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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

02
Jan20

Pior que bem

Da série escrever para o jornal sobre uma norma que a língua não tem

Ricardo Nobre

Na gramática de português há algumas regras que aparentam ser arbitrárias, debitadas em livros de «bem escrever», sem que haja justificação, explicação ou comentário para o que se recomenda ou para o que se condena (normalmente, se o gramático gosta de uma construção, permite-a; se embirra com ela, condena-a). Alguns falantes aprendem-nas dos seus professores e passam-nas, por sua vez, aos alunos, tomando-as como leis inquestionáveis. Este gesto atribui à gramática e a preconceitos um poder que nada nem ninguém deveriam ter. Vem isto a propósito de uma curiosa carta à direcção do Público, publicada dia 22 de Dezembro do ano passado, onde uma leitora escrevia: «Tenho a agradecer a Vasco Pulido Valente (V.P.V.) o pedido público aos seus colegas para que distingam entre “melhor” e “mais bem”. Professores, mesmo ex-professores, subscrevem, não pelo bem-estar linguístico exclusivo dos colegas de V.P.V., mas das “massas” e respectivos filhos» (p. 6). A leitora aludia ao «Diário» de Valente de 14 daquele mesmo mês. Na entrada de 7 de Dezembro, o autor (identificado como historiador) escrevera: «Peço aos meus colegas do jornalismo falado e escrito, mas sobretudo falado, que não se esqueçam sistematicamente de que “melhor” não é igual a “mais bem”» (p. 9).

Autor e leitora estão a falar do comparativo do advérbio «bem» (superlativo: «optimamente»), que não querem contaminar com «melhor», que seria, no seu entender, comparativo (e superlativo) do adjectivo «bom» (superlativo: «óptimo»). Teríamos assim um limite muito seguro entre as classes de palavras: ao adjectivo o que é do adjectivo, ao advérbio o que lhe diz respeito. De onde vêm estas regras senão de um português «mais bem» aprendido por uma escola «melhor» do que a que agora existe?

Falemos, portanto, de «mais bem» e de «melhor» (mas poderíamos estar ainda a falar de «mais mal» e «pior», «mais pequeno» e «menor», «mais grande» e «maior»).

Apesar do que a leitora e Valente reivindicam, a palavra «melhor» é, de acordo com vários dicionários e com o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966), comparativo de bom e de bem. Trata-se, consequentemente, de um adjectivo e de advérbio (a diferença é que enquanto adjectivo a palavra admite flexão e como advérbio, não) — e com efeito, olhando à etimologia, em latim, melior é feminino e masculino e melius é neutro do adjectivo bonus e comparativo do advérbio bene. Nada mais natural que a forma de masculino e feminino tenha levado de vencida à neutra, que desapareceu da nossa língua, impondo-se em todos os contextos. O mesmo fenómeno é exibido por outras línguas indo-europeias, como o grego (a regra é: o comparativo do advérbio coincide com o acusativo neutro do comparativo do adjectivo — Boas et al., The Cambridge Grammar of Classical Greek, Cambridge Univ. Press, 2019, pp. 87-88). Também Ferreira e Figueiredo (Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto Editora, 1995, p. 221) avisam: «Não confundir melhor (comparativo de bem) com melhor (comparativo de bom): “Os meus estudos vão bem, mas podiam ir melhor (= mais bem)” e “Este aluno é bom, mas aquele é melhor”».

Sem se poder obrigar o utente da língua portuguesa a usar construções latinas (em prol de um purismo que rigorosamente nunca existiu), observe-se que em latim (e em grego) os comparativos de superioridade se formam normalmente por sufixação (ou seja, muda a terminação da palavra). Em algumas situações, poderia ainda recorrer-se a advérbios equivalentes aos nossos mais, menos, muito (Almendra e Figueiredo, Compêndio de Gramática Latina, Porto Editora, 2003, pp. 55 e 58). Foi isto que o português normalizou: numa tendência analítica, usam-se mais palavras e reduziu-se a flexão. Nada nestas transformações é linear, e por isso mantêm-se do latim, além dos superlativos óptimo e péssimo, os comparativos melhor (< melior) e pior para bom e mau (aquela terminação -ior é precisamente a marca latina de comparativo de superioridade de que se falava atrás).

Por haver duas formas disponíveis, uma latina e outra mais portuguesa, diz-se que os adjectivos têm uma forma de comparativo (de superioridade) sintética e outra composta. «As formas compostas do comparativo de superioridade e de inferioridade dos adjectivos bom, mau, grande, pequeno, alto, baixo, empregam-se quando se comparam qualidade do mesmo sujeito ou da mesma acção: É mais mau do que irreflectivo» (Ferreira e Figueiredo, Compêndio de Gramática Portuguesa, p. 153).

