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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

03
Jun17

Os reis de Queluz e as jornalistas de Alcântara

Ricardo Nobre

D. Maria I, mulher de D. Pedro III e mãe de D. João VI

Nelma Serpa Pinto e Ana Fernandes (que a editou mas não corrigiu) escreveram no Público de 3 de Junho de 2017 (p. 22 da edição de Lisboa e aqui) que «[e]nquanto as tropas francesas entravam pela fronteira portuguesa em 1807, D. Maria I e D. Pedro III partiam para o Rio de Janeiro». No parágrafo seguinte, afirma-se que «[e]m 1821, D. João VI, filho da família real exilada, regressa a Portugal e realoja-se em Queluz».

Dificilmente se terão juntado tantos lapsos de História de Portugal numa publicação que se quer de referência: D. Pedro, o patrono das recomendações que ficaria conhecido como «Capacidónio» (1), morreu em 1786 (antes da revolução francesa). A sua morte foi, aliás, apontada como um dos motivos que terá levado D. Maria I à loucura. Logo, não embarcou para o Brasil.

Quando saiu de Belém, em Novembro de 1807, para fugir às invasões francesas, a família real dirigia-se à Bahia, mudando-se para o Rio de Janeiro, a capital do Brasil até 1960.

O D. João VI que, por imposição das Cortes, regressa a Portugal em 1821 não era «filho da família real exilada» porque, pela morte de D. Maria I, a sua mãe, se havia tornado rei de Portugal e do Brasil em 1816.

Quando desembarca em Lisboa, o rei vai imediatamente ao Palácio das Necessidades votar as Bases da Constituição, de onde parte para Queluz (com passagem pelo Palácio da Ajuda), onde fará o beija-mão e fica «poucas semanas» (2). Mas viverá no Palácio da Bemposta (3), onde aliás viria a morrer depois de uma célebre merenda em Belém (4). Em Queluz, vive a sua mulher, D. Carlota Joaquina (mãe dos futuros reis D. Pedro IV e D. Miguel), opositora do regime liberal implantado em 1820.

Não deixam de causar desconforto falhas tão elementares num texto sobre um tema que não é exactamente novidade — ou cujo conhecimento não é exclusivo de historiadores (falo da história do Palácio de Queluz, que as jornalistas até podem conhecer aqui ou aqui) — num momento crítico do jornalismo (tema a que gostaria de regressar em breve), quando o director do periódico, David Dinis, apela aos leitores para que façam uma assinatura. Os leitores pagarão quando pensarem que estão a contribuir para um jornalismo competente e de qualidade, e não para uma quantidade assinalável de erros factuais.

A matéria onde as jornalistas se enganaram é estudada no 6.º ano de escolaridade na disciplina de História e Geografia de Portugal, no tema «A Revolução Francesa de 1789 e seus reflexos em Portugal» (5).

(1) Porque escreveria nessas recomendações «é capaz e idóneo», juntando muito as letras.

(2) Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, vol. i, p. 261.

(3) Oliveira Martins, 1887, História de Portugal, vol. ii, p. 266. O Palácio da Bemposta é onde actualmente está instalada a Academia Militar, no Campo de Santana, em Lisboa.

(4) Oliveira Martins, 1895, Portugal Contemporâneo, vol. i, p. 1.

(5) Consultar documentos do Ministério da Educação aqui.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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