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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

15
Mar18

Plágio é roubo

Ricardo Nobre

No dicionário da Porto Editora, a definição é muito clara: «apresentação que alguém faz de obra ou de trecho de obra (literária, científica, musical, artística, etc.) da autoria de outrem como sendo de sua própria autoria». Também a etimologia é muito significativa: em latim, plagium significa «roubo». Foram recentemente notícia a possibilidade de cantores de música ligeira portuguesa terem plagiado canções de outros artistas (sobretudo Tony Carreira, já que a música que Diogo Piçarra levou ao Festival da Canção era apenas, provavelmente, uma antologia de lugares-comuns1).

Entra ainda na categoria do «plágio» a utilização de uma obra ou parte dela numa outra, mesmo que seja do próprio autor: é o autoplágio. Ficou famosa a investigação de João Pedro George que deixou provado que a escritora Margarida Rebelo Pinto se copia a si própria. No entanto, há casos muito mais graves, também relacionados com (uma vez mais) graus académicos ou currículos universitários. É disso que trata o texto de Patrícia Araújo no Público de ontem.

A autora conta a sua experiência de se ver plagiada, enquadrando a prática em notícias que têm sido divulgadas pelos meios de comunicação. O texto é uma chamada de atenção sobre um tema tão sensível quanto frequente: não deve haver professor de qualquer nível de ensino que não encontrou trabalhos plagiados ou copiados da internet, o que me leva a pensar que é quase uma questão cultural (há alunos para quem fazer copy-paste é o «trabalho»; alguns, mais sofisticados, ainda usam as ferramentas do Word para substituir algumas palavras por sinónimos). Por isso, compreenda-se que o plagiador nem sempre age de má-fé. É apenas ingénuo, mas só é até ao momento da entrega da tese. Na universidade onde me formei, os candidatos a mestres e doutores (com doutoramento) entregam nos serviços académicos uma declaração, sob compromisso de honra, a dizer que o trabalho é original.

Patrícia Araújo mostra (com razão) a sua frustração, mas não fala em casos de graus académicos cancelados. Conheço, porém, exemplos de mestres que voltaram a ser licenciados porque a universidade deu como provada a prática de plágio. Aliás, a disponibilização (obrigatória) das teses em repositórios facilita o plágio, mas também torna muito mais fácil a sua detecção.

Uma tese de doutoramento em que se encontre a prática de plágio é recusada por uma universidade e o candidato não pode voltar a submetê-la à mesma instituição. Por isso, também conheço pessoas a quem isso aconteceu: foi entregar a tese noutra universidade e já tem o grau.

Há ainda autoplágios académicos. Se ninguém leva a mal a reutilização de uma parte de um artigo num outro (aquilo a que na gíria se chama «refrito», que é uma lamentável forma de aumentar o currículo com imensa produção científica que é apenas repetição do mesmo), também já encontrei uma tese de mestrado apresentada numa universidade que foi reutilizada como tese de doutoramento (tinha apenas um capítulo a mais) noutra universidade: até as palavras de agradecimento ao orientador eram as mesmas, apesar de serem pessoas muito (mas mesmo muito) diferentes.

Que fazer para que as práticas de plágio não permaneçam impunes? Talvez seja preciso criar um movimento de denúncia como tem acontecido com o assédio sexual. Ambos configuram a prática de meter a mão naquilo que não lhes pertence.

1 Se houver paciência para isso, veja-se este videozinho.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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