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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

21
Jun19

Sem erros de leitura

Ricardo Nobre

Uma coisa mal aprendida pode ser muito prejudicial ao desenvolvimento do indivíduo. Não é raro ouvir pessoas com algum discernimento a argumentar que uma coisa é assim porque foi assim que ela aprendeu. Mal comparado, isso equivale a dizer que quem aprendeu que o Sol anda à volta da Terra não poderia querer (é este verbo que faz diferença) aprender que é a Terra que anda à volta do Sol ou que, tendo aprendido que não há cura para o cancro, não pode querer que haja investigação científica que tenha por objectivo encontrar soluções para problemas que hoje existem.

Não estou a dizer que o conhecimento blinda as pessoas: estou a dizer que o erro e coisas mal aprendidas blindam as pessoas a novos conhecimentos e a novas formas de pensar. Claro que os exemplos podem partir de casos práticos da nossa sociedade e dos avanços civilizacionais de que temos sido testemunhas nas últimas décadas (modos de vida amigos do ambiente, reciclagem, escolhas de consumidor sustentáveis), mas, em respeito da natureza deste blogue, dou realce a questões do âmbito linguístico, de que sobressaem interpretações supra-realistas e supra-concretistas da língua, de onde resultam as chamadas «hipercorrecções». Designa-se hipercorrecção a aplicação de um erro onde antes havia correcção. Exemplo de café:

— Queria um chá.

— Queria? Já não quer?

O segundo falante não sabe ou não quer saber que «queria» é uma forma de imperfeito do indicativo e que esse tempo, além de pretérito, tem uma tonalidade modal que lhe permite ser usado quase como um condicional («quereria um chá se o senhor funcionário tiver a gentileza de o confeccionar e entregar à mesa»). Chama-se a isto imperfeito de cortesia porque o indicativo («quero») ou o imperativo («traz») são sentidos como demasiado impositivos de uma ordem.

Outro exemplo de café é o «copo com água», que acabou por alastrar a todo o lado em vez de «copo de água». Não sei de que são feitos a caixa de sapatos, o armário dos pratos ou a chávena de chá na casa destas pessoas. Talvez não tenham sequer paredes brancas, mas sim paredes de tijolo rebocadas com cimento e pintadas com uma tinta com pigmentação branca. «Copo de água» é como sapatos de futebol: o copo não é feito de água como os sapatos não são feitos pelo futebol, mas para o futebol. A isto se chama metonímia, já Aristóteles a conhecia, e não beneficiamos em desmerecer do Mestre.

Não estou a dizer nem a insinuar que os empregados de café são responsáveis por estes erros: todos nós somos responsáveis por eles porque, no dia em que fomos «corrigidos», não tivemos coragem, jeito ou paciência de explicar que não nos estavam a corrigir, mas a impor um erro atroz, justificando coerente e compassivamente porque é mais correcto dizer «copo de água» e errado «copo com água».

O que este texto defende de um ponto de vista linguístico poderia defender no âmbito literário. Sobretudo no período da Feira do Livro li muitas observações sobre livros. Normalmente, são pessoas bem-intencionadas que dão conselhos (e a quem se pedem conselhos) de leitura. Só que a leitura de um livro não cai bem a todos os leitores. Pensemos nos comprimidos que compramos com receita médica na farmácia: foram-nos prescritos pelo médico que nos conhece, a nós, às nossas condições físicas e resultados de análises. Quantas vezes nos acontece aconselharmos (ou oferecermos) um livro a uma pessoa por querermos que ela tenha a mesma sensação que tivemos ao lê-lo, e a recepção é muito negativa. O motivo é simples: a nossa experiência, os nossos anticorpos, a nossa estrutura genética de leitura é outra — e, tal como com os medicamentos, o que salva um doente provoca náuseas a outros.

Nem preciso de iniciar aqui o debate em torno de distinção entre literatura e formas que dominam o sector livreiro, a que se tem chamado subliteratura ou paraliteratura.

É por isso que acho graça a uns textos muito ternurentos em que alguém fala de um livro para incentivar outra pessoa a ler. São textos muito ingénuos, cheios de mistura de sensações de leitura com uma espécie de vocabulário técnico (falam em trama, protagonista e personagens), valorizando-se coisas que eu nem sabia que contribuíam para a qualidade de um livro (como a velocidade com que a acção decorre, o facto de ser baseado em acontecimentos reais ou não). Usam depois uns adjectivos muito abstractos para falar do «estilo do(a) autor(a)».

Já aqui se disse que a leitura é uma actividade solitária, porque não se pode fazer em conjunto (mesmo os clubes de leitura são assembleias em que se juntam pessoas para falar de um livro que leram previamente, sozinhas). É nessa actividade solitária que nos formamos, permeabilizamos a outros saberes e avançamos no conhecimento — mesmo que seja preciso ler uma biblioteca inteira — literalmente.

Bom Verão!

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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