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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

07
Out19

Os livros que (não) envelhecem

Ricardo Nobre

Não posso dizer — porque não me lembro — que desde cedo me interessei por livros, mas sei mais ou menos do momento em que eles se tornaram parte do meu quotidiano. E sei perfeitamente que o primeiro livro não infanto-juvenil que li foi A Cidade e as Serras, comprado por mera casualidade (porque conhecia o nome do autor) na feira do livro durante umas férias de Verão, na ressaca de dois anos lectivos em que o português e o funcionamento da língua se tornaram as minhas disciplina e matéria favoritas (em vários aspectos, sou um produto dos professores que tive e durante muitos anos ambicionei ter uma carreira no ensino básico e secundário, sonho que abandonei quando outros caminhos se revelaram ainda mais estimulantes). Lembro-me de que ia muitas vezes ao dicionário (um tipo de obras de que sempre gostei), e por isso a leitura de Eça foi exigente e cansativa, o que não quer dizer que me tivesse impedido de fascinar com o transporte para uma época muito anterior à minha, na qual era possível começar a desfrutar dos primeiros resultados da tecnologia.

À medida que ia lendo vários tipos de literatura, lia também sobre literatura, o que provocou uma reacção semelhante à observação de uma tapeçaria, capacitando-me para a apreciação das suas cores, texturas, materiais e nós que a rematam. Além de ver a tapeçaria, via também o seu reverso e compreendia como a imagem se constrói. Se, como falantes, apreciamos a estrutura de superfície de uma língua, o estudo da gramática e da sua projecção artística (o que comummente se chama literatura) confere-lhe profundidade, complexidade e maior interesse. Se as árvores não têm raízes iguais, dão frutos diferentes — assim, a leitura informada por um conhecimento teórico e histórico também permite atribuir valor aos textos, que são sempre distintos, formando aliás conjuntos a partir das suas características: estilo, imaginário, novas ideias (raramente revolucionárias até ao século XX), relação com a tradição (entre o respeito e a ruptura há um espectro gradativo de enorme amplitude).

A importância de um texto não é conferida por um só leitor, mas por vários, e não se resume a uma geração, mas a todas. Reflectirmos e escrevermos sobre um texto mais antigo insere-nos na sua história de leitura, para a qual podemos até nem contribuir mais do que com impressões genéricas. Falar sobre um texto é metermo-nos numa conversa que tem diversas vozes e intervenientes, de diversas origens, sensibilidades e cronologias.

Escolher um livro também — porque, teoricamente falando, um texto se relaciona com o presente em que é produzido (partilhando autor e leitor uma experiência mais ou menos comum, conflituante ou não), mas responde igualmente a aspectos históricos, pois a maneira de escrever ou de falar de qualquer de nós decorre, em termos nada despiciendos, do que sabemos e do que lemos. Um texto é também, portanto, uma resposta do presente ao passado de leituras do autor (frequentemente referido como a «enciclopédia do autor») e é recebido positiva ou negativamente de acordo a experiência (de leitura ou de vida) do leitor. Além disso, ninguém escreve apenas para o presente, uma vez que em 2019 somos o futuro do que se escreveu em 1572, ano em que se publicam em Lisboa Os Lusíadas, ou 1888 (data da primeira edição d’Os Maias).

Dito de forma radical, escrever é sempre uma reescrita e ler é um releitura.

Pacheco Pereira defendeu há algum tempo a ideia de que se pode fazer uma boa carreira de leitor lendo apenas livros que o tempo nos seleccionou, ou seja, os clássicos, obras cuja qualidade, interesse e importância várias gerações de leitores já escolheram. No entanto, o valor de uma obra literária é variável, se não de leitor para leitor, pelo menos de época para época. É falsa a ideia de que o cânone é fixo ou se encontra definido, pois está em constante revisão: quer do ponto de vista estético, quer atendendo a preocupações sociais, culturais, políticas, pedagógico-didácticas (houve o tempo em que se exigia que a literatura doutrinasse), entre outras. Nesse sentido, livros mais ou menos antigos ou recentes tendem a cair no esquecimento, enquanto outros — por vezes contemporâneos daqueles — são recuperados.

