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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

02
Abr18

Orthographia, ou arte de escrever, e pronunciar com acerto a lingua portugueza

Ricardo Nobre

Lembro-me de me ter admirado há uns anos com a verificação, em resultados gerados pela pesquisa em corpus do português, de que muitos falantes nativos tinham a necessidade, possivelmente por contaminação do inglês, de escrever «contracto» em vez de «contrato» e «instructor» e «constructor» com um «c» que em nenhuma dessas palavras existe. Curiosamente, a grafia «contracto» existe como particípio de «contrair». Na etimologia, tanto «contrato» como «contracto» estão relacionados com o verbo «contrahere», cujo particípio é «contractus», de onde deriva o adjectivo (= contraído). Além disso, «contractus» existe em latim como nome (= aperto, contrato).
A etimologia sustenta igualmente as outras opções gráficas («instructor», «constructor», a que poderia juntar «victima», «aqueducto» e «viaducto»), mas não é ocioso pensar que os erros dos falantes se origine na analogia com o inglês, que é a língua com um sistema ortográfico mais etimológico que conheço e que me ajuda a defender aquilo que penso há vários anos: a ortografia não tem que ver com oralidade. É isso que existem diversas formas de dizer uma palavra e que permite, por exemplo ao inglês, diversas pronúncias, de nativos tanto do Texas como da Nova Zelândia, passando pela África do Sul e pelas Caraíbas, sem que tenha sido alguma vez imposta uma padronização do tipo Oxbridge ou BBC English (em Portugal, há quem defenda que falar como na Beira Litoral é que está bem; outros que o dialecto-padrão é o da Estremadura; como sou algarvio, devo admitir que falo mal). Cada palavra escrita em inglês traz consigo séculos de história, em cada uma delas ecoando uma linhagem de sentido, um percurso do pensamento humano. Além disso, quanto mais conservadora a grafia menos necessidade existe de a alterar: só em Portugal é que é possível que se façam reformas ortográficas de trinta em trinta anos (1911, 1945, 1973, 1990); com a quantidade de problemas que o Acordo Ortográfico tem levantado não faltará muito tempo para a próxima mudança (sugerida, entretanto, pela Academia das Ciências).
A questão da representação por escrito de uma palavra é muito complicada e penso que deveria ser este o centro do debate em torno do Acordo Ortográfico (em vez do sucessivo apontar de erros, lacunas e omissões, se bem que seja uma actividade necessária). Sim, sim, autores e promotores das reformas ortográficas que mandam calar as vozes contrárias ao seu proselitismo: tem de haver sempre um debate, e devemos exigir que seja permanente. É lamentável aceitar-se a ortografia do Acordo Ortográfico por cansaço ou pelo encolher de ombros lusitano. Numa sociedade livre os debates de ideias não são casos encerrados, muito menos quando a força da lei nos coage, nos oprime e nos obriga a escrever não apenas com normas em que não acreditamos, mas que são completamente erradas e contrárias à elementar lógica.

Continua…

N.B.: Este texto tem o título da obra de João de Morais Madureia Feio (publicada em 1734) e inaugura a etiqueta «obra vtil & necessaria pera bem screuer», subtítulo (ligeiramente alterado) da Ortografia da Língua Portuguesa, de Duarte Nunes de Leão (de 1576).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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