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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

18
Mar20

Estado de alerta, quase emergência

Da série Lisboa para vir ver e não para viver

Ricardo Nobre

Vivemos tempos estranhos e ao mesmo tempo não reprimo a expressão da ideia de que é um tempo fascinante. Não pelo medo, cuidados connosco e com os outros, mas pela consciência de que esta é uma experiência histórica, irrepetível (pelo menos, quero crer, no nosso tempo de vida) e única.

A cidade onde vivo não está vazia, mas é como se estivesse. Nas ruas e nos transportes, apenas encontro as pessoas que precisam de sair de casa (muitos estrangeiros residentes), a maioria de máscara. A burguesia aquartelou-se, e até o Jardim da Estrela ontem à tarde estava praticamente despovoado. Acabaram as festas, em público e em privado, não há grupos de pessoas, que circulam ou sozinhas ou em pares.

Jardim da Estrela (Lisboa), dia 17 de Março de 2020, pelas 16h30

A entrada e a saída dos veículos (autocarros e eléctricos) da Companhia Carris fazem-se pela porta de trás (para proteger o tripulante de contactos desnecessários), não é preciso validar o título de transporte, cuja venda a bordo está suspensa e os veículos param em todas as paragens para que não seja preciso accionar o botão de STOP.

No Metropolitano (que circula praticamene vazio, mas sempre com seis carruagens), os canais onde antes, quando havia hora de ponta, se aglomeravam centenas de pessoas em fila, que precisavam de colocar a mão no sensor para passar, estão abertos.

Metro de Lisboa à chegada ao Marquês de Marquês de Pombal (linha amarela) no dia 17 de Março de 2020

Canais de acesso ao Metro (estação de Entrecampos, linha amarela) dia 17 de Março de 2020

A CP anunciou hoje a supressão de vários comboios, em todos os serviços, dado que muitos circulam vazios. Mas pela primeira vez, para sair do comboio, quem entra afasta-se e não afunila quem sai.

Comboio suburbano de Lisboa no dia 17 de Março de 2020

No autocarro, eléctrico, comboio e no metropolitano, ninguém se senta ao pé de ninguém, ninguém fala, a distância, a não ser do vírus. Ainda há quem ache que é exagero, outros pensam que é pouco e que todos deveriam estar em casa (mas estão ali, dentro de um transporte colectivo).

No céu, apenas pombos, gaivotas e melros, além das moscas. Os aviões são poucos e o ruído não perturba a tranquilidade diurna nem o sono à noite.

As idas à rua são rápidas como Aquiles de pés velozes e cada vez mais raras. Numa grande avenida de Lisboa, estão as lojas quase todas fechadas, incluindo frutaria, cafés, restaurantes, oficinas, lojas de decoração. Mantêm-se (provavelmente até hoje) outros cafés, lavandaria, a loja de conveniência e cabeleireiros e barbeiros. Longe daqui, museus, escolas, universidades, monumentos, muitas outras lojas e cadeias de lojas simplesmente fechadas «devido à situação do nosso país».

O perigo dá medo, mas ao mesmo tempo multiplicam-se e partilham-se, graficamente e em línguas vivas e mortas, brincadeiras sobre papel higiénico, lavagem das mãos e permanência em casa.

Nunca poderia imaginar que era preciso uma pandemia para que Lisboa voltasse a ser uma cidade boa para viver.

04
Jan20

Arte Pública

Da série tudo é polémico até ser história

Ricardo Nobre

A expressão que uso no título deste texto tem sido reproduzida em várias notícias e artigos de opinião que se têm referido às pichagens numa obra «minimalista» do escultor Pedro Cabrita Reis, em Leça da Palmeira, berço de António Nobre1, município de Matosinhos.

Portugal é um país muito engraçado de analisar porque é um lugar onde tudo é polémico: construção de aeroportos, barragens (com um exemplo recente, por causa das cheias no Mondego), caminhos-de-ferro2, museus, extensões das linhas do metropolitano (os meus casos favoritos), metros de superfície prometidos e nunca construídos, igrejas, urbanizações e outros edifícios, feira popular, terminal de cruzeiros, demolições de edifícios históricos, entre outros (incluindo jantares no panteão, colecções de pintura, a vedação de um miradouro, etc.). Julgo que só a construção de estádios esteve isenta de críticas (agora é mais comum fazê-las; reclama-se que se deveriam ter construído hospitais, mas nem a construção de unidades de saúde desmerece alguma polémica).