Todos os tempos são de revisão e todas as épocas (incluindo o Barroco, Neoclassicismo, Romantismo e Modernismo) são de transição para algo que veio ou virá a seguir a nós. Ainda assim, nos últimos anos tem-se assistido a um movimento de revisão do cânone e das obras clássicas na dependência dos ideais que hoje fundamentam a nossa sociedade. Sem calar «tudo o que a Musa antiga canta», «outro[s] valore[s] mais alto[s] se alevanta[m]». Importa colocar no cânone grandes obras da humanidade, mas mostrar preocupações de representatividade. Em termos institucionais, verificou-se, a este propósito, a ramificação dos Estudos Literários em Estudos Culturais, Estudos de Géneros, Estudos Pós-Coloniais (com especificações relevantes, como a literatura das grandes guerras e do 11 de Setembro ou a literatura escrita por mulheres). Seja qual for a vantagem disso, a verdade é que o respeito pela leitura, pela palavra escrita, nasce da consciência de que um texto literário trilha um caminho muito antigo e que dificilmente será lido se não se desviar dele, ainda que por momentos, ou, em casos raros, construa ele próprio um caminho inteiramente novo. Erigir um novo cânone só porque se almeja a representatividade pode revelar-se despropositado — ou pelo menos ums atitude de pouca duração e sem consequências.

Penso que um dos aspectos que contribui para o reavivar do interesse de um livro que passou despercebido no seu tempo e para lá dele diz respeito à forma como ele fala ao presente em que se vive. Foi o que aconteceu com Cesário Verde, por exemplo, que Fernado Pessoa e Óscar Lopes — cada um à sua maneira, naturalmente — impuseram como figura canónica da nossa literatura. E também por isso Uma Agulha no Palheiro e Pela Estrada Fora começam a cair no esquecimento; por isso, se pretende recuperar Aquilino Ribeiro (a que eu juntaria facilmente José Cardoso Pires, Vitorino Nemésio, Natália Correia, e sobretudo Irene Lisboa).

Enfim, seja como for, o sentimento mais frustrante de quem lê é, provavelmente, a sensação de que, no fim do livro, a leitura não terminou (para não falar das saudades que algumas personagens deixam). Não é um lugar-comum inconsequente ou frase arranjada dizer que os clássicos são livros que nunca deixamos de ler porque nunca deixamos de ler os livros que têm algo para mostrar. O que mostram é tão diverso quanto as individualidades que os criam: por isso já disse aqui que um excelente livro lido em momento não oportuno pode estragar a experiência de leitura. Se só lermos os clássicos, porém, estamos a impedir que a literatura contemporânea prospere e construa o seu próprio caminho, edificando certamente os clássicos do futuro. A decisão sobre que livros ler pode ser um dilema trágico: seja qual for a opção, há sempre um problema que não fica resolvido.

01
Out19

Gostar e não gostar

ou como apreciar um livro sem parecer ignorante

Ricardo Nobre

O título do «manual de escrita criativa» de Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É porque Tem Razão, baseia-se numa antiga história que reproduzo:

Uma mulher queixa-se a um juiz: «A minha vizinha roubou-me a cabra, o mel e o homem. Faz-me justiça.» E o juiz diz-lhe: «Tens razão.» Mal ela sai, rompe a vizinha pela casa do juiz aos gritos: «Foste enganado por aquela mulher. O homem, a cabra e o mel sempre foram meus. Ela é que mos roubou.» «Tens razão», confirma o juiz. A mulher do juiz, que tinha ouvido tudo, interpelou-o, agastada: «como é que foste dar razão a duas criaturas que afirmam exactamente o contrário?» Responde o juiz: «Tens razão.»

Dando ouvidos ao Padre D. Rafael Bluteau (o autor do primeiro dicionário de português, o Vocabulário Português e Latino), assumiremos que só um(a) leitor(a) mais desprevenido/a dirá sobre um livro «não gosto» porque, defende o lexicógrafo, «ninguém despreza aquilo que sabe».

Dir-se-á, portanto, que a (grande) literatura tem sempre razão: o leitor apenas tem de a descobrir. E se não gosta é porque (em princípio) não percebeu.

