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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Mar20

Ir ao dicionário não chega

e consultar dicionários não demonstra conhecimento

Ricardo Nobre

O Público colocou no seu acompanhamento de notícias relacionadas com a pandemia de coronavírus uma ligação para um documento pdf no qual um filólogo reunia informação sobre a origem da palavra «coronavírus». Nada de novo: já se sabia que era uma forma composta de corona (mas não do acusativo, como ali se diz… as palavras que entram por via erudita vêm do nominativo, ó Cícero e Nero!) e virus (sobre este não se escreve que veio do acusativo — pelo menos isso, até porque o nominativo é igual ao acusativo, e o vírus não saberia qual escolher).

Só que o especialista limitou-se à nobre tarefa de consultar dicionários, e não a doutrina. E assim verificou que o elemento de ligação deveria ser «o», que no caso de coronavírus eliminaria o «a» (criando na sua imaginação a sugestiva palavra «coronovírus»). E seguem-se exemplos, numa lista que junta apenas compostos grego-latinos e compostos gregos. Nenhum exclusivamente latino. Não diz o nosso amigo filólogo — porque nunca o problematizou — que os compostos gregos têm «o» na ligação (há excepções, como «parquímetro»), mas não os compostos latinos, que simplesmente se aglutinam (como acontecia na língua de onde procedem).

Assim, é de pedir que se retire o documento do site do Público porque induz os leitores mais suceptíveis em erro. E já basta de informação ficcional.

Senhor(a) leitor(a), mantenha-se em casa e lave as mãos com regularidade.

02
Jan20

Pior que bem

Da série escrever para o jornal sobre uma norma que a língua não tem

Ricardo Nobre

Na gramática de português há algumas regras que aparentam ser arbitrárias, debitadas em livros de «bem escrever», sem que haja justificação, explicação ou comentário para o que se recomenda ou para o que se condena (normalmente, se o gramático gosta de uma construção, permite-a; se embirra com ela, condena-a). Alguns falantes aprendem-nas dos seus professores e passam-nas, por sua vez, aos alunos, tomando-as como leis inquestionáveis. Este gesto atribui à gramática e a preconceitos um poder que nada nem ninguém deveriam ter. Vem isto a propósito de uma curiosa carta à direcção do Público, publicada dia 22 de Dezembro do ano passado, onde uma leitora escrevia: «Tenho a agradecer a Vasco Pulido Valente (V.P.V.) o pedido público aos seus colegas para que distingam entre “melhor” e “mais bem”. Professores, mesmo ex-professores, subscrevem, não pelo bem-estar linguístico exclusivo dos colegas de V.P.V., mas das “massas” e respectivos filhos» (p. 6). A leitora aludia ao «Diário» de Valente de 14 daquele mesmo mês. Na entrada de 7 de Dezembro, o autor (identificado como historiador) escrevera: «Peço aos meus colegas do jornalismo falado e escrito, mas sobretudo falado, que não se esqueçam sistematicamente de que “melhor” não é igual a “mais bem”» (p. 9).

Autor e leitora estão a falar do comparativo do advérbio «bem» (superlativo: «optimamente»), que não querem contaminar com «melhor», que seria, no seu entender, comparativo (e superlativo) do adjectivo «bom» (superlativo: «óptimo»). Teríamos assim um limite muito seguro entre as classes de palavras: ao adjectivo o que é do adjectivo, ao advérbio o que lhe diz respeito. De onde vêm estas regras senão de um português «mais bem» aprendido por uma escola «melhor» do que a que agora existe?

Falemos, portanto, de «mais bem» e de «melhor» (mas poderíamos estar ainda a falar de «mais mal» e «pior», «mais pequeno» e «menor», «mais grande» e «maior»).

