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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

15
Abr19

Que farei quando tudo arde?

Ricardo Nobre

Notre Dame

 

Já a tinha visto. As torres viam-se de vários locais da cidade, ao longe, mas na manhã do último dia de Novembro (tinha de ser Novembro) — a véspera do terceiro sábado de coletes amarelos — aproximei-me. As torres são altíssimas, como comprovo, lá em baixo, a olhar para elas, sentindo a minha pequenez diante do edifício cuja estrutura original tem 850 anos.

Na praça em frente, montavam uma árvore de Natal. O Sena aqui ao lado. A fila para a entrada não era grande; ainda não eram dez da manhã; chamam-me a atenção avisos que informam que a entrada naquele templo cristão é gratuita, precisamente porque é um local de culto católico (olá, Sé Velha de Coimbra). Depois dos atentados terroristas, a entrada em edifícios públicos de Paris é controlada com detectores. Desarmado (também figuradamente), entrei.

A altura, afinal, esmaga mais que lugares apertados. O interior era escuro; a iluminação moderna não estragava o efeito provocado pelos enormes vitrais. Metros e metros de capelas, estátuas, pinturas, sítios para acender velinhas a vários santos devotos, um grandioso presépio. Além de mim, começam a encher os corredores laterais da catedral hordas de turistas. Evitei fotografar tudo porque planeava um regresso, na próxima visita a Paris, eventualmente com companhia, para ver o interior com mais atenção, comentar os vitrais, identificar as estátuas (homenagem a Joana D’Arc, ali beatificada ainda antes da Grande Guerra), quem sabe até assistir a uma missa. Nalguns locais, informações sobre a história do edifício, que tem, faço agora as contas, a idade de Portugal.

Notre Dame

Apesar de toda a riqueza que a rodeia, o mais impressionante no templo gótico, de uma altura impressionante, é mesmo a nave central. A mesma que, no momento em que registo estas palavras, está a arder.

Não importa que se possa reerguer o que caiu. É irrelevante que se encha um novo espaço com outras obras de arte igualmente valiosas e insubstituíveis. A Catedral de Notre Dame está a arder: as declarações citadas nas notícias falam em perda, em danos irreparáveis, em catástrofe. Ninguém morreu, ninguém está ferido.

Se a catedral fosse apenas um edifício, não ficaríamos tão tristes como se tivesse morrido um familiar. Se a catedral fosse francesa, não choraríamos como se tivesse sido um símbolo nosso que se perde. É a história que arde. Um símbolo de Paris, da Europa (o monumento mais visitado do continente) e da nossa civilização. A mesma que permite outros atentados contra a história, contra a ciência, que odeia o conhecimento, que apregoa liberdade perseguindo o que é diferente.

Não penso que o incêndio de Notre Dame seja uma alegoria do fim dos tempos, mas tenho a certeza de que a destruição da história e da nossa identidade não acontece apenas pela destruição de monumentos. A destruição da Catedral de Notre Dame é uma alegoria da destruição da nossa memória cultural e civilizacional, em 2019 como há 850 anos. O incêndio na Catedral de Notre Dame diz que afinal os bárbaros somos nós.

 

P.S.: O título deste texto é uma citação do nosso Sá de Miranda.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

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