15
Set19

Para a escola, rapidamente e em força

Ricardo Nobre

Um motivo para sermos exigentes (connosco próprios ou com outros) é a vontade de melhorar ou fazer melhorar. Nessa linha de pensamento, incluo o jornalismo tradicional, a cuja degradação temos assistido. O YouTube substituiu-se às televisões, e há mesmo «noticiários» cheios de opinião, reclamando estarem a revelar factos e provas — a verdade, em suma. Sabemos que sempre houve notícias falsas, rumores (muitos deles espalhados pela comunicação social — e não estou a referir-me apenas à TVI ou ao Correio da Manhã) e mentira no espaço público, mas agora parece que as forças se desequilibraram porque não é preciso verificar factos para acreditar neles e ajudar a divulgação de conspirações e mentiras nas redes sociais.

Por onde anda o jornalismo? O de Cecília Malheiro, da Agência Lusa, publicado no Público, parece andar num livro de história com gralhas (ou completa falta de noção), ao datar a guerra colonial de 1975.

guerra colonial em 1975

Todos os dias parece que o problema do jornalismo é de escolaridade básica.

05
Set19

Temporada de leitura

Ricardo Nobre

Costuma ler-se que Verão (e férias) é tempo de «pôr a leitura em dia» (para ilustração das gentes: a leitura nunca está em dia) e, criando uma necessidade que não existe, as livrarias dos coletes verdes e as dos coletes laranja, os meios de comunicação social e as redes sociais desdobram-se em sugestões de leitura. Empiricamente parece fazer algum sentido que, havendo mais tempo livre, haja também mais disponibilidade para ler, visto que esta é uma actividade geralmente considerada no âmbito do lazer e do ócio. Apesar de todas as campanhas de promoção de leitura, jornais e revistas jornalisticamente responsáveis e blogues cujos autores estão cheios de boas intenções perpetuam o estigma da leitura como o que se deve fazer quando não há mais nada para ocupar o tempo. Têm-no conseguido, e com bastante mérito.

Outra tendência frequente é associar o Verão e as férias a leituras menos «pesadas» e, por conseguinte, livros que não são suficientemente sérios para serem lidos de Setembro a Junho. É então que deparamos com listas constituídas apenas por obras literárias — o resto do ano é, supostamente, dedicado a «leituras de gestor», como diz o nosso Mário de Carvalho em «O Binóculo Russo». Recorde-se o trecho antológico (d’Os Contos Vagabundos, publicados em 2000):

Ele já lá estava e lia, à mesa, com aquele desprendimento selecto que tanto a havia impressionado na véspera. Matilde [com os binóculos] tinha-o agora ao perto, muito nítido, com as cores muito vivas. Podia acompanhar-lhe o perfil, milímetro a milímetro, o azulado da barba na face bem escanhoada, as riscas da camisa, cuidadosamente arregaçada nos punhos e o livro, manuseado com displicência. Conseguiu ler as letras da capa: Cultive a Sua Vontade de Vencer, por J. D. Russel West. Céus, aquilo eram leituras de gestor.

Não obstante tudo o que nos fazem crer os meios de comunicação de massas antes enumerados, debalde tentei encontrar informação estatística sobre a venda de livros ao longo do ano para confirmar esse empirismo. As bibliotecas públicas, objecto de largos elogios neste liceu, têm serviços mínimos de função pública, não acompanhando, assim, esse suposto aumento sazonal da procura pelo livro e pela leitura amena. No Algarve, cujo Verão apenas rima com praia, acreditando nas informações dos respectivos sites e registando apenas as diferenças em relação ao resto do ano, acontece[ra]m estes fenómenos:

  • a Biblioteca Municipal António Ramos Rosa (em Faro) esteve encerrada de 1 a 15 de Agosto;
  • a Biblioteca Municipal Álvaro de Campos (em Tavira) reduziu o horário de atendimento;
  • a Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes (em Portimão) apenas fechou ao sábado;
  • a Biblioteca Municipal Vicente Campinas (em Vila Real de Santo António) apenas abriu até às três da tarde em Agosto;
  • a Biblioteca Municipal Lídia Jorge (em Albufeira) e a Biblioteca Municipal de Castro Marim (por sinal, um espaço extraordinário) mantiveram o horário de funcionamento;
  • a Biblioteca Municipal de Lagos também manteve, mas infelizmente esta tem horário de Verão o ano inteiro (abre às 10h, fecha às 18h e encerra à hora de almoço);
  • o site da Biblioteca Municipal de Olhão, que não é actualizado desde 2016, informa que no Verão o espaço abre no fim da manhã para encerrar ao meio da tarde.

