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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

06
Mar18

Pensar no presente é pensar no futuro

Ricardo Nobre

Todos temos o impulso de tentar prever o futuro: o mundo que não acabou no ano 2000 também não cedeu lugar à vida dos humanos em Marte, os nossos veículos continuam sem voar e o teletransporte ou a viagem no tempo continuam sem startups (acho eu, que ainda estou à espera de um telefone de bolso que carregue a bateria por elergia solar). Eu próprio elenquei uma lista de significativas livrarias que, mais ou menos, nos últimos dez anos têm fechado (não falei nas que abriram nem no comércio livreiro online, por exemplo), mas a verdade é que o futuro não aconteceu e ninguém pode impedir que aconteça. Saber como vai ser é impossível. É por isso que se fazem previsões que muitas vezes falham.
Isto porque no domingo o Público trazia um texto de Alexandra Prado Coelho sobre o futuro dos jornais impressos e números de vendas a cair. Não se trata da substituição do jornal em folha por nada: nunca houve tanta gente a saber ler em Portugal (embora haja quem tenha saudades do tempo em que o poder da literacia era monopolizado por alguns «doutores»), e toda a gente reconhece que os portugueses adoram consumir informação: além do acesso electrónico pelos sites ou redes sociais, há uma rádio de notícias (TSF) e mais duas (Antena 1 e Renascença) que passam informação de hora a hora (não falo de rádios locais); há quatro canais de notícias a transmitir vinte e quatro horas por dia (a ver se os sei de cor: RTP3, SIC Notícias, TVI24 e CMTV) e, em três generalistas, o principal bloco noticioso do dia dura mais de hora e meia (por vezes duas). Todos os dias.
A questão do debate centra-se no suporte, mas, a meu ver, encontra-se no imediato: quem lê o jornal em papel tem de esperar até ao dia seguinte para saber as notícias; quem lê notificações no telefone de bolso sabe que um intercidades descarrilou entre Santa Comba Dão e Mortágua minutos depois do sucedido. Por isso, no texto de Prado Coelho, muitos testemunhos reclamam uma diferenciação entre o digital e o analógico.
Não faltam também justificações para que os gráficos na venda dos jornais apontem sempre no sentido descendente (curiosamente, o Público, considerado jornal de referência, mantém resultados positivos). Mas é impossível não perceber que, tal como aconteceu com a TSF durante muitos anos, um jornal vale mais quanto maiores são a sua originalidade, o rigor e até a imaginação; em suma, a qualidade. Acabei de escrever que temos quatro canais de informação todo o dia: falta dizer que estão todos a dizer a mesma coisa, às mesmas horas. A repetição de conteúdos (nacionais e estrangeiros) deixa-me deslumbrado: então só um chegava porque nem pluralidade nos comentadores existe. O mesmo para o jornal (e a sua excessiva dependência das versões da Agência Lusa). Julgo que o Expresso mostra bem esse critério da originalidade e capacidade de dar notícias que não vêm nos outros meios de comunicação: durante o fim-de-semana, as notícias repetem o que vem neste jornal. Por outro lado, exemplos como o Expresso Diário, online e pago (mas disponível para quem compra o semanário), e o Observador, online e gratuito, mostram que a questão também não é só o acesso livre.

Este assunto interessa-me ainda por outro motivo: porque a leitura que se faz dos números dos jornais não é diferente do que acontece com a edição de livros. Excluindo os sites de partilha gratuita e ilegal de livros, existem livros convertidos em formatos electrónicos. Se na Wook a diferença entre um livro de duzentas páginas e um ficheiro que se descarrega para um aparelho é um ou dois euros (esgotando o argumentário de editores sobre o custo de produção do livro, que se fica apenas pelo design), na Amazon a diferença é muito significativa. O problema é que, olhando a classificação dos leitores compradores, há milhares de livros com uma classificação mais baixa porque as versões Kindle são, no geral, más (por vezes, enganadoras). Vale recordar que uma versão electrónica de um livro não é uma digitalização em pdf.
Pessoalmente, considero que a grande vantagem dos e-books (e da leitura online, no geral) é o facto de uma maquininha iPad, Kindle ou aparentada poder conter milhares de livros, que não ocupam espaço físico dentro de casa. Mas a tecnologia de Gutenberg e o engenhoso formato adequado às mãos de uma pessoa adulta, que folheia um papel amigo do ambiente, permanecem inultrapassados. Poderia dizer, com Umberto Eco, que ao livro nunca falta a bateria, mas poderia obter como resposta que para ler no iPad não é preciso ter a luz acesa…

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.