Apesar do que a leitora e Valente reivindicam, a palavra «melhor» é, de acordo com vários dicionários e com o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966), comparativo de bom e de bem. Trata-se, consequentemente, de um adjectivo e de advérbio (a diferença é que enquanto adjectivo a palavra admite flexão e como advérbio, não) — e com efeito, olhando à etimologia, em latim, melior é feminino e masculino e melius é neutro do adjectivo bonus e comparativo do advérbio bene. Nada mais natural que a forma de masculino e feminino tenha levado de vencida à neutra, que desapareceu da nossa língua, impondo-se em todos os contextos. O mesmo fenómeno é exibido por outras línguas indo-europeias, como o grego (a regra é: o comparativo do advérbio coincide com o acusativo neutro do comparativo do adjectivo — Boas et al., The Cambridge Grammar of Classical Greek, Cambridge Univ. Press, 2019, pp. 87-88). Também Ferreira e Figueiredo (Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto Editora, 1995, p. 221) avisam: «Não confundir melhor (comparativo de bem) com melhor (comparativo de bom): “Os meus estudos vão bem, mas podiam ir melhor (= mais bem)” e “Este aluno é bom, mas aquele é melhor”».

Sem se poder obrigar o utente da língua portuguesa a usar construções latinas (em prol de um purismo que rigorosamente nunca existiu), observe-se que em latim (e em grego) os comparativos de superioridade se formam normalmente por sufixação (ou seja, muda a terminação da palavra). Em algumas situações, poderia ainda recorrer-se a advérbios equivalentes aos nossos mais, menos, muito (Almendra e Figueiredo, Compêndio de Gramática Latina, Porto Editora, 2003, pp. 55 e 58). Foi isto que o português normalizou: numa tendência analítica, usam-se mais palavras e reduziu-se a flexão. Nada nestas transformações é linear, e por isso mantêm-se do latim, além dos superlativos óptimo e péssimo, os comparativos melhor (< melior) e pior para bom e mau (aquela terminação -ior é precisamente a marca latina de comparativo de superioridade de que se falava atrás).

Por haver duas formas disponíveis, uma latina e outra mais portuguesa, diz-se que os adjectivos têm uma forma de comparativo (de superioridade) sintética e outra composta. «As formas compostas do comparativo de superioridade e de inferioridade dos adjectivos bom, mau, grande, pequeno, alto, baixo, empregam-se quando se comparam qualidade do mesmo sujeito ou da mesma acção: É mais mau do que irreflectivo» (Ferreira e Figueiredo, Compêndio de Gramática Portuguesa, p. 153).

Interessa, porém, olhar para o advérbio.

Ainda que mais próxima da origem da língua, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra (Sá da Costa, 15.ª ed., 1999), classifica de «anómalas» as formas «melhor» e «pior» como comparativos de advérbios (pp. 545-546); sem condenar o seu uso, regista-se, porém, uma restrição: «os comparativos regulares mais bem e mais mal [são] usados, de preferência, antes de adjectivos-particípios», demonstrado por exemplos como «As paredes da sala estão mais bem pintadas que as dos quartos». O aborrecimento é que «na posposição só se empregam as formas sintéticas»: «As paredes da sala estão pintadas melhor que as dos quartos» (p. 546). Estranho advérbio que não admite mobilidade na frase, «desfazendo-se» na forma anómala quando muda de posição.

É uma restrição estranha: o que a justifica e a que se deve? Não há resposta para isso; a regra ficou enunciada para Pulidos Valentes e suas leitoras as imporem a colegas e aos leitores.

Vejamos o que por aí se disse.

No Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Rodrigo de Sá Nogueira (Livraria Clássica, 2.ª ed., 1974) afirma: «Melhor feito. Melhor acabado. Melhor pensado — Isto é corrente, mas não é correcto. Os escrupulosos, que têm a verdadeira noção do valor gramatical da forma melhor, não a empregam assim. — Melhor é a forma comparativa do adjectivo “bom”, não do advérbio “bem”: melhor equivale a “mais bom”, que se não usa; “mais bem” usa-se, naturalmente porque não existe uma forma simples designativa do comparativo do advérbio “bem”. […] Diz-se: “este rapaz trabalha mais bem ou mais mal que ou do que aquele”, e não: “este rapaz trabalha melhor ou pior que ou do que aquele”. […] Não obstante o que fica exposto, há certa tendência para empregar as formas melhor e pior, não só com o valor de comparativo dos adjectivos bom e mau, como dos advérbios bem e mal» (pp. 250-251, itálicos e negritos do original, sublinhado meu).

