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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

29
Abr19

Portugal [não] é um país xenófobo

Ricardo Nobre

Parece que o presidente do país mais poderoso do mundo tem muito tempo livre para ler a (ou, no caso, ver os bonecos da) imprensa portuguesa: António, cartoonista do Expresso, é intimado pelo Presidente dos Estados Unidos da América a pedir desculpa pela publicação de um desenho em que Donald Trump passeia pela trela um cão com a cara de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Agora é acusado de anti-semitismo.

Quem não se lembra da polémica sobre um desenho do mesmo artista a retratar o papa, O Que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs, a recolha de crónicas de Mário de Carvalho (originalmente vindas à publicidade no Público e no Jornal de Letras), faz o favor de lembrar, tal como nos recorda que não é só de hoje a preocupação dos artistas com a liberdade de expressão — mesmo que não seja lícito mandar um jornalista tomar banho (não se pode dizer que tal linguagem não seja colorida, mas os jornalistas não gostam de ironia porque são muito sérios — sobretudo os do Correio da Manhã). No entanto, o discurso de ódio pode ser alimentado pelo humor, que tem sido, aliás, uma das formas de eternizar ideias preconceituosas em relação a grupos historicamente perseguidos e oprimidos. O debate pode continuar: a liberdade de expressão não deve ter limites, mas não se pode criticar o seu uso em favor do ódio? É claro que o cartoon em causa não é um exemplo bom para isso, pois tem uma mensagem muito clara: Israel guia a política dos E.U.A., países alegorizados pelos homens do poder. O debate deve ser feito sem ter por base casos concretos.

Por falar em xenofobia, na universidade onde me formei, os alunos que estudam leis oferecem pedras para atirar aos estudantes brasileiros (tratados por «zucas»), com o pretexto de que estes, com notas mais altas, passarem à frente na admissão ao mestrado. É dos casos em que se pode dizer «Estudasse!». A reitoria anunciou processo disciplinar.

Foi um dia cheio de xenofobia. Um terceiro caso, testemunhado pelo autor destas linhas: chegando à estação terminal, os revisores da CP já não fiscalizam os títulos de transporte dos passageiros, ou muito raramente o fazem. Hoje, um mais atento, venerador e obrigado passava multa a uma senhora cuja cor da pele sugeria ter nascido numa das nossas ex-colónias. A mim, jovem branco, nascido em Portugal, não foi pedido qualquer título de transporte (que nem sequer estava validado porque a máquina na estação onde embarquei estava avariada). Quem nunca assistiu a cenas semelhantes com passageiros não portugueses e quem nunca assistiu a cenas em que o revisor (a classe profissional que ameaça parar os comboios dois dias do próximo mês) não pede título de transporte a portugueses sem-abrigo ou embriagados que atire a primeira pedra. Se não tiver nenhuma à mão, peça aos alunos da Faculdade de Direito.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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