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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

02
Jan20

Pior que bem

Da série escrever para o jornal sobre uma norma que a língua não tem

Ricardo Nobre

Na gramática de português há algumas regras que aparentam ser arbitrárias, debitadas em livros de «bem escrever», sem que haja justificação, explicação ou comentário para o que se recomenda ou para o que se condena (normalmente, se o gramático gosta de uma construção, permite-a; se embirra com ela, condena-a). Alguns falantes aprendem-nas dos seus professores e passam-nas, por sua vez, aos alunos, tomando-as como leis inquestionáveis. Este gesto atribui à gramática e a preconceitos um poder que nada nem ninguém deveriam ter. Vem isto a propósito de uma curiosa carta à direcção do Público, publicada dia 22 de Dezembro do ano passado, onde uma leitora escrevia: «Tenho a agradecer a Vasco Pulido Valente (V.P.V.) o pedido público aos seus colegas para que distingam entre “melhor” e “mais bem”. Professores, mesmo ex-professores, subscrevem, não pelo bem-estar linguístico exclusivo dos colegas de V.P.V., mas das “massas” e respectivos filhos» (p. 6). A leitora aludia ao «Diário» de Valente de 14 daquele mesmo mês. Na entrada de 7 de Dezembro, o autor (identificado como historiador) escrevera: «Peço aos meus colegas do jornalismo falado e escrito, mas sobretudo falado, que não se esqueçam sistematicamente de que “melhor” não é igual a “mais bem”» (p. 9).

Autor e leitora estão a falar do comparativo do advérbio «bem» (superlativo: «optimamente»), que não querem contaminar com «melhor», que seria, no seu entender, comparativo (e superlativo) do adjectivo «bom» (superlativo: «óptimo»). Teríamos assim um limite muito seguro entre as classes de palavras: ao adjectivo o que é do adjectivo, ao advérbio o que lhe diz respeito. De onde vêm estas regras senão de um português «mais bem» aprendido por uma escola «melhor» do que a que agora existe?

Falemos, portanto, de «mais bem» e de «melhor» (mas poderíamos estar ainda a falar de «mais mal» e «pior», «mais pequeno» e «menor», «mais grande» e «maior»).

Apesar do que a leitora e Valente reivindicam, a palavra «melhor» é, de acordo com vários dicionários e com o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966), comparativo de bom e de bem. Trata-se, consequentemente, de um adjectivo e de advérbio (a diferença é que enquanto adjectivo a palavra admite flexão e como advérbio, não) — e com efeito, olhando à etimologia, em latim, melior é feminino e masculino e melius é neutro do adjectivo bonus e comparativo do advérbio bene. Nada mais natural que a forma de masculino e feminino tenha levado de vencida à neutra, que desapareceu da nossa língua, impondo-se em todos os contextos. O mesmo fenómeno é exibido por outras línguas indo-europeias, como o grego (a regra é: o comparativo do advérbio coincide com o acusativo neutro do comparativo do adjectivo — Boas et al., The Cambridge Grammar of Classical Greek, Cambridge Univ. Press, 2019, pp. 87-88). Também Ferreira e Figueiredo (Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto Editora, 1995, p. 221) avisam: «Não confundir melhor (comparativo de bem) com melhor (comparativo de bom): “Os meus estudos vão bem, mas podiam ir melhor (= mais bem)” e “Este aluno é bom, mas aquele é melhor”».

Sem se poder obrigar o utente da língua portuguesa a usar construções latinas (em prol de um purismo que rigorosamente nunca existiu), observe-se que em latim (e em grego) os comparativos de superioridade se formam normalmente por sufixação (ou seja, muda a terminação da palavra). Em algumas situações, poderia ainda recorrer-se a advérbios equivalentes aos nossos mais, menos, muito (Almendra e Figueiredo, Compêndio de Gramática Latina, Porto Editora, 2003, pp. 55 e 58). Foi isto que o português normalizou: numa tendência analítica, usam-se mais palavras e reduziu-se a flexão. Nada nestas transformações é linear, e por isso mantêm-se do latim, além dos superlativos óptimo e péssimo, os comparativos melhor (< melior) e pior para bom e mau (aquela terminação -ior é precisamente a marca latina de comparativo de superioridade de que se falava atrás).

