cogumelar de parques de bicicletas de aluguer, da responsabilidade da EMEL (a empresa pública mais odiada da cidade agora estaciona as carrinhas nos passeios enquanto faz o que tem a fazer lá com as Giras deles). Falta, porém, formar os ciclistas: em cima da bicicleta, são um veículo e, nessa condição, circulam pela ciclovia ou pela estrada; param no semáforo; sempre que precisam de atravessar a passadeira de peões ou circular pelo passeio, têm de se apear e andar com ela pela mão. Se nada disto acontece, porque não pode o peão andar na ciclovia sem ouvir o apito da bicicleta? Pode ser que Medina crie uma empresa pública (há sempre gestores públicos a precisar de colocação) de formação de ciclistas ou (a minha opinião favorita) que disponibilize apitos para peões afastarem ciclistas (até na Feira do Livro é preciso usar). Não que os peões tenham de circular sempre na ciclovia — mais porque as bicicletas usam com mais insistência os passeios do que a estradinha verde que os nossos impostos lhes fizeram.

 

*Não repetirei agora as críticas à excentricidade governamental na maior e pior mudança da história do Metropolitano de Lisboa, ao criar uma linha circular que, aparentemente, não beneficia ninguém (os beneficiados da linha de Cascais seriam mais bem servidos com uma estação da CP a funcionar em Alcântara-Terra, que retiraria a movimentação de massas do Cais do Sodré e os distribuiria por Sete Rios, Entrecampos, Alvalade, Oriente, etc.).

 

P.S.: Este texto homenageia, assim, um senhor meio ébrio que eu costumava encontrar quando andava de 27, que um dia, precisamente no Campo Pequeno, se envolveu numa discussão com um ciclista. Foi causa suficiente para ir a altercar sozinho no autocarro sobre o lugar dos peões, na via pública, enquanto as bicicletas circulam sem regras no espaço de peões e automóveis. Ao chegar ao Saldanha já dormia o sono dos justos.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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