O que parece estar em causa é o desgosto que temos (incluo-me neste grupo) em ver diante dos nossos olhos a mudança na cidade que conhecemos como a conhecemos. Também se fala no dinheiro que se gasta neste ou naquele empreendimento, em relação a outras necessidades que o país tem e a que não consegue dar resposta (os cidadãos e as cidadãs não são avisados/as, por exemplo, de que muito financiamento vem da União Europeia, decorrente de concursos para determinados fins, e que o dinheiro não pode ser deslocado para outras despesas).

Além dos exemplos apontados (e que se poderiam multiplicar por outras cidades e cronologias3; o que é mais notável no pequeno levantamento feito é ver as datas das notícias e o que não foi feito), é comum um minidebate (normalmente de fraca duração, mas agora amplificado pelas redes sociais) sobre as obras de arte em espaço público. Neste âmbito, também não escasseiam casos de vandalismo que demonstram descontentamento popular, que excede em muito peças de arte não figurativa, como a de Pedro Cabrita Reis, ou então extensas críticas a outras obras4:

- A estátua a Fernando Pessoa, do escultor Lagoa Henriques, foi objecto de grandes críticas (muito pequena e modesta… tudo o que Pessoa foi em vida), sobretudo porque fica muito próxima da estátua monumental do poeta quinhentista António Ribeiro Chiado.

- Não muito longe, no Largo Barão de Quintela, a estátua a Eça de Queirós, de Teixeira Lopes, é de bronze  porque foi preciso substituir a original, de mármore (e que se encontra actualmente nos jardins do Museu de Lisboa — Palácio Pimenta, no Campo Grande), por causa do vandalismo (e destruição). O motivo era que a alegoria da Verdade, um corpo feminino nu nos braços do escritor (a alegoria do poder do Marquês de Pombal é bem mais pacífica, e nada tem que ver com o clube desportivo do Campo Grande), era uma «vergonha» (palavra que prestigia o pichador de Leça).

- Ainda hoje se discute se aquele D. Pedro IV, na praça a que nunca deu nome, não será o imperador do México (a altura em que está é excessiva e desproporcional: talvez o pior exemplo de disposição de arte no espaço público).

- Os bustos que figuram um jogador de futebol no Aeroporto da Madeira foram muito falados e criticados. Ainda no Funchal, dificilmente se reprime um sorriso (ou uma gargalhada) com a estátua de corpo inteiro do homenageado por causa do volume nos calções.

- O monumento ao 25 de Abril de João Cutileiro (no alto do Parque Eduardo VII) talvez seja o melhor exemplo recente de incompreensão pública pela arte. Sim, tem forma fálica, mas… e o obelisco da Praça dos Restauradores?

As estátuas mencionadas (apenas algumas de que me lembrei) já não causam polémica porque se tornaram parte da nossa memória (e todos têm um retrato com Pessoa no Chiado). Deixaram, foram deixando ou deixarão de ter um efeito-surpresa que suporte as críticas durante muito mais tempo (em particular nessa amnésia chamada redes sociais). No entanto, de modo nenhum os cidadãos e as cidadãs devem aceitar impassíveis a disposição da arte em espaço público. Talvez devessem, porém, colocar as suas opiniões em perspectiva e lembrar que o que é hoje tradição já foi inovação, como dizia o imperador Cláudio citado por Tácito.

 

1 Confesso que só sei o que é Leça por causa desta circunstância literária. Só aprendi o que era o porto de Leixões mais tarde.

2 Garrett e Herculano eram contra a construção do caminho-de-ferro (Flaubert também; dizia que as viagens ficavam mais curtas, permitindo aos estúpidos encontrarem-se mais depressa — parecia a premonição do aparecimento das redes socais). Eça de Queirós, n’Os Maias, coloca na boca do abade Custódio esta referência à linha-férrea (na época a que a história se reporta, apenas até ao Carregado): «O País não estava para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas…» O «pobre diabo» Cavaco Silva ouviu-o.

3 Lembro que levou décadas a erecção da estátua a Camões. Inaugurada em 1867, localiza-se na Praça de Camões, entre o Chiado e o Bairro Alto, e é da autoria de Vítor Bastos, o escultor da estátua ao grande orador José Estêvão, no jardim de São Bento, atrás da Assembleia da República.