Por haver duas formas disponíveis, uma latina e outra mais portuguesa, diz-se que os adjectivos têm uma forma de comparativo (de superioridade) sintética e outra composta. «As formas compostas do comparativo de superioridade e de inferioridade dos adjectivos bom, mau, grande, pequeno, alto, baixo, empregam-se quando se comparam qualidade do mesmo sujeito ou da mesma acção: É mais mau do que irreflectivo» (Ferreira e Figueiredo, Compêndio de Gramática Portuguesa, p. 153).

Interessa, porém, olhar para o advérbio.

Ainda que mais próxima da origem da língua, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra (Sá da Costa, 15.ª ed., 1999), classifica de «anómalas» as formas «melhor» e «pior» como comparativos de advérbios (pp. 545-546); sem condenar o seu uso, regista-se, porém, uma restrição: «os comparativos regulares mais bem e mais mal [são] usados, de preferência, antes de adjectivos-particípios», demonstrado por exemplos como «As paredes da sala estão mais bem pintadas que as dos quartos». O aborrecimento é que «na posposição só se empregam as formas sintéticas»: «As paredes da sala estão pintadas melhor que as dos quartos» (p. 546). Estranho advérbio que não admite mobilidade na frase, «desfazendo-se» na forma anómala quando muda de posição.

É uma restrição estranha: o que a justifica e a que se deve? Não há resposta para isso; a regra ficou enunciada para Pulidos Valentes e suas leitoras as imporem a colegas e aos leitores.

Vejamos o que por aí se disse.

No Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Rodrigo de Sá Nogueira (Livraria Clássica, 2.ª ed., 1974) afirma: «Melhor feito. Melhor acabado. Melhor pensado — Isto é corrente, mas não é correcto. Os escrupulosos, que têm a verdadeira noção do valor gramatical da forma melhor, não a empregam assim. — Melhor é a forma comparativa do adjectivo “bom”, não do advérbio “bem”: melhor equivale a “mais bom”, que se não usa; “mais bem” usa-se, naturalmente porque não existe uma forma simples designativa do comparativo do advérbio “bem”. […] Diz-se: “este rapaz trabalha mais bem ou mais mal que ou do que aquele”, e não: “este rapaz trabalha melhor ou pior que ou do que aquele”. […] Não obstante o que fica exposto, há certa tendência para empregar as formas melhor e pior, não só com o valor de comparativo dos adjectivos bom e mau, como dos advérbios bem e mal» (pp. 250-251, itálicos e negritos do original, sublinhado meu).

À margem, comente-se que é muito bizarro fazer coincidir o que se diz com a norma e o que não se diz com o erro, sobretudo quando no fim se admite que o que não se diz é afinal o que se diz. Além disso, se historicamente melhor (e pior) funcionam bem como advérbios, porque é que Nogueira lhe retira a pertença àquela classe de palavras? Reconhecendo a «tendência para empregar as formas melhor e pior […] como dos advérbios bem e mal», é igualmente interessante que no artigo «Melhores», que se segue ao agora citado, Sá Nogueira volte a escrever: «Propriamente a forma melhor é o comparativo do adjectivo bom, não do advérbio bem. Contudo, na prática, está há muito consagrado que ela é também comparativo desse advérbio bem em certos casos. O comparativo regular de bem é mais bem.» Parece escrito por outra pessoa, mas é o mesmo Sá Nogueira que continua: «“Melhor” é a forma comparativa do adjectivo “bom”, e do advérbio “bem”; no primeiro caso é variável, mas no segundo não deve ser. — Assim, diz-se: “o meu carro é melhor que o teu” e “os meus cavalos são melhores que os teus”, mas “o doente está melhor”. — No primeiro caso, pois, “melhor” equivale a “mais bom”, e “melhores” a “mais bons”; no segundo caso a “mais bem”». Neste ponto, não há dúvida de que nenhum falante de português optaria por «mais bem» em vez de «melhor» (que também funciona como adjectivo: «os doentes estão melhores» é, provavelmente, menos estranho do que «os doentes estão melhor»).

