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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

05
Ago19

O preto e o negro

Ricardo Nobre

Para «preto», palavra da língua portuguesa, existem definições no dicionário no âmbito da física. Por exemplo, como adjectivo, «diz-se da ausência total de cor, pela absorção de todas as radiações luminosas». Sabemos, todavia, de outros usos do mesmo adjectivo. Com sentido pejorativo, regista o dicionário da Porto Editora, «diz-se de pessoa que tem a pele de cor escura; negro». Numa edição de 1998 que há cá em casa, ainda não havia uma menção, como nome comum pejorativo, que se pode ler actualmente na Infopédia: «designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação».

preto

É este tipo de correcção política feita por dicionários que não se pode aceitar porque respeita apenas ao que hoje se considera o uso do termo, sem pesar que o valor da palavra já foi neutro, como hoje o de «negro». Recolho exemplos anteriores ao século XX1:

  • Gil Vicente, no Auto da Barca do Purgatório e na Inês Pereira, respectivamente: «Nem um preto por pagar» e «Homem que não tem nem preto, / Casa muito na má hora».
  • Fernão Mendes Pinto fala de umas «chinelas de preto» na Peregrinação.
  • Almeida Garrett, que, n’O Arco de Santana, usa o termo para designar o Bispo D. Soleima, do tempo do nosso D. Afonso Henriques, escreveria em Helena: «O ar do preto era importante, precioso e cheio de sua autoridade; mas não austero, antes plácido e risonho como o de uma ambição satisfeita».
  • Camilo Castelo Branco, n’A Caveira da Mártir, emprega a palavra ao lado de «negros»: «Desceu ao pátio onde dois negros davam ferro à pelagem dos cavalos empastada de suor, e disse-lhes que os cavalgassem e passeassem a passo, porque pareciam resfriados; depois, mandou o preto cozinheiro à praça da Ribeira comprar uma ave que seu amo apetecera».
  • O mesmo autor, em A Filha do Doutor Negro (título que já diz tudo), escreve: «Apelidava-se assim o bacharel Francisco Simões de Alpedrinha, porque era mulato, nascido no Brasil, lá muito do interior do império, filho de um preto, magistrado do Rio de Janeiro, famoso por muitas letras e rectidão».
  • Eça de Queirós, Os Maias, no famoso momento em que Carlos vê Maria Eduarda: «Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola».
  • Guerra Junqueiro, em Viagem à Roda da Parvónia, põe na boca de uma personagem, «abraçando o preto»: «Muito bem, meu amigo, muito bem! Afianço-lhe que não morro ainda sem ser preto».
  • Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas: «O preto, num meio ubérrimo, não foi condenado».

Não estou a dizer que não há racismo latente ou exuberante em frases como «O soro das glândulas lacrimais do preto não é pranto de homem» (Camilo Castelo Branco, A Vingança), «O preto tem catinga» (Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português) ou «E preto velho não aprende língua» (Correia Garção, A Assembleia), mas as definições do dicionário têm de ser latas o suficiente para todos os contextos, ou então distinguir os usos sem preconceito, discriminação ou ignorância (entradas para «padre», «burguês» ou «fidalgo» precisariam do mesmo aviso, embora não seja um alerta de raça).

Etimologicamente (ou seja, do ponto de vista da origem da palavra e do seu significado original), «preto» relaciona-se com o particípio do verbo que em latim significa «pressionar», «imprimir», ou seja, o nome da cor mais ao fundo do espectro de luz não seguiu um percurso ininterrupto de uso linguístico da Antiguidade até «preto» ter aparecido na língua portuguesa (o que aconteceu, de acordo com o Dicionário Houaiss, logo no século XIII).

Os Romanos diziam «niger», de onde vem «negro» (as palavras latinas passam regularmente para o português pelo acusativo: «nigrum» e «nigram» no singular, caindo o -m; «nigros» e «nigras» no plural), que, do português e do espanhol, passa para o inglês como «nigger» ou «nigga», actualmente um dos maiores insultos da língua inglesa (tão tabu que, no meio de todo o tipo de calão, os filmes e séries designam a palavra como «the N word»), embora, tal como «preto» em português, «nigger» ou «nigga» sejam termos utilizados no interior das comunidades (que assim são igualmente comunidades linguísticas) a que originalmente se referiam (um pouco como aconteceu com o outrora ofensivo «queer» para designar comunidades homossexuais, hoje elevado a disciplina universitária, os Queer Studies).

Em português contemporâneo, por seu lado, «negro» parece ser o termo mais adequado para referir os indivíduos que cientificamente são designados «negróides» (que se distinguem ou distinguiriam, por exemplo, dos «caucasóides»). Em inglês, o termo socialmente aceite é «black», que tem origem lá no Saxão antigo, que é um ramo da família das línguas germânicas, a que o Norueguês antigo ainda se liga.

Assim sendo, é interessante notar como da mesma palavra se origina um insulto numa língua e um termo aceite noutra — coincidência que se baseia exclusivamente na etimologia, porque a língua é muito mais do que língua: é também história e, nesse sentido, carrega tanto a fortuna como os equívocos do passado, como o crime da escravatura. As palavras também têm a sua biografia.

(1) As citações das obras literárias foram geradas pelo corpus da Linguateca. O leitor ou a leitora pode solicitar correcção de erros de contexto (não fui verificar todas as citações).

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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