4 Já agora: faltam estátuas em Lisboa. A Fernão Lopes (existe uma na Biblioteca Nacional, mas lá também estão outros escritores que têm estátuas noutros lugares, como Eça e Camões), Gil Vicente, Cardoso Pires, Irene Lisboa (que nem tem uma placa evocativa na casa onde viveu, na Estrela), José Saramago, para mencionar apenas escritores (nota para o autor deste blogue: fazer um itinerário de estátuas e nomes de ruas de escritores portugueses em Lisboa).

03
Jan20

Lisbalbúrdia

Da série Lisboa para vir ver e não para viver

Ricardo Nobre

aqui falei dos ruídos excessivos nas cidades, e tenho de insistir no assunto porque parece que um navio no Tejo incomodou os habitantes e turistas de Lisboa que queriam dormir1. Por precaução, em situações de nevoeiro, os navios são aconselhados a usar a sirene. De novo, fala-se em poluição sonora, mas:

  • quer-se o aeroporto no centro da cidade;
  • acha-se normal haver festa em vários espaços ao ar livre, mesmo rente a zonas habitacionais;
  • as obras são muitas, mas vão começar as piores de todas (as do metropolitano);
  • está barulho, mas usa-se a buzina porque o carro da frente não arranca no segundo em que o semáforo fica verde ou o peão está a fazer travessia na via adequada;
  • o barulho é excessivo, mas onde existem parques querem restaurantes e animação, derrube de árvores e chinfrineira;
  • reclama-se da sirene do navio por causa da segurança, mas acha-se bem o fogo-de-artifício que andou a estalar em Lisboa muito antes e muito depois da meia-noite da passagem de ano (foram pelo menos quatro dias de estouros, sempre à noite, naturalmente), afinal, é bonito — melhor seria se um cacilheiro tivesse abalroado o navio, sempre era mais silencioso e atraente para mirones.

Não é o progresso, é a falta de planeamento.

1 Vivo a poucos metros do Tejo e não ouvi nada. Ou então pensei que fosse mais um piquenique electrónico (em inglês e com k, claro) num jardim qualquer.

12
Dez19

Circo

Da série vem aí o Natal

Ricardo Nobre

Já não deve faltar muito para que o dinheiro público seja utilizado para ligar a estação de caminho-de-ferro de Benfica à gare do Oriente. Tudo a favor da mobilidade e do uso de transportes colectivos, mas essa ligação já existe e chama-se Linha de Sintra (cujos comboios terminam no Oriente, havendo alguns, em hora de ponta, que vão para Alverca; a partir de Sete Rios — a estação que se segue a Benfica —, há ainda os comboios de Alcântara-Terra para a Castanheira do Ribatejo). Mais comboios, pontualidade e melhor interface com o Metropolitano e a Companhia Carris de Ferro (cujas paragens estão afastadas das estações, sendo preciso o utente fazer travessias rodoviárias) era algo que custaria menos dinheiro mas teria menos charanga.

21
Out19

Ruído por dentro

Da série Lisboa para vir ver mas não para viver

Ricardo Nobre

Esta fotografia foi tirada há umas semanas junto ao Jardim da Estrela, freguesia da Estrela, em Lisboa.

mupi campanha ruído (30 Out. 2019)

Trata-se de um mupi que está junto a uma passadeira na rotunda onde está a estátua de Pedro Álvares Cabral, junto à escola de educação João de Deus. E tirei-a porque ia eu a passar ali (como muito frequentemente sucede), tirado dos meus cuidados, e tive de voltar atrás para ver se tinha lido bem. E não, não é por um cartaz de uma campanha onde está o logótipo da Câmara Municipal de Lisboa (infelizmente não saiu completo no retrato) não usar o bem-aventurado acordo ortográfico. É porque a mesma câmara, a entidade pública que licencia os bares e as festas públicas na cidade, pede aos frequentadores da noite lisboeta (aparentemente, só para visitantes, porque a mensagem sugere que alguém se esqueceu de que vivem pessoas cá, e os residentes não o fariam) para fazerem aquilo que ela, manifestamente, não faz.

Se a minha vizinha fizesse barulho (colocando música demasiado alta, rindo e gritando com outros amigos), eu teria a polícia para proteger a minha higiene sonora, o direito ao sossego e descanso; se vivesse junto a estabelecimentos que funcionassem pela noite fora que não se insonorizassem, eu poderia fazer queixa à câmara, que, no exercício das suas competências, verificaria o nível de ruído e — espera-se — actuaria em conformidade. Mas como vivo junto a um jardim público onde a câmara promove festas que duram horas e horas, durante o fim-de-semana, com aquela música electrónica a ecoar na minha cabeça até bem depois de anoitecer, eu pergunto: a câmara está a mandar-me para ao pé do senhor Vítor Silva, que tem 61 anos?