Sá Nogueira, todavia, ainda não acabou; apela agora à autoridade: «O Dr. Cândido de Figueiredo condenava que se dissesse, por exemplo, “este livro está melhor feito que aquele”, preconizando que de preferência se dissesse: “este livro está mais bem feito que aquele”. A razão que dava era de que “melhor” é propriamente comparativo do advérbio “bom” e não do advérbio “bem”. — Se o benemérito lexicógrafo tivesse razão, certamente deixaríamos de poder perguntar a alguém se está “melhor”, para termos de passar a perguntar-lhe se está “mais bem”. — Sem dúvida, Cândido de Figueiredo estava na razão: gramaticalmente é assim. O que acontece é que o uso geral determinou “não obedecer às razões de lógica gramatical”» (p. 251, itálicos do original, sublinhado meu).

Esta última citação vai ao encontro do que atrás foi dito sobre restrições de uso de «melhor», mas, como atrás também se disse, gramaticalmente não «é assim». Porque não é em todas as situações que «mais bem» substitui «melhor». Nos exemplos do excelente lexicólogo e fraco poeta Cândido de Figueiredo, é clara a preferência por «mais bem» porque a perífrase acompanha um particípio passado. Sá Nogueira nunca faz essa distinção. Em «Mais bem. Mais mal. Mais bom. Mais mau», no mesmo Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, o autor repete as informações já mencionadas, mas recorre a Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, pp. 203-204 (2.ª ed.): «Assim como ninguém dirá “a obra melhor feita”, mas sim “a obra mais bem feita”, nem “o melhor aventurado”, mas sim “o mais bem aventurado”, corrente e correcto será dizermos “as obras mais bem acabadas”, “os livros mais bem impressos”, “os concorrentes mais bem classificados”. — A meu ver, a razão filológica de que o mais bem é ali a forma exacta, é que o advérbio bem, anteposto a adjectivo qualificativo, é um proclítica, isto é, um elemento que perde a sua acentuação própria, subordinando-se à do adjectivo, e constituindo com ele como uma só palavra. Em bem aventurado até se reuniram os dois termos, formando realmente uma só palavra. — (Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 1905)» (p. 240, itálico original).

José Leite de Vasconcelos está apenas a falar de «mais bem» com particípios e explica porque é que ele pensa que esse fenómeno se dá com essas formas (ainda não lêramos nada que explicasse o fenómeno). O que está em causa para o grande sábio é que, afinal, «bem+particípio» já constitui uma unidade lexical, e por isso o comparativo natural forma-se regularmente com o acrescento de «mais» antes de «bem feito», «bem construído», «bem formado», «bem aventurado» (esta última expressão lexicalizou-se como uma só palavra, e por isso escreve-se com hífen quando é substantivo). Essa unidade lexical parece ser um bom motivo para que «As paredes da sala» de Cunha e Cintra estejam efectivamente «pintadas melhor que as dos quartos», pois a expressão deixou de ser «bem pintadas». A mesma análise é feita por Augusto Epifânio da Silva Dias, como mais abaixo citarei.

No entanto, há o uso, a história da língua e as suas áreas críticas (oscilações sincrónicas), que denunciam a veracidade do lugar-comum «a língua não é estática» (declinado também como «a língua é dinâmica», «está sempre a evoluir», etc.). É por isso que a gramática (e a linguística contemporânea) tem de ser teórica: para descrever abstractamente o funcionamento da língua, dando conta de diferentes construções (nota autobiográfica: tive uma professora de Sintaxe que dizia que a língua não tem excepções, tem é situações não explicadas).

