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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

21
Out19

Ruído por dentro

da série Lisboa para vir ver mas não para viver

Ricardo Nobre

Esta fotografia foi tirada há umas semanas junto ao Jardim da Estrela, freguesia da Estrela, em Lisboa.

mupi campanha ruído (30 Out. 2019)

Trata-se de um mupi que está junto a uma passadeira na rotunda onde está a estátua de Pedro Álvares Cabral, junto à escola de educação João de Deus. E tirei-a porque ia eu a passar ali (como muito frequentemente sucede), tirado dos meus cuidados, e tive de voltar atrás para ver se tinha lido bem. E não, não é por um cartaz de uma campanha onde está o logótipo da Câmara Municipal de Lisboa (infelizmente não saiu completo no retrato) não usar o bem-aventurado acordo ortográfico. É porque a mesma câmara, a entidade pública que licencia os bares e as festas públicas na cidade, pede aos frequentadores da noite lisboeta (aparentemente, só para visitantes, porque a mensagem sugere que alguém se esqueceu de que vivem pessoas cá, e os residentes não o fariam) para fazerem aquilo que ela, manifestamente, não faz.

Se a minha vizinha fizesse barulho (colocando música demasiado alta, rindo e gritando com outros amigos), eu teria a polícia para proteger a minha higiene sonora, o direito ao sossego e descanso; se vivesse junto a estabelecimentos que funcionassem pela noite fora que não se insonorizassem, eu poderia fazer queixa à câmara, que, no exercício das suas competências, verificaria o nível de ruído e — espera-se — actuaria em conformidade. Mas como vivo junto a um jardim público onde a câmara promove festas que duram horas e horas, durante o fim-de-semana, com aquela música electrónica a ecoar na minha cabeça até bem depois de anoitecer, eu pergunto: a câmara está a mandar-me para ao pé do senhor Vítor Silva, que tem 61 anos?

Há uns tempos, na verdade, me tenho vindo a aperceber de que Lisboa é uma cidade má para se viver, mas boa para se vir ver. Porque depois do deslumbramento com meia dúzia de coisas começamos a notar-lhe os defeitos, que afinal são deficiências estruturais. Este verdadeiro fungagá junto a uma zona residencial é um ruído que corrói por dentro, mais do que polui. Porque a poluição se limpa, mas a corrosão mata.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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