Há uns tempos, na verdade, me tenho vindo a aperceber de que Lisboa é uma cidade má para se viver, mas boa para se vir ver. Porque depois do deslumbramento com meia dúzia de coisas começamos a notar-lhe os defeitos, que afinal são deficiências estruturais. Este verdadeiro fungagá junto a uma zona residencial é um ruído que corrói por dentro, mais do que polui. Porque a poluição se limpa, mas a corrosão mata.

31
Mai19

Duas velinhas

Ricardo Nobre

Parecendo que não, passaram dois anos da fundação deste blogue.

Antes de Entrar Aristóteles nasceu da vontade de traduzir em letra de forma reflexões sobre o mundo da perspectiva de um filólogo com preocupações culturais, sociais, políticas, ecológicas e pedagógicas.

Apesar da boa vontade do autor, nem sempre foi possível manter uma regularidade na publicação de textos. Tal deve-se principalmente ao cumprimento de um dos princípios norteadores deste espaço: Antes de Entrar Aristóteles tem muito orgulho de ser um blogue original, no qual se publicam apenas conteúdos inéditos, e ilustrado (sempre que possível) com fotografias próprias. Evita fazer comentários sobre a «actualidade» ou personalizar reflexões; também não serve para partilhar histórias da minha vida nem para conversar ou mandar recados a ninguém; não é um marcador ou plataforma de sugestão de leituras.

Actualmente, o blogue apresenta nove «tags», que aqui recebem o nome de «colecções»:

breviário: memórias e monólogo interior;

cousas de folgar e gentilezas: expressão de Garcia de Resende no prólogo do Cancioneiro Geral, é aqui utilizado para catalogar textos sobre cultura e política cultural;

deleite e lição de sã linguagem: Camilo Castelo Branco (A Queda dum Anjo) é o autor que dá nome à colecção sobre língua portuguesa (a expressão continua com «e sãs doutrinas»);

excelentes costumes & manhas: de novo, Garcia de Resende, no mesmo prólogo, título da «tag» para textos sobre política e sociedade;

facilmente das outras és princesa: o verso de Camões (Os Lusíadas) cataloga textos sobre Lisboa;

no interior dos livros: (título ainda para amadurecer) sobre objectos e inscrições dentro de livros de várias bibliotecas;

obra vtil & necessaria pera bem screuer: sobre ortografia, incluindo o Acordo Ortográfico (provavelmente o maior logro que entidades públicas nos impuseram e certamente o pior que um regime democrático fez a uma língua, revelando ignorância sobre política de língua, conceito de ortografia e o mais elementar bom senso);

philologia: textos sobre línguas clássicas;

quem não sabe arte não na estima: verso de Camões (Os Lusíadas), dá nome à colecção de textos sobre a promoção pública da literatura e da leitura.

Sem pretender auferir de algum reconhecimento ou prestígio, nestes dois anos, o autor foi homenageado pela equipa do Sapo: os textos «A expansão do Metro e o estado da rede ferroviária», «Como aprender latim (a escolha do método)» «Falta o respeito por pessoas com mobilidade reduzida», «Os tempos são outros; os costumes também» e «Financiar a leitura» foram colocados em destaque. Obviamente que os meus destaques seriam outros (como por exemplo «O fim da Arcádia», «O peão é para a via pública», «Todos os dias são dias do livro, mas nem todos os livros são do dia» ou o «Compêndio de insultos online»), mas não quero ser mal-agradecido.

Quanto aos propósitos que orientam o blogue para o futuro, diria que pretendo continuar a escrever, sendo independente, correcto e criativo.

02
Jun18

O peão é para a via pública!

Ricardo Nobre

O senhor leitor já está a pensar que o autor deste blogue se retirou depois de um acidente de viação com uma bicicleta enquanto caminhava em Lisboa. Ainda não aconteceu, mas deve faltar pouco.