N.B.: Deixei de fora a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen (em Loulé) e a Biblioteca Municipal de Silves (que deve ter o site mais caro de todas, apesar de não ter conteúdo) por não serem em cidades junto à praia. Mas talvez valha a pena dizer que no Verão apenas encerram ao sábado e que a biblioteca de Loulé tem um dos horários de funcionamento mais alargados de todas as bibliotecas públicas.

Seria interessante ter informação sobre a afluência a todos estes espaços e sua utilização; seria muito relevante saber se os horários estão ajustados à procura (fecham ao sábado porque não vai lá ninguém ou é necessário dar folga ao funcionário público? abrem de manhã porque há afluência ou estão vazias até meio da manhã? fecham às cinco da tarde quando não está lá ninguém ou é a hora em que mais gente a frequenta, mas o funcionário público tem de picar o ponto?).

Como em muitos outros aspectos da nossa sociedade e vida em comum, são mais as dúvidas que as certezas, há mais palpites que estudos, há mais opiniões que factos.

08
Ago19

Bibliotecas de memórias

Ricardo Nobre

Há muito tempo que este liceu não fala de bibliotecas, mas um texto da Rapariga do Autocarro fez-me lembrar que é preciso fazer lembrar que há coisas que não podemos esquecer.

Uma biblioteca (nota erudita: do grego bibliothéke, «lugar [théke, “caixa, cofre; túmulo”] para livros [bíblos, “interior do papiro, rolo de papiro; escrito, livro”], depósito de livros», é etimologicamente equivalente a «livraria» [palavra do latim], que também significa «colecção de livros dispostos ordenadamente; biblioteca», DLP, s.v. «livraria», 2) está para os livros como um dicionário para as palavras: o item está lá arrumado, à espera que vamos ter com ele.

Sei que ainda existem algumas bibliotecas itinerantes, mas o meu fascínio por bibliotecas não tem que ver com carros, mas sim com paredes e estantes. Por isso, acho que um dos maiores valores que a democracia nos trouxe foi uma rede de bibliotecas públicas que cobre todo o território: em Portugal, todas as capitais de distrito têm bibliotecas municipais, cujos acesso, utilização de espaços (incluindo o parque informático) e empréstimo (de livros ou DVD) são inteiramente gratuitos. Basta formalizar uma inscrição (é necessário um comprovativo de morada ou o papel da inscrição na escola/universidade) e já está. Além disso, existem bibliotecas universitárias cujo acesso é igualmente gratuito, bem como o manuseio dos livros (imagino que para requisitar sejam necessárias outras formalidades se não houver vínculos à instituição).

Tenho várias memórias espalhadas por várias bibliotecas — não é toda a gente que planeia percursos em cidades fazendo contas para passar nas bibliotecas nacionais e locais, tão importantes como museus —, a começar pelas más.

Não me lembro de haver bibliotecas nas escolas primárias que frequentei (apenas armários numa parede, talvez), mas recordo-me bem de ter ido à biblioteca da «Preparatória» D. Afonso III (ainda hoje há cheiros que me lembram desta escola, tal não terá sido o trauma). Era uma sala à direita de quem entra na escola (à esquerda era a secretaria) pela porta principal (que os alunos não podiam usar; apenas lamento não ter tido a consciência que tenho hoje para não respeitar a estupidez desta regra). Uma sala com estantes em três paredes (a outra era a das janelas), em armários fechados. No centro, mesas para nos sentarmos, e à frente de nós, uma terrível funcionária, velhota e mal-encarada, que tinha tanto amor por livros como por crianças. Nos dois anos em que andei na actual EB 2/3 D. Afonso III, devo ter ido à biblioteca duas vezes (se não estou a inflacionar o número em 50 %).

