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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

07
Abr19

Porque vou deixar de ser assinante do Público

Ricardo Nobre

«O PÚBLICO vai mudar o regime de acesso aos conteúdos da edição online.» Assim começa a mensagem no fim dos textos publicados no site do jornal, que avisa ainda: «A partir de 9 de Abril [de 2019], parte das nossas notícias, artigos de opinião, entrevistas ou reportagens serão exclusivamente reservadas a assinantes». Coincidentemente, na sexta-feira passada, chegou ao fim a minha assinatura do Público, que, depois de vários anos, entre o digital e o papel (no sítio onde vivo, tinha a opção de receber o jornal em casa todos os dias), não renovarei.

Curiosamente, quando reflicto sobre esta decisão, percebo que é o facto de ter lido o Público diariamente durante tantos anos que me faz tomá-la. Algumas razões encontram-se espalhadas por vários textos deste blogue, onde também foi sendo registado o que penso sobre o financiamento do jornalismo «de qualidade». Tentarei não me repetir nem escrever a minha biografia, embora tenha sido leitor do Público desde o início do século, que coincidiu com a minha chegada à vida adulta.

1. Visual gráfico. As mudanças de visual do Público venceram vários prémios de design, mas amarguram-me cada vez mais. Assisti à imposição de um P enorme e vermelho, que é enorme, vermelho e horrível em comparação com o lúcido, leve e forte PÚBLICO original, na esperança de que o logótipo original regressasse. Debalde. Mas as cores e ilustrações não substituem nem garantem a qualidade dos textos.

2. Organização do jornal com notícias grandes, médias, pequenas e breves. Certo: há um grau de importância nas coisas, há que fazer uma hierarquia, há uma intuição jornalística sobre um acontecimento pequeno se tornar grande ou um acontecimento grande não ser grande coisa. Mas que interesse tem ocupar mais de meia página de uma notícia com uma fotografia de arquivo vista cinquenta vezes? Porque é que todas as notícias do ensino superior são ilustradas ou pela entrada do metro da Cidade Universitária, em Lisboa (o metro não tem muito que ver com o ensino superior, pois não?), ou com alunos trajados a passar no pátio das escolas de Coimbra? Não vamos falar das imagens recolhidas na zona de Alcântara, a menos de 500 metros da sede do jornal.

3. Cultura confundida com cultura estrangeira, impondo uma uniformização cultural como algo moderno e que deve ser seguido por todos.

3.1 Lendo o jornal durante vinte anos, compreendemos o que os jornalistas, editores, directores e críticos entendem por cultura. Acabaram com o Mil Folhas e apareceu o Ípsilon, que agregou todos os suplementos culturais ou quási-culturais do jornal. Agora, há especiais sobre a Guerra dos Tronos a ponto de se dar espaço num jornal destes a uma entrevista com uma pessoa de nacionalidade portuguesa cujo grande feito foi ser um figurante na série… é mais preocupante do que só darem atenção à investigação feita em Portugal quando ganha prémios no estrangeiro (ou quando um português integra uma equipa internacional) ou quando a FCT se atrasa nos pagamentos.

3.2 Há notícias grandes e médias sobre exposições em Londres e na biblioteca de Nova Iorque, mas as grandes exposições na Biblioteca Nacional de Portugal só têm direito a uma notícia (pequena ou breve) se o comissário for amigo de alguém da redacção. Aparecem grandes entrevistas com escritores estrangeiros (mas não necessariamente com pensadores). Pensadores, escritores, editores, músicos, artistas portugueses são uma raridade nas páginas do jornal. Aliás, este blogue já fez contagens de livros portugueses que apareciam no Público: deixou de o fazer por fastio, mas a contagem é a mesma todas as semanas (eu sei, ainda vi a entrevista publicada no jornal de sexta a João Luís Barreto Guimarães; a entrevista a Isabel Rio-Novo, na semana anterior, teve outra natureza, benza o excelente entrevistador).

3.3 A cultura e as manifestações culturais não se medem em estrelas, mesmo que seja assim que o New York Times ou o The Guardian façam as coisas.

4. Edição em papel pensada para não leitores. Mais recentemente, já na direcção de Manuel Carvalho, houve mudanças na opinião («Espaço Público»): os que saíram (sinto a falta de Bagão Félix), os que entraram (excelente Luís Aguiar-Conraria), os que ficaram (obrigado, Pacheco Pereira e Miguel Esteves Cardoso). Além disso, mudaram o espaço físico do «Espaço Público»: só João Miguel Tavares, Rui Tavares e Vicente Jorge Silva se mantiveram, com Luís Afonso, na última página. Os outros foram todos para a frente, a seguir aos «destaques». Quem lê o jornal em papel e começa de trás para a frente, como eu, ficou com uma sensação ainda maior de vazio entre a última página e a «Cultura» (é verdade: passo por cima do desporto, dos cinemas e das grelhas de programação).

5. Peditórios. Ao mesmo tempo, a agonia do jornalismo, os textos sensibilizadores, o «senhor(a) leitor(a), dê uma ajudinha ao jornalismo de qualidade». E eu fico a pensar: que têm feito com a ajuda que lhes tenho dado estes anos todos? Onde gastaram o dinheiro que eu sacrifiquei da minha mesada de estudante de Letras que saía de casa à sexta para entrar na papelaria do Sr. Luís para comprar o Mil Folhas (e quando possível os livros da colecção epónima)? Que noticiam eles que os outros não fazem? Só vejo que sabem muito do que se passa no estrangeiro, mas deixam passar que em Portugal não se publicaram gramáticas de latim entre 1974 e 15 de Março de 2019 (era só pesquisar na Porbase, nem precisavam de perguntar a mais ninguém).

6. Português. Não falarei outra vez naquela que para mim não é uma questão menor, a indigência linguística, evidente no desencontro entre o que defende o Livro de Estilo e a forma com que o português é usado. Eu sei que a formação universitária em jornalismo deitou para as redacções pessoas que não usam a língua de forma superior, mas alguma diferença havia de haver entre o Público, onde escrevem e escreveram jornalistas tão inteligentes e lúcidos, e outros jornais.

Pagar. Continuo convencido de que as pessoas que acedem a informação na Internet (no computador e outras plataformas) estão dispostas, como eu, a pagar para aceder a conteúdos. O problema é que, se pensarmos que os jornais poderiam vender conteúdos avulsos e sem assinatura (como a indústria musical fez na Apple Store), a desilusão seria mais mensurável que é hoje: iríamos pagar 15 ou 90 cêntimos por um artigo cujo título foi feito para induzir o «clique» (que se chama «jornalismo sensacionalista»).

Adeus. A mensagem do Público que comecei a citar no início deste texto termina dizendo que «Ser assinante do jornal representa muito mais do que o acesso livre e fácil ao jornalismo do PÚBLICO; representa também o seu apoio aos valores de uma sociedade aberta, tolerante e solidária que, hoje mais do que nunca, é fundamental defender.» Eu defendo uma sociedade descrita com três adjectivos. E é por a defender que lutarei por ela por outros meios que não financiando o Público, que deixou de ser  jornal para mim.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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