Epifânio da Silva Dias, na sua Sintaxe Histórica Portuguesa (5.ª ed., Livraria Clássica Editora, 1970) recolhe a lição da sã linguagem dos nossos clássicos:

«De comparativo (de superioridade) de grande serve maior; de bom e de bem, melhor; de pequeno, menor (a par de mais pequeno); de mau e de mal, pior:

E a saude melhor he conheçida depois da doença que primeyramente (V. Bemf., 222). mal entendida, e peor praticada (Vieira, II, 108). ouçamos aquelle engenho [Ovidio] que melhor que todos soube exprimir os affectos da dor, e da natureza (Id., ibid., 877, 878).

No port[uguês] arc[aico] também se dizia mais grande:

em outro mais grande (Gir. Alv., 14).

Pode dizer-se, v.g.: mais ou menos grande:

Obs. Diz-se v.g.: mais bem feito, mais mal feito, porque mais pertence para o conjunto bem feito, mal feito. Também quando se comparam qualidades do mesmo sujeito, ou da mesma oração, naturalmente se diz, vg.: ele é mais mau do que irreflectivo; procedeu mais bem do que mal.» (pp. 169-170, itálico do original, sublinhado meu, ortografia actualizada, excepto nos exemplos, cujas abreviaturas correspondem, segundo pp. 7-11, a: Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro, Porto, 1910: cit. a página; P.e António Vieira, Sermões: cit. a parte e a página; Mestre Giraldo, Livro d’Alveitaria: cit. a página da Revista Lusitana, tomo 12)

A leitora citada, os seus colegas e Pulido Valente continuam com a legitimidade de reclamar de «melhor», mas a verdade é que nada podem fazer contra o uso (contemporâneo ou não), a etimologia, e a história da língua. São  irreflexões de quem chega à letra de forma da imprensa que mais não fazem do que espalhar o erro, o preconceito e, desculpem lá, a ignorância de que acusam os outros.

03
Out19

«Inteligente é com o i (i, i, i!)»

tal como «açorianos»

Ricardo Nobre

Apesar do que deve vir no Livro de Estilo do jornal (cujo acesso online não está a funcionar), Victor Ferreira e Rui Pedro Paiva escrevem «açorianos» com erro ortográfico.

açoreanos

Trata-se de um erro comum, mas evitável. Fica a mnemónica, recordando a música do Buereré (da autoria de Toy e cantada por Ana Malhoa). Agora é chegar a casa e abrir o livro para estudar.

01
Ago19

O Amor da Palavra

Ricardo Nobre

Quando o amor à língua exige o conhecimento dos seus segredos, da história das suas andanças e pegadas pelo mundo, não se escreve um poema, escreve-se um dicionário. Com todas as palavras da língua, mesmo quando são quatrocentas e catorze mil oitocentas e vinte e cinco.

Quando se junta Mel Gibson a Sean Penn, faz-se um filme sobre a intrigante história de amor pela palavra que foi a concretização do Oxford English Dictionary, o dicionário que reinventou a lexicografia moderna — «The greater effort since the invention of printing» — a partir da publicação do primeiro fascículo em 1884 (entre nós, ainda não tinham sido publicados Os Maias; Fernando Pessoa ainda não tinha nascido; reinava El-Rei D. Luís). A primeira edição sairia apenas em 1927: «Twelve mighty volumes; 414,825 words defined; 1,827,306 illustrative quotations used», «The total length of type […] is 178 miles, the distance between London and the outskirts of Manchester. Discounting every punctuation mark and every space […] there are no fewer than 227,779,589 letters and numbers». A segunda edição, de 1989, tem vinte volumes; a terceira está em preparação e poderá estar pronta em 2037 (está disponível uma versão em linha, claro).