À margem, comente-se que é muito bizarro fazer coincidir o que se diz com a norma e o que não se diz com o erro, sobretudo quando no fim se admite que o que não se diz é afinal o que se diz. Além disso, se historicamente melhor (e pior) funcionam bem como advérbios, porque é que Nogueira lhe retira a pertença àquela classe de palavras? Reconhecendo a «tendência para empregar as formas melhor e pior […] como dos advérbios bem e mal», é igualmente interessante que no artigo «Melhores», que se segue ao agora citado, Sá Nogueira volte a escrever: «Propriamente a forma melhor é o comparativo do adjectivo bom, não do advérbio bem. Contudo, na prática, está há muito consagrado que ela é também comparativo desse advérbio bem em certos casos. O comparativo regular de bem é mais bem.» Parece escrito por outra pessoa, mas é o mesmo Sá Nogueira que continua: «“Melhor” é a forma comparativa do adjectivo “bom”, e do advérbio “bem”; no primeiro caso é variável, mas no segundo não deve ser. — Assim, diz-se: “o meu carro é melhor que o teu” e “os meus cavalos são melhores que os teus”, mas “o doente está melhor”. — No primeiro caso, pois, “melhor” equivale a “mais bom”, e “melhores” a “mais bons”; no segundo caso a “mais bem”». Neste ponto, não há dúvida de que nenhum falante de português optaria por «mais bem» em vez de «melhor» (que também funciona como adjectivo: «os doentes estão melhores» é, provavelmente, menos estranho do que «os doentes estão melhor»).

Sá Nogueira, todavia, ainda não acabou; apela agora à autoridade: «O Dr. Cândido de Figueiredo condenava que se dissesse, por exemplo, “este livro está melhor feito que aquele”, preconizando que de preferência se dissesse: “este livro está mais bem feito que aquele”. A razão que dava era de que “melhor” é propriamente comparativo do advérbio “bom” e não do advérbio “bem”. — Se o benemérito lexicógrafo tivesse razão, certamente deixaríamos de poder perguntar a alguém se está “melhor”, para termos de passar a perguntar-lhe se está “mais bem”. — Sem dúvida, Cândido de Figueiredo estava na razão: gramaticalmente é assim. O que acontece é que o uso geral determinou “não obedecer às razões de lógica gramatical”» (p. 251, itálicos do original, sublinhado meu).

Esta última citação vai ao encontro do que atrás foi dito sobre restrições de uso de «melhor», mas, como atrás também se disse, gramaticalmente não «é assim». Porque não é em todas as situações que «mais bem» substitui «melhor». Nos exemplos do excelente lexicólogo e fraco poeta Cândido de Figueiredo, é clara a preferência por «mais bem» porque a perífrase acompanha um particípio passado. Sá Nogueira nunca faz essa distinção. Em «Mais bem. Mais mal. Mais bom. Mais mau», no mesmo Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, o autor repete as informações já mencionadas, mas recorre a Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, pp. 203-204 (2.ª ed.): «Assim como ninguém dirá “a obra melhor feita”, mas sim “a obra mais bem feita”, nem “o melhor aventurado”, mas sim “o mais bem aventurado”, corrente e correcto será dizermos “as obras mais bem acabadas”, “os livros mais bem impressos”, “os concorrentes mais bem classificados”. — A meu ver, a razão filológica de que o mais bem é ali a forma exacta, é que o advérbio bem, anteposto a adjectivo qualificativo, é um proclítica, isto é, um elemento que perde a sua acentuação própria, subordinando-se à do adjectivo, e constituindo com ele como uma só palavra. Em bem aventurado até se reuniram os dois termos, formando realmente uma só palavra. — (Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 1905)» (p. 240, itálico original).

