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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

07
Out19

Os livros que (não) envelhecem

Ricardo Nobre

Não posso dizer — porque não me lembro — que desde cedo me interessei por livros, mas sei mais ou menos do momento em que eles se tornaram parte do meu quotidiano. E sei perfeitamente que o primeiro livro não infanto-juvenil que li foi A Cidade e as Serras, comprado por mera casualidade (porque conhecia o nome do autor) na feira do livro durante umas férias de Verão, na ressaca de dois anos lectivos em que o português e o funcionamento da língua se tornaram as minhas disciplina e matéria favoritas (em vários aspectos, sou um produto dos professores que tive e durante muitos anos ambicionei ter uma carreira no ensino básico e secundário, sonho que abandonei quando outros caminhos se revelaram ainda mais estimulantes). Lembro-me de que ia muitas vezes ao dicionário (um tipo de obras de que sempre gostei), e por isso a leitura de Eça foi exigente e cansativa, o que não quer dizer que me tivesse impedido de fascinar com o transporte para uma época muito anterior à minha, na qual era possível começar a desfrutar dos primeiros resultados da tecnologia.

À medida que ia lendo vários tipos de literatura, lia também sobre literatura, o que provocou uma reacção semelhante à observação de uma tapeçaria, capacitando-me para a apreciação das suas cores, texturas, materiais e nós que a rematam. Além de ver a tapeçaria, via também o seu reverso e compreendia como a imagem se constrói. Se, como falantes, apreciamos a estrutura de superfície de uma língua, o estudo da gramática e da sua projecção artística (o que comummente se chama literatura) confere-lhe profundidade, complexidade e maior interesse. Se as árvores não têm raízes iguais, dão frutos diferentes — assim, a leitura informada por um conhecimento teórico e histórico também permite atribuir valor aos textos, que são sempre distintos, formando aliás conjuntos a partir das suas características: estilo, imaginário, novas ideias (raramente revolucionárias até ao século XX), relação com a tradição (entre o respeito e a ruptura há um espectro gradativo de enorme amplitude).

A importância de um texto não é conferida por um só leitor, mas por vários, e não se resume a uma geração, mas a todas. Reflectirmos e escrevermos sobre um texto mais antigo insere-nos na sua história de leitura, para a qual podemos até nem contribuir mais do que com impressões genéricas. Falar sobre um texto é metermo-nos numa conversa que tem diversas vozes e intervenientes, de diversas origens, sensibilidades e cronologias.

Escolher um livro também — porque, teoricamente falando, um texto se relaciona com o presente em que é produzido (partilhando autor e leitor uma experiência mais ou menos comum, conflituante ou não), mas responde igualmente a aspectos históricos, pois a maneira de escrever ou de falar de qualquer de nós decorre, em termos nada despiciendos, do que sabemos e do que lemos. Um texto é também, portanto, uma resposta do presente ao passado de leituras do autor (frequentemente referido como a «enciclopédia do autor») e é recebido positiva ou negativamente de acordo a experiência (de leitura ou de vida) do leitor. Além disso, ninguém escreve apenas para o presente, uma vez que em 2019 somos o futuro do que se escreveu em 1572, ano em que se publicam em Lisboa Os Lusíadas, ou 1888 (data da primeira edição d’Os Maias).

Dito de forma radical, escrever é sempre uma reescrita e ler é um releitura.

Pacheco Pereira defendeu há algum tempo a ideia de que se pode fazer uma boa carreira de leitor lendo apenas livros que o tempo nos seleccionou, ou seja, os clássicos, obras cuja qualidade, interesse e importância várias gerações de leitores já escolheram. No entanto, o valor de uma obra literária é variável, se não de leitor para leitor, pelo menos de época para época. É falsa a ideia de que o cânone é fixo ou se encontra definido, pois está em constante revisão: quer do ponto de vista estético, quer atendendo a preocupações sociais, culturais, políticas, pedagógico-didácticas (houve o tempo em que se exigia que a literatura doutrinasse), entre outras. Nesse sentido, livros mais ou menos antigos ou recentes tendem a cair no esquecimento, enquanto outros — por vezes contemporâneos daqueles — são recuperados.

Todos os tempos são de revisão e todas as épocas (incluindo o Barroco, Neoclassicismo, Romantismo e Modernismo) são de transição para algo que veio ou virá a seguir a nós. Ainda assim, nos últimos anos tem-se assistido a um movimento de revisão do cânone e das obras clássicas na dependência dos ideais que hoje fundamentam a nossa sociedade. Sem calar «tudo o que a Musa antiga canta», «outro[s] valore[s] mais alto[s] se alevanta[m]». Importa colocar no cânone grandes obras da humanidade, mas mostrar preocupações de representatividade. Em termos institucionais, verificou-se, a este propósito, a ramificação dos Estudos Literários em Estudos Culturais, Estudos de Géneros, Estudos Pós-Coloniais (com especificações relevantes, como a literatura das grandes guerras e do 11 de Setembro ou a literatura escrita por mulheres). Seja qual for a vantagem disso, a verdade é que o respeito pela leitura, pela palavra escrita, nasce da consciência de que um texto literário trilha um caminho muito antigo e que dificilmente será lido se não se desviar dele, ainda que por momentos, ou, em casos raros, construa ele próprio um caminho inteiramente novo. Erigir um novo cânone só porque se almeja a representatividade pode revelar-se despropositado — ou pelo menos ums atitude de pouca duração e sem consequências.

Penso que um dos aspectos que contribui para o reavivar do interesse de um livro que passou despercebido no seu tempo e para lá dele diz respeito à forma como ele fala ao presente em que se vive. Foi o que aconteceu com Cesário Verde, por exemplo, que Fernado Pessoa e Óscar Lopes — cada um à sua maneira, naturalmente — impuseram como figura canónica da nossa literatura. E também por isso Uma Agulha no Palheiro e Pela Estrada Fora começam a cair no esquecimento; por isso, se pretende recuperar Aquilino Ribeiro (a que eu juntaria facilmente José Cardoso Pires, Vitorino Nemésio, Natália Correia, e sobretudo Irene Lisboa).

Enfim, seja como for, o sentimento mais frustrante de quem lê é, provavelmente, a sensação de que, no fim do livro, a leitura não terminou (para não falar das saudades que algumas personagens deixam). Não é um lugar-comum inconsequente ou frase arranjada dizer que os clássicos são livros que nunca deixamos de ler porque nunca deixamos de ler os livros que têm algo para mostrar. O que mostram é tão diverso quanto as individualidades que os criam: por isso já disse aqui que um excelente livro lido em momento não oportuno pode estragar a experiência de leitura. Se só lermos os clássicos, porém, estamos a impedir que a literatura contemporânea prospere e construa o seu próprio caminho, edificando certamente os clássicos do futuro. A decisão sobre que livros ler pode ser um dilema trágico: seja qual for a opção, há sempre um problema que não fica resolvido.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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