Interessa, porém, olhar para o advérbio.

Ainda que mais próxima da origem da língua, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra (Sá da Costa, 15.ª ed., 1999), classifica de «anómalas» as formas «melhor» e «pior» como comparativos de advérbios (pp. 545-546); sem condenar o seu uso, regista-se, porém, uma restrição: «os comparativos regulares mais bem e mais mal [são] usados, de preferência, antes de adjectivos-particípios», demonstrado por exemplos como «As paredes da sala estão mais bem pintadas que as dos quartos». O aborrecimento é que «na posposição só se empregam as formas sintéticas»: «As paredes da sala estão pintadas melhor que as dos quartos» (p. 546). Estranho advérbio que não admite mobilidade na frase, «desfazendo-se» na forma anómala quando muda de posição.

É uma restrição estranha: o que a justifica e a que se deve? Não há resposta para isso; a regra ficou enunciada para Pulidos Valentes e suas leitoras as imporem a colegas e aos leitores.

Vejamos o que por aí se disse.

No Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Rodrigo de Sá Nogueira (Livraria Clássica, 2.ª ed., 1974) afirma: «Melhor feito. Melhor acabado. Melhor pensado — Isto é corrente, mas não é correcto. Os escrupulosos, que têm a verdadeira noção do valor gramatical da forma melhor, não a empregam assim. — Melhor é a forma comparativa do adjectivo “bom”, não do advérbio “bem”: melhor equivale a “mais bom”, que se não usa; “mais bem” usa-se, naturalmente porque não existe uma forma simples designativa do comparativo do advérbio “bem”. […] Diz-se: “este rapaz trabalha mais bem ou mais mal que ou do que aquele”, e não: “este rapaz trabalha melhor ou pior que ou do que aquele”. […] Não obstante o que fica exposto, há certa tendência para empregar as formas melhor e pior, não só com o valor de comparativo dos adjectivos bom e mau, como dos advérbios bem e mal» (pp. 250-251, itálicos e negritos do original, sublinhado meu).

À margem, comente-se que é muito bizarro fazer coincidir o que se diz com a norma e o que não se diz com o erro, sobretudo quando no fim se admite que o que não se diz é afinal o que se diz. Além disso, se historicamente melhor (e pior) funcionam bem como advérbios, porque é que Nogueira lhe retira a pertença àquela classe de palavras? Reconhecendo a «tendência para empregar as formas melhor e pior […] como dos advérbios bem e mal», é igualmente interessante que no artigo «Melhores», que se segue ao agora citado, Sá Nogueira volte a escrever: «Propriamente a forma melhor é o comparativo do adjectivo bom, não do advérbio bem. Contudo, na prática, está há muito consagrado que ela é também comparativo desse advérbio bem em certos casos. O comparativo regular de bem é mais bem.» Parece escrito por outra pessoa, mas é o mesmo Sá Nogueira que continua: «“Melhor” é a forma comparativa do adjectivo “bom”, e do advérbio “bem”; no primeiro caso é variável, mas no segundo não deve ser. — Assim, diz-se: “o meu carro é melhor que o teu” e “os meus cavalos são melhores que os teus”, mas “o doente está melhor”. — No primeiro caso, pois, “melhor” equivale a “mais bom”, e “melhores” a “mais bons”; no segundo caso a “mais bem”». Neste ponto, não há dúvida de que nenhum falante de português optaria por «mais bem» em vez de «melhor» (que também funciona como adjectivo: «os doentes estão melhores» é, provavelmente, menos estranho do que «os doentes estão melhor»).

Sá Nogueira, todavia, ainda não acabou; apela agora à autoridade: «O Dr. Cândido de Figueiredo condenava que se dissesse, por exemplo, “este livro está melhor feito que aquele”, preconizando que de preferência se dissesse: “este livro está mais bem feito que aquele”. A razão que dava era de que “melhor” é propriamente comparativo do advérbio “bom” e não do advérbio “bem”. — Se o benemérito lexicógrafo tivesse razão, certamente deixaríamos de poder perguntar a alguém se está “melhor”, para termos de passar a perguntar-lhe se está “mais bem”. — Sem dúvida, Cândido de Figueiredo estava na razão: gramaticalmente é assim. O que acontece é que o uso geral determinou “não obedecer às razões de lógica gramatical”» (p. 251, itálicos do original, sublinhado meu).