José Leite de Vasconcelos está apenas a falar de «mais bem» com particípios e explica porque é que ele pensa que esse fenómeno se dá com essas formas (ainda não lêramos nada que explicasse o fenómeno). O que está em causa para o grande sábio é que, afinal, «bem+particípio» já constitui uma unidade lexical, e por isso o comparativo natural forma-se regularmente com o acrescento de «mais» antes de «bem feito», «bem construído», «bem formado», «bem aventurado» (esta última expressão lexicalizou-se como uma só palavra, e por isso escreve-se com hífen quando é substantivo). Essa unidade lexical parece ser um bom motivo para que «As paredes da sala» de Cunha e Cintra estejam efectivamente «pintadas melhor que as dos quartos», pois a expressão deixou de ser «bem pintadas». A mesma análise é feita por Augusto Epifânio da Silva Dias, como mais abaixo citarei.

No entanto, há o uso, a história da língua e as suas áreas críticas (oscilações sincrónicas), que denunciam a veracidade do lugar-comum «a língua não é estática» (declinado também como «a língua é dinâmica», «está sempre a evoluir», etc.). É por isso que a gramática (e a linguística contemporânea) tem de ser teórica: para descrever abstractamente o funcionamento da língua, dando conta de diferentes construções (nota autobiográfica: tive uma professora de Sintaxe que dizia que a língua não tem excepções, tem é situações não explicadas).

Epifânio da Silva Dias, na sua Sintaxe Histórica Portuguesa (5.ª ed., Livraria Clássica Editora, 1970) recolhe a lição da sã linguagem dos nossos clássicos:

«De comparativo (de superioridade) de grande serve maior; de bom e de bem, melhor; de pequeno, menor (a par de mais pequeno); de mau e de mal, pior:

E a saude melhor he conheçida depois da doença que primeyramente (V. Bemf., 222). mal entendida, e peor praticada (Vieira, II, 108). ouçamos aquelle engenho [Ovidio] que melhor que todos soube exprimir os affectos da dor, e da natureza (Id., ibid., 877, 878).

No port[uguês] arc[aico] também se dizia mais grande:

em outro mais grande (Gir. Alv., 14).

Pode dizer-se, v.g.: mais ou menos grande:

Obs. Diz-se v.g.: mais bem feito, mais mal feito, porque mais pertence para o conjunto bem feito, mal feito. Também quando se comparam qualidades do mesmo sujeito, ou da mesma oração, naturalmente se diz, vg.: ele é mais mau do que irreflectivo; procedeu mais bem do que mal.» (pp. 169-170, itálico do original, sublinhado meu, ortografia actualizada, excepto nos exemplos, cujas abreviaturas correspondem, segundo pp. 7-11, a: Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro, Porto, 1910: cit. a página; P.e António Vieira, Sermões: cit. a parte e a página; Mestre Giraldo, Livro d’Alveitaria: cit. a página da Revista Lusitana, tomo 12)

A leitora citada, os seus colegas e Pulido Valente continuam com a legitimidade de reclamar de «melhor», mas a verdade é que nada podem fazer contra o uso (contemporâneo ou não), a etimologia, e a história da língua. São  irreflexões de quem chega à letra de forma da imprensa que mais não fazem do que espalhar o erro, o preconceito e, desculpem lá, a ignorância de que acusam os outros.

23
Dez19

Se mais geringonça houvera lá chegara

Da série a língua não começou ontem às três da tarde

Ricardo Nobre

Continua no Público o mito de que a «expressão “geringonça” em contexto político é de facto da autoria de Pulido Valente». Talvez fosse conveniente, mesmo a jornalistas experientes, reler José Rodrigues Miguéis, O Milagre Segundo Salomé: «o problema é essencialmente económico, mas tudo depende da família política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela». E aqui, como por milagre, temos num romance publicado em 1974 a «expressão “geringonça” em contexto político». Eu sei que não interessa quem foi o primeiro, o que interessa é quem é percepcionado como sendo o primeiro, mas os mitos e a falta de leitura não estão de acordo com a retórica do jornalismo de rigor (a que se juntou uma retórica pedinchona — a expressão não é de minha autoria, porque surge já no século XVIII). O mundo não foi inventado nestas duas décadas só porque foram as que melhor conhecemos.