A extravagância ciclista da edilidade (digo assim para parecer o Conselheiro Acácio), que sarjou a cidade (digo assim para parecer o Oliveira Martins a falar de Fontes Pereira de Melo) de pistas verdes, acompanhou o período mais terrível para os transportes públicos de Lisboa. Não só pela gradual quebra na oferta da Carris, que a propaganda Medina iludiu com umas carreiras de bairro — que eram (são?) o redesenhar de carreiras já existentes (ninguém reparou?) — e com cinco ou seis anúncios (é o mesmo anúncio, mas repetido para parecer que as coisas paradas são dinâmicas) de novos autocarros (ubi sunt?, perguntaria Baruque), mas também porque as alterações viárias realizadas no último ano e meio em Lisboa prejudicou o acesso às paragens dos autocarros*. A Carris aceitou a movimentação de paragens para o meio da estrada, a que se acede depois de atravessar outras vias. Por exemplo: do Campo Grande ao Marquês de Pombal, não se sai do autocarro para entrar no metro ou na estação de caminho-de-ferro sem precisar de atravessar estradas e ciclovias (o que cria enormes perigos porque não é raro as pessoas saírem a correr de um transporte para apanhar outro). Já foi pior: como os engenheiros da Câmara nunca perceberam que nesse eixo há autocarros articulados a funcionar (o 83 e o 36) ou que, simplesmente, pode acontecer dois autocarros chegarem em simultâneo à mesma paragem, inicialmente havia canteirinhos de jardim para quem saía do autocarro pela porta de trás ter lama ou pó (que é no que esses jardins estão transformados) para pôr os pés. Como na imagem se vê, isso continua a acontecer porque agora há espaço para um mas não para a paragem de dois autocarros articulados.

2017-11-24 16.43.59.jpg

 

Depois, existe ainda a singularidade de, em Entrecampos, ser normal ser preciso parar para não levar com uma bicicleta (elas apitam porque pensam que atrás das paragens passa a Volta a Portugal); no Campo Pequeno, se sair do autocarro a poente para atravessar a rua para nascente, o peão precisa de atravessar duas passadeiras no sentido oposto para chegar ao semáforo em frente à Praça de Touros. A alternativa é circular pela ciclovia, ouvir protestos e apitos. No Saldanha, numa praça com dimensões consideráveis, as paragens (afastadas do passeio por duas vias e uma ciclovia) não têm acesso senão por um lado. Na Avenida Fontes Pereira de Melo, é preciso atravessar a ciclovia (até têm uma passadeirazinha de bebé pintada!) para entrar ou sair do autocarro.

Resta ao munícipe, habitante e trabalhador, concluir que a Câmara surge, portanto, como agente impulsionador da mobilidade citadina por meio de bicicletas porque não há outros transportes. O impulso foi dado primeiramente pela criação de ciclovias e mais recentemente pela disponibilização cogumelar de parques de bicicletas de aluguer, da responsabilidade da EMEL (a empresa pública mais odiada da cidade agora estaciona as carrinhas nos passeios enquanto faz o que tem a fazer lá com as Giras deles). Falta, porém, formar os ciclistas: em cima da bicicleta, são um veículo e, nessa condição, circulam pela ciclovia ou pela estrada; param no semáforo; sempre que precisam de atravessar a passadeira de peões ou circular pelo passeio, têm de se apear e andar com ela pela mão. Se nada disto acontece, porque não pode o peão andar na ciclovia sem ouvir o apito da bicicleta? Pode ser que Medina crie uma empresa pública (há sempre gestores públicos a precisar de colocação) de formação de ciclistas ou (a minha opinião favorita) que disponibilize apitos para peões afastarem ciclistas (até na Feira do Livro é preciso usar). Não que os peões tenham de circular sempre na ciclovia — mais porque as bicicletas usam com mais insistência os passeios do que a estradinha verde que os nossos impostos lhes fizeram.

 

*Não repetirei agora as críticas à excentricidade governamental na maior e pior mudança da história do Metropolitano de Lisboa, ao criar uma linha circular que, aparentemente, não beneficia ninguém (os beneficiados da linha de Cascais seriam mais bem servidos com uma estação da CP a funcionar em Alcântara-Terra, que retiraria a movimentação de massas do Cais do Sodré e os distribuiria por Sete Rios, Entrecampos, Alvalade, Oriente, etc.).

 

P.S.: Este texto homenageia, assim, um senhor meio ébrio que eu costumava encontrar quando andava de 27, que um dia, precisamente no Campo Pequeno, se envolveu numa discussão com um ciclista. Foi causa suficiente para ir a altercar sozinho no autocarro sobre o lugar dos peões, na via pública, enquanto as bicicletas circulam sem regras no espaço de peões e automóveis. Ao chegar ao Saldanha já dormia o sono dos justos.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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