Mas, em 1995, fui para a Pinheiro e Rosa. A escola, inaugurada um ano antes, acabava de receber o nome. Frequentei-a do sétimo ao décimo segundo ano, por isso vi-a também passar de uma escola sem acessos (era, literalmente, no meio da lama, no Inverno; no meio do pó, no Verão) nem pavilhão gimnodesportivo ao que é actualmente. Como escola estreante, a biblioteca ocupava uma salinha e o acervo bibliográfico pouco mais era que manuais escolares não adoptados ou antigos, algumas obras de referência e não me lembro de mais nada antes de, no meu nono ano, ter passado por uma sala ainda menor enquanto decorriam obras para a instalação de uma biblioteca escolar digna, na altura já com uma sala de computadores. E assim foi: o meu ensino secundário decorreu entre aulas, biblioteca e as tardes do «laré», com incursões fúnebres pelo cemitério em dias de teste de História (era a disciplina que mais nos aterrorizava e para a qual, sem dúvida, mais estudava).

Ainda que as actuais instalações não sejam do «meu tempo», lembro-me bem de ter passado parte de um mês de Agosto (no termo do qual já conhecia os leitores residentes e funcionários) na biblioteca municipal de Faro a preparar um projecto. Na verdade, a Biblioteca António Ramos Rosa abriu nas actuais instalações no momento em que eu me estava a mudar para Lisboa. De um espaço tenebroso de um convento do século XVI, não muito diferente da biblioteca da Afonso III, em que os leitores não acediam directamente aos livros, a biblioteca mudou-se para o antigo matadouro, confinando com o jardim da Alameda (a entrada principal faz-se pela Rua Carlos Porfírio, mas chegar pelo jardim é mais impactante, como se diz agora). O espaço é alegre, luminoso, amplo e com os livros em acesso livre.

Mas isso foi em 2014; mais de dez anos antes, passei de uma biblioteca que considerava boa, na Pinheiro e Rosa, para uma que iria mudar a minha vida para sempre — onde, juntando todas as horas lá passadas, faria meses ininterruptos, talvez doze, porventura mais. Em 2001 entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A biblioteca começara a funcionar naquele edifício (o actual) um ou dois anos antes: as bibliotecas dos departamentos, institutos e centros deixaram de estar espalhadas nas instalações da faculdade e juntavam-se à «biblioteca central» num edifício em que não se distingue sala de leitura de local onde estão os livros (embora exista, obviamente, um depósito). Ali trabalhava e estudava em mesas ao lado das estantes aonde se podia ir buscar o livro sem pedir a ninguém. Os livros acumulavam-se em cima da mesa e no fim colocavam-se nos carrinhos de apoio. E podiam ser requisitados para casa.

A minha existência naquela biblioteca tornou desnecessária a utilização de outras. Aliás, aquilo que estudava na altura não exigia outras: nas suas áreas do conhecimento, a biblioteca da Faculdade de Letras não tinha (e não tem) tudo, mas tem muita coisa, quase tudo.

Na minha vida, porém, surgiriam outras necessidades. Ainda hoje me lembro da primeira vez que entrei, leitor caloiro com o cartão acabado de fazer na mão, na sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Lisboa. Era a primeira de tantas horas sentado nas cadeiras do Daciano Costa. Aguentei as obras da construção da ampliação da torre dos depósitos e a péssima iluminação da sala depois de escurecer às cinco da tarde nos meses de Inverno. Além desta, ainda me lembro dos fins-de-semana e férias de Verão itinerantes pelas bibliotecas do Palácio Galveias (antes de fechar), de Belém e, sobretudo, Orlando Ribeiro, em Telheiras (a que tem secção de música e filmes). Infelizmente, apesar de o acesso não ser difícil para mim, ainda não fui à de Marvila e, desde que este liceu abriu as portas, aguardo a reabertura da biblioteca de Alcântara (da antiga, já nada existe: agora, está lá o excessivamente grande novo hospital da C.U.F., na Avenida 24 de Julho).