25
Nov19

O que eles inventam

Da série o acordo ortográfico não tem a culpa de tudo

Ricardo Nobre

século 18

Agora parece que se pode escrever os números dos séculos com algarismos. Mas não pode porque — ao contrário do inglês, por exemplo, que usa sempre numerais ordinais — quando se escrevem números romanos até X eles são lidos como ordinais («século I» diz-se «século primeiro») e não como cardinais («século um» está tão bem dito como «Dom Manuel Um»).

08
Out19

Combater a geringonça

Da série vai ao dicionário

Ricardo Nobre

Antes do significado que hoje lhe concedemos, geringonça tinha um sentido que nas últimas décadas foi substituído por «gíria»: «linguagem inventada por gente da mesma profissão, ou parcialmente, para que ninguém os entenda, quando falam» (definição do Vocabulário Português e Latino, de Rafael Bluteau).

Sobre geringonça, portanto, fala Vítor Belanciano num texto muito interessante e que me fez lembrar outras formas de não-comunicar que deveríamos todos combater.

No entanto, nem sempre é fácil fazê-lo mesmo quando não usamos geringonça profissional. A proposta de Belanciano é obviamente oportuna, mas há áreas do conhecimento que se constroem muito para lá da linguagem corrente e cuja compreensão é árdua para não-iniciados (usando os exemplos do artigo: medicina, finanças, justiça, arte). Não que não sejam bem-vindos a esse conhecimento, mas é também verdade que um especialista labora sobre conceitos que são para ele elementares e que naturalmente usa sem se aperceber de que o interlocutor entende por aquelas palavras outra coisa. Eu próprio tenho alguma dificuldade em compreender algumas indignações que se expressam, sobretudo porque tento usar um vocabulário dominantemente português e sem esquecer a etimologia; eu próprio me apercebo de que o meu discurso por vezes não se adequa ao público a que me dirijo, acabando por ceder a simplificações e a generalizações, comparações e sinónimos, cuja utilização outra parte do meu cérebro pensa estar a simplificar e a generalizar, potenciando a imprecisão, a inexactidão e, no limite, o erro.

 

P.S. às 18h06: Acho que o destaque do Sapo pensou que o texto era sobre política nacional.

16
Set19

«praga que limpe esta merda de gente»

Ricardo Nobre

Perdão pelo vernáculo, mas é citação de um texto que Georgina Figueiredo Guarani-Kaiowá publicou numa rede social. As palavras (a que chama «pensamento») desta antiga integrante do partido Pessoas Animais Natureza (PAN) foram estas: «Pensamento do dia: há gente a mais neste planeta. A maior parte desta não vale os recursos que consome. Cada vez mais tenho nojo destes semelhantes em espécie com que me vou cruzando e sou obrigada a partilhar o ar que respiro. Que venha uma praga que limpe esta merda de gente. Dixit.»

Como toda a gente tem direito à sua opinião e como cada indivíduo pode exprimir-se da maneira que entender (e que a sua sensibilidade consentir), não tenho nada a censurar na frustração revelada por Georgina. O que me deixa mesmo espantado é aquela terceira pessoa do singular do perfeito do indicativo activo com que termina o texto. Também é possível que a autora quisesse referir-se a si própria na terceira pessoa (muitas celebridades o fazem), mas, até prova em contrário, temos de ser tolerantes com «semelhantes em espécie com que me vou cruzando e s[omos] obrigad[os] a partilhar o ar que respir[amos]», incluindo quando não sabem conjugar o verbo dicere. Dixi.

