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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Mar18

Quantas Peregrinações há?

Ricardo Nobre

Prometo não fazer do plágio um tema frequente deste espaço, mas a complexidade do assunto exige que se fale nele novamente.

Falei aqui de apropriações na academia e no jornalismo. Desinteressa-me um pouco a história da música da festa da canção da RTP (não vi ninguém fazer uma comparação entre músicas, apenas jornalistas velhacos a remeterem os leitores para o Youtube), mas agora volta a discutir-se o plágio no uso criativo, desta vez no cinema. João Botelho, que toda a gente conhece, terá usado o livro de Deana Barroqueiro, que pouca gente conhece, para criar personagens e cenas no filme Peregrinação. Aparentemente, a produtora do filme reconhece a relação, mas o que parece estar em causa (ou pelo menos o que justifica a notícia) é a falta de menções de Botelho ao contributo de Deana Barroqueiro para a sua obra, visto que a escritora aparecer nos agradecimentos do filme não é crédito suficiente.

Na verdade, a notícia tem um título enganador: Botelho não adaptou (nem «terá adaptado») o romance de Barroqueiro. Poderá ter usado cenas e personagens retirados do romance (a autora diz que o romance tem bibliografia, por isso dá ideia de ser daqueles livros que, sendo ficção, reclamam ser história, algo que o patrono deste espaço reprovaria e que o seu mestre repudiaria). A produtora do filme diz que não conseguiu contactar a autora do livro, mas que, apesar disso, usou a obra à mesma, ou seja, sem autorização. Já tinha ouvido críticas ao filme por ser pouco fiel à verdadeira Peregrinação e por dizerem f em vez de ss porque alguém viu o ſ (é um s longo) na tipografia do tempo e tomou-o por um f, pensando que não existiam ss no tempo de Fernão Mendes Pinto (ou quando o livro foi publicado, décadas depois da morte daquele).

Sem ter visto o filme nem ter lido o livro, importa repetir novamente e sempre: o uso indevido (por não ter sito citado ou por a dívida não ter sido reconhecida) da obra de outra pessoa, quer científica, quer artística, é plágio. No entanto, João Botelho não publicou um livro com parágrafos escritos por Barroqueiro. Criou uma obra cinematográfica, usando personagens de um livro. Aliás, o suporte não é o mais importante aqui: há o caso de um Diego Velázquez e de um Pablo Picasso, como há um Hércules de Eurípides, outro de Séneca e outro da Disney. Também há um Camões original e um Camões de Almeida Garrett ou de Arnaldo Gama. Há um poeta Bulhão Pato e há um Tomás de Alencar personagem d'Os Maias (que aparece no filme de João Botelho a fazer o contrário do que faz no livro…). Para Isabel Coutinho e Lucinda Canelas falar no caso Botelho-Barroqueiro não é suficiente — e não é por Botelho não ter falado sobre o assunto: é porque as jornalistas, que são pessoas com muitas leituras e dos poucos motivos por que ainda assino o Público, não fizeram elas próprias o confronto do livro com o filme. A descrição das cenas do livro e do filme e a sua comparação seriam suficientes para sabermos se Botelho se inspirou criativa e livremente ou se plagiou.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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