Esta última citação vai ao encontro do que atrás foi dito sobre restrições de uso de «melhor», mas, como atrás também se disse, gramaticalmente não «é assim». Porque não é em todas as situações que «mais bem» substitui «melhor». Nos exemplos do excelente lexicólogo e fraco poeta Cândido de Figueiredo, é clara a preferência por «mais bem» porque a perífrase acompanha um particípio passado. Sá Nogueira nunca faz essa distinção. Em «Mais bem. Mais mal. Mais bom. Mais mau», no mesmo Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, o autor repete as informações já mencionadas, mas recorre a Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, pp. 203-204 (2.ª ed.): «Assim como ninguém dirá “a obra melhor feita”, mas sim “a obra mais bem feita”, nem “o melhor aventurado”, mas sim “o mais bem aventurado”, corrente e correcto será dizermos “as obras mais bem acabadas”, “os livros mais bem impressos”, “os concorrentes mais bem classificados”. — A meu ver, a razão filológica de que o mais bem é ali a forma exacta, é que o advérbio bem, anteposto a adjectivo qualificativo, é um proclítica, isto é, um elemento que perde a sua acentuação própria, subordinando-se à do adjectivo, e constituindo com ele como uma só palavra. Em bem aventurado até se reuniram os dois termos, formando realmente uma só palavra. — (Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 1905)» (p. 240, itálico original).

José Leite de Vasconcelos está apenas a falar de «mais bem» com particípios e explica porque é que ele pensa que esse fenómeno se dá com essas formas (ainda não lêramos nada que explicasse o fenómeno). O que está em causa para o grande sábio é que, afinal, «bem+particípio» já constitui uma unidade lexical, e por isso o comparativo natural forma-se regularmente com o acrescento de «mais» antes de «bem feito», «bem construído», «bem formado», «bem aventurado» (esta última expressão lexicalizou-se como uma só palavra, e por isso escreve-se com hífen quando é substantivo). Essa unidade lexical parece ser um bom motivo para que «As paredes da sala» de Cunha e Cintra estejam efectivamente «pintadas melhor que as dos quartos», pois a expressão deixou de ser «bem pintadas». A mesma análise é feita por Augusto Epifânio da Silva Dias, como mais abaixo citarei.

No entanto, há o uso, a história da língua e as suas áreas críticas (oscilações sincrónicas), que denunciam a veracidade do lugar-comum «a língua não é estática» (declinado também como «a língua é dinâmica», «está sempre a evoluir», etc.). É por isso que a gramática (e a linguística contemporânea) tem de ser teórica: para descrever abstractamente o funcionamento da língua, dando conta de diferentes construções (nota autobiográfica: tive uma professora de Sintaxe que dizia que a língua não tem excepções, tem é situações não explicadas).

Epifânio da Silva Dias, na sua Sintaxe Histórica Portuguesa (5.ª ed., Livraria Clássica Editora, 1970) recolhe a lição da sã linguagem dos nossos clássicos:

«De comparativo (de superioridade) de grande serve maior; de bom e de bem, melhor; de pequeno, menor (a par de mais pequeno); de mau e de mal, pior:

E a saude melhor he conheçida depois da doença que primeyramente (V. Bemf., 222). mal entendida, e peor praticada (Vieira, II, 108). ouçamos aquelle engenho [Ovidio] que melhor que todos soube exprimir os affectos da dor, e da natureza (Id., ibid., 877, 878).

No port[uguês] arc[aico] também se dizia mais grande:

em outro mais grande (Gir. Alv., 14).

Pode dizer-se, v.g.: mais ou menos grande:

Obs. Diz-se v.g.: mais bem feito, mais mal feito, porque mais pertence para o conjunto bem feito, mal feito. Também quando se comparam qualidades do mesmo sujeito, ou da mesma oração, naturalmente se diz, vg.: ele é mais mau do que irreflectivo; procedeu mais bem do que mal.» (pp. 169-170, itálico do original, sublinhado meu, ortografia actualizada, excepto nos exemplos, cujas abreviaturas correspondem, segundo pp. 7-11, a: Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro, Porto, 1910: cit. a página; P.e António Vieira, Sermões: cit. a parte e a página; Mestre Giraldo, Livro d’Alveitaria: cit. a página da Revista Lusitana, tomo 12)

A leitora citada, os seus colegas e Pulido Valente continuam com a legitimidade de reclamar de «melhor», mas a verdade é que nada podem fazer contra o uso (contemporâneo ou não), a etimologia, e a história da língua. São  irreflexões de quem chega à letra de forma da imprensa que mais não fazem do que espalhar o erro, o preconceito e, desculpem lá, a ignorância de que acusam os outros.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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