05
Set19

Um sorriso

Ricardo Nobre

Quem lê isto no Público:

centro de Lisboa no centro de Lisboa

não pode deixar de pensar nisto:

Salvação do mundo

Sem falar no facto de não ser um incêncio no centro da cidade, que eu localizaria na Baixa, no Marquês de Pombal, ou até no Saldanha. É um incêndio no interior da cidade, quando muito.

Enfim, este é um jornal que não adoptou o denominado Acordo Ortográfico de 1990 em defesa da língua portuguesa.

05
Ago19

O preto e o negro

Ricardo Nobre

Para «preto», palavra da língua portuguesa, existem definições no dicionário no âmbito da física. Por exemplo, como adjectivo, «diz-se da ausência total de cor, pela absorção de todas as radiações luminosas». Sabemos, todavia, de outros usos do mesmo adjectivo. Com sentido pejorativo, regista o dicionário da Porto Editora, «diz-se de pessoa que tem a pele de cor escura; negro». Numa edição de 1998 que há cá em casa, ainda não havia uma menção, como nome comum pejorativo, que se pode ler actualmente na Infopédia: «designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação».

preto

É este tipo de correcção política feita por dicionários que não se pode aceitar porque respeita apenas ao que hoje se considera o uso do termo, sem pesar que o valor da palavra já foi neutro, como hoje o de «negro». Recolho exemplos anteriores ao século XX1:

  • Gil Vicente, no Auto da Barca do Purgatório e na Inês Pereira, respectivamente: «Nem um preto por pagar» e «Homem que não tem nem preto, / Casa muito na má hora».
  • Fernão Mendes Pinto fala de umas «chinelas de preto» na Peregrinação.
  • Almeida Garrett, que, n’O Arco de Santana, usa o termo para designar o Bispo D. Soleima, do tempo do nosso D. Afonso Henriques, escreveria em Helena: «O ar do preto era importante, precioso e cheio de sua autoridade; mas não austero, antes plácido e risonho como o de uma ambição satisfeita».
  • Camilo Castelo Branco, n’A Caveira da Mártir, emprega a palavra ao lado de «negros»: «Desceu ao pátio onde dois negros davam ferro à pelagem dos cavalos empastada de suor, e disse-lhes que os cavalgassem e passeassem a passo, porque pareciam resfriados; depois, mandou o preto cozinheiro à praça da Ribeira comprar uma ave que seu amo apetecera».
  • O mesmo autor, em A Filha do Doutor Negro (título que já diz tudo), escreve: «Apelidava-se assim o bacharel Francisco Simões de Alpedrinha, porque era mulato, nascido no Brasil, lá muito do interior do império, filho de um preto, magistrado do Rio de Janeiro, famoso por muitas letras e rectidão».
  • Eça de Queirós, Os Maias, no famoso momento em que Carlos vê Maria Eduarda: «Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola».
  • Guerra Junqueiro, em Viagem à Roda da Parvónia, põe na boca de uma personagem, «abraçando o preto»: «Muito bem, meu amigo, muito bem! Afianço-lhe que não morro ainda sem ser preto».
  • Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas: «O preto, num meio ubérrimo, não foi condenado».

Não estou a dizer que não há racismo latente ou exuberante em frases como «O soro das glândulas lacrimais do preto não é pranto de homem» (Camilo Castelo Branco, A Vingança), «O preto tem catinga» (Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português) ou «E preto velho não aprende língua» (Correia Garção, A Assembleia), mas as definições do dicionário têm de ser latas o suficiente para todos os contextos, ou então distinguir os usos sem preconceito, discriminação ou ignorância (entradas para «padre», «burguês» ou «fidalgo» precisariam do mesmo aviso, embora não seja um alerta de raça).

Etimologicamente (ou seja, do ponto de vista da origem da palavra e do seu significado original), «preto» relaciona-se com o particípio do verbo que em latim significa «pressionar», «imprimir», ou seja, o nome da cor mais ao fundo do espectro de luz não seguiu um percurso ininterrupto de uso linguístico da Antiguidade até «preto» ter aparecido na língua portuguesa (o que aconteceu, de acordo com o Dicionário Houaiss, logo no século XIII).