As bibliotecas de Lisboa (existem outras que não foram aqui mencionadas) permitem o acesso gratuito a livros (que podem ser requisitados e devolvidos em qualquer biblioteca, mesmo que venham de outros espaços), ou seja, em Portugal não há carência de pontos de acesso ao conhecimento ou à imaginação de escritores e escritoras de todo o mundo. Talvez falte interesse do conhecimento e em atribuir valor à imaginação como forma de sensibilidade. Nem o dinheiro vale tanto.

14
Jun19

Os livros não se medem aos palmos nem aos quilos

Ricardo Nobre

Para não correr o risco de monopolizar o blogue com o tema do preço dos livros (Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, saiu na Relógio D’Água a 18,50 € ou, com promoção, 16,65 € — a edição da Folio custa 7,40 € na Amazon espanhola), posso chamar a atenção para o peso e o formato dos livros publicados em Portugal. Eu sei que o portuguesinho gosta de andar com um livro debaixo do braço e que no Metropolitano faz vista estar a ler um livro enorme, mas há os leitores desgraçados que encontram a sua felicidade e instrução em leitura mais discreta. Tudo o que querem é um livro com uma mancha gráfica boa (já aqui se falou da Folio, mas podia falar da Livre de Poche, da Penguin, da Oxford World’s Classics, entre diversas outras), cuja tipografia e disposição de página não ofenda a vista, e em formato de bolso para transporte e mais fácil arrumação em casa.

Seja como for, o meu projecto de ler literatura francesa em francês continua, por isso, a dar resultado.

09
Jun19

Graça

Ricardo Nobre

Se a memória não me falha, foi por ocasião da Feira do Livro de Guadalajara, no México, que Graça Fonseca, a terceira ministra da Cultura do vigésimo primeiro governo constitucional português, produziu a afirmação de que era «óptimo», durante quatro dias, não ler jornais portugueses (os jornalistas, sem muito que comentar sobre livros, queriam tourada sobre o que muitos já sabem que é falta de civilização, as corridas de touros). Não houve ninguém que não criticasse a afirmação, justificando-se pelo facto de esta ser a ministra responsável pela tutela da comunicação social (muitos críticos são os mesmos que reclamam por o Estado se imiscuir nas redacções).

Sem a conhecer pessoalmente, posso aqui dizer que simpatizo muito com Graça Fonseca. Não sei explicar porquê, mas talvez por, de cada vez que fala em público, ter alguma coisa para dizer e fazê-lo de modo inteligente (ainda falta uma política para a promoção da leitura, mas sem orçamento os livros continuam acessíveis a alguns excêntricos). Isto para confessar que não ler jornais portugueses nem ver ou ouvir notícias portuguesas é uma das melhores coisas que tenho feito desde que morreu Agustina Bessa-Luís, ocasião em que o espaço público se encheu de testemunhos sobre a obra da escritora, que certamente reprovaria, cheia de humor, tantos disparates, a começar por quem é «especialista».

06
Jun19

Morte em Paris

Ricardo Nobre

Se o nosso sonho é morrer numa idade avançada, mas mantendo as nossas capacidades, e durante a noite, para não sofrer, deixando a vida arrumada e sem dívidas, a verdade é que são poucos os que têm uma morte pacífica. Isto porque já por duas ou três vezes pensei criar aqui no liceu um conjunto de textos sobre mortes de pessoas famosas ocorridas em circunstâncias insólitas ou sobre as pretensas últimas palavras. E há mesmo situações burlescas que chegam a ser cómicas, outras são macabras e arrepiam; algumas delas todos conhecem (como o incidente que levou à morte de Salazar), outras talvez não.

Ora, Roland Barthes é uma das figuras mais interessantes do pensamento europeu do século passado e, como todas as pessoas que pensam de modo brilhante, ainda hoje as suas ideias iluminam teorias e são a base de novas e melhores reflexões sobre a arte, a literatura e a sociedade. Morreu em Paris, a 26 de Março de 1980, na sequência de um atropelamento a 25 de Fevereiro numa passadeira na rue des Écoles, que liga a Sorbonne ao Collège de France (na fotografia).

Rue des Écoles

O acidente não ocorreu nos Campos Elísios e nem se percebe porque é que artigos de natureza científica fazem a biografia dos autores famosos, sobretudo com dados errados.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.