Os Romanos diziam «niger», de onde vem «negro» (as palavras latinas passam regularmente para o português pelo acusativo: «nigrum» e «nigram» no singular, caindo o -m; «nigros» e «nigras» no plural), que, do português e do espanhol, passa para o inglês como «nigger» ou «nigga», actualmente um dos maiores insultos da língua inglesa (tão tabu que, no meio de todo o tipo de calão, os filmes e séries designam a palavra como «the N word»), embora, tal como «preto» em português, «nigger» ou «nigga» sejam termos utilizados no interior das comunidades (que assim são igualmente comunidades linguísticas) a que originalmente se referiam (um pouco como aconteceu com o outrora ofensivo «queer» para designar comunidades homossexuais, hoje elevado a disciplina universitária, os Queer Studies).

Em português contemporâneo, por seu lado, «negro» parece ser o termo mais adequado para referir os indivíduos que cientificamente são designados «negróides» (que se distinguem ou distinguiriam, por exemplo, dos «caucasóides»). Em inglês, o termo socialmente aceite é «black», que tem origem lá no Saxão antigo, que é um ramo da família das línguas germânicas, a que o Norueguês antigo ainda se liga.

Assim sendo, é interessante notar como da mesma palavra se origina um insulto numa língua e um termo aceite noutra — coincidência que se baseia exclusivamente na etimologia, porque a língua é muito mais do que língua: é também história e, nesse sentido, carrega tanto a fortuna como os equívocos do passado, como o crime da escravatura. As palavras também têm a sua biografia.

(1) As citações das obras literárias foram geradas pelo corpus da Linguateca. O leitor ou a leitora pode solicitar correcção de erros de contexto (não fui verificar todas as citações).

03
Ago19

Dicionário politicamente correcto

Ricardo Nobre

Há uns anos (já foi em 2012), o Ministério Público Federal fez uso dos recursos públicos brasileiros para obrigar à retirada do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (DH) de circulação. A acusação era simples: a forma como a palavra «cigano» está definida é pejorativa e discriminatória. E, com efeito, na quinta acepção, «cigano» é, no registo pejorativo, «que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador». Tal significado regista-se (segundo a mesma fonte) desde pelo menos 1899.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, s.v. «cigano»

Existem outros exemplos, noutros verbetes deste e de outros dicionários, de discriminação e intolerância, perpetuação de estereótipos e do discurso de ódio (como «judeu», que no DH 9 surge como «pessoa usurária, avarenta»). Quando alguém se lembrou de que a definição de «mãe» ou «mulher» devia ser votada e decidida por utentes de um famoso dicionário em rede, estava a promover uma campanha política válida em defesa dos direitos da mulher ou das mães, mas a cometer uma fraude linguística. O mesmo aconteceu quando um (ou uma) activista mais entusiasmado ou entusiasmada e menos reflectido ou reflectida descobriu que «casal» no dicionário da Porto Editora não poderia implicar um casal de pessoas do mesmo sexo. Ninguém lhe disse e ele ou ela não se lembrou que o significado de uma palavra é o que os e as falantes lhes dão a cada uso e que o dicionário não inventa sentidos derivados para acomodar todas as sensibilidades.

Ainda falta mencionar o desrespeito pelos «direitos» dos animais, que vêem a sua honra ferida nos verbetes «vaca» (DH 7: «mulher de vida devassa») ou «porco» (DH 9: «que ofende os valores morais predominantes, grosseiro, imoral, obsceno»). E, conjugando animais com mulheres, percebemos que todos os nomes de animais no feminino servem de insulto ao sexo feminino: galinha, cabra, cadela, bezerra.

A culpa não é do dicionário, é claro: o que está agora nos dicionários é ofensivo e sem respeito pelas minorias e desrespeitoso para as mulheres, mas um dicionário não é uma lei actual, é um registo histórico, não é a previsão do futuro, é a documentação de significados passados (e por vezes conselheiro de melhores usos, embora o seja apenas em questões linguísticas e não sociopolíticas). Portanto, arremeter judicialmente ou perorar nas redes sociais contra os dicionários terem registado o valor das palavras é um método que só pode ser usado por quem for muito ignorante. Se queremos uma língua imaculada de representatividade, empenhemo-nos na sua renovação (boa sorte com isso). Veremos que na próxima edição já o dicionário trará um significado novo. Se a edição seguinte apagar os insultuosos porque caíram em desuso teremos feito um bom trabalho.

Solucionar o problema com a retirada de dicionários do mercado chama-se censura, PIDE ou Inquisição (havendo quem goste, já tentámos, não gostámos, mudámos). Pensar que a culpa da nossa ignorância ou insensibilidade é do dicionário é não saber nada sobre dicionários — e é não saber nada sobre nós.

31
Mai19

Duas velinhas

Ricardo Nobre

Parecendo que não, passaram dois anos da fundação deste blogue.

Antes de Entrar Aristóteles nasceu da vontade de traduzir em letra de forma reflexões sobre o mundo da perspectiva de um filólogo com preocupações culturais, sociais, políticas, ecológicas e pedagógicas.

Apesar da boa vontade do autor, nem sempre foi possível manter uma regularidade na publicação de textos. Tal deve-se principalmente ao cumprimento de um dos princípios norteadores deste espaço: Antes de Entrar Aristóteles tem muito orgulho de ser um blogue original, no qual se publicam apenas conteúdos inéditos, e ilustrado (sempre que possível) com fotografias próprias. Evita fazer comentários sobre a «actualidade» ou personalizar reflexões; também não serve para partilhar histórias da minha vida nem para conversar ou mandar recados a ninguém; não é um marcador ou plataforma de sugestão de leituras.

Actualmente, o blogue apresenta nove «tags», que aqui recebem o nome de «colecções»:

breviário: memórias e monólogo interior;

cousas de folgar e gentilezas: expressão de Garcia de Resende no prólogo do Cancioneiro Geral, é aqui utilizado para catalogar textos sobre cultura e política cultural;

deleite e lição de sã linguagem: Camilo Castelo Branco (A Queda dum Anjo) é o autor que dá nome à colecção sobre língua portuguesa (a expressão continua com «e sãs doutrinas»);

excelentes costumes & manhas: de novo, Garcia de Resende, no mesmo prólogo, título da «tag» para textos sobre política e sociedade;

facilmente das outras és princesa: o verso de Camões (Os Lusíadas) cataloga textos sobre Lisboa;

no interior dos livros: (título ainda para amadurecer) sobre objectos e inscrições dentro de livros de várias bibliotecas;

obra vtil & necessaria pera bem screuer: sobre ortografia, incluindo o Acordo Ortográfico (provavelmente o maior logro que entidades públicas nos impuseram e certamente o pior que um regime democrático fez a uma língua, revelando ignorância sobre política de língua, conceito de ortografia e o mais elementar bom senso);

philologia: textos sobre línguas clássicas;

quem não sabe arte não na estima: verso de Camões (Os Lusíadas), dá nome à colecção de textos sobre a promoção pública da literatura e da leitura.

Sem pretender auferir de algum reconhecimento ou prestígio, nestes dois anos, o autor foi homenageado pela equipa do Sapo: os textos «A expansão do Metro e o estado da rede ferroviária», «Como aprender latim (a escolha do método)» «Falta o respeito por pessoas com mobilidade reduzida», «Os tempos são outros; os costumes também» e «Financiar a leitura» foram colocados em destaque. Obviamente que os meus destaques seriam outros (como por exemplo «O fim da Arcádia», «O peão é para a via pública», «Todos os dias são dias do livro, mas nem todos os livros são do dia» ou o «Compêndio de insultos online»), mas não quero ser mal-agradecido.

Quanto aos propósitos que orientam o blogue para o futuro, diria que pretendo continuar a escrever, sendo independente, correcto e criativo.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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