O filme é baseado no livro de Simon Winchester, que escreveria anos depois a história do dicionário fora do universo da ficção (The Meaning of Everything, 2003). O título original do romance histórico de 1998 é The Surgeon of Crowthorne: A Tale of Murder, Madness and the Love of Words, mas nos E.U.A. foi publicado com o título que dá nome ao filme: The Professor and the Madman: A Tale of Murder, Insanity, and the Making of the Oxford English Dictionary (tenho a 1.ª edição da Harper Collins, de onde citei excertos da pág. 220).

The Professor and the Madman e The Meaning of Everything, de Simon Winchester

«One word — and only one word — was ever actually lost: bondmaid, which appears in Johnson's dictionary [publicado em 1755], was actually mislaid by Murray and was found […] long after the fascicle Battentlie-Bozzom has been published». A ausência da palavra é mencionada no filme e usada contra James Murray (Mel Gibson), que é hostilizado desde o início pelos responsáveis da editora de Oxford (apesar das suas capacidades intelectuais, Murray não tinha um grau académico, vindo a recebê-lo durante a elaboração do dicionário, honoris causa).

Em Portugal, é claro, não há nenhum dicionário com esta grandeza, escopo e precisão. Se estamos a ler um livro um bocadinho mais antigo, já os dicionários não nos dão os significados das palavras que caíram em desuso porque no nosso país os dicionários são sempre feitos para a língua contemporânea, o que faz com que de edição para edição sejam retiradas palavras cultas e necessárias para a boa compreensão de textos, a fim de introduzir neologismos que duram menos que o vigésimo governo da república portuguesa. E o leitor precisa de voltar a Bluteau, a Morais, a Cândido de Figueiredo… deixando os dois volumes do dicionário da Academia das Ciências a apanhar pó a um canto. Vanham-nos, ainda, Aurélio e Houaiss!

26
Jun19

Norma(s) de língua

Ricardo Nobre

A mim, que sou um pobre gramático, causa-me muito espanto que argumentos sobre a língua, em particular a ortografia (porque noutros campos percebo que a língua é instrumento de independência), se radiquem em questões políticas. Em primeiro lugar porque não compete ao estado impor uma ortografia; vivemos (muito bem, por sinal) sem ela até 1911, a República impôs uma regra para acabar com a arbitrariedade e instabilidade ortográficas. Mas agora é o estado a desestabilizar a ortografia, aquela mesma que resolvera fixar por lei: foi assim em 1911, em 1945, em 1973 e em 1990 (como é de 30 em 30 anos, está para breve a próxima). Em Portugal sempre gostámos muito de mudar a ortografia de mãe/pai para filho/filha.

E, tal como penso que o estado não manda na língua, também não me parece racional que um país mande na língua usada por outros países porque isso cria falantes de primeira, de segunda, de terceira e por aí fora. Mesmo a questão da norma é algo fascista porque deve haver poucos absurdos maiores do que achar que Lisboa fala melhor português do que Trás-os-Montes, o Alentejo ou o Algarve.

Não preciso recordar que os colonizadores esclavagistas do Brasil são os antepassados dos brasileiros «brancos» de hoje e que 200 anos de independência deveriam ter sido suficientes para o país crescer sozinho. A internet — esse poço de sabedoria — está cheia de brasileiros (eles são muitos, e por isso há também proporcionalmente mais ignorância) que lamentam terem sido colonizados por portugueses. Dizem que preferiam ter sido colonizados por holandeses ou ingleses porque as antigas colónias daqueles são países mais desenvolvidos e que no segundo caso não precisavam de aprender inglês. Existe mais mentalidade de colonizado do que preferir usar a língua de outro do que a consciência de que é por eles falarem português que o português tem peso no mundo?

Seja como for, no debate sobre o acordo ortográfico tenho lido, do lado dos prós como dos contras, argumentos de profunda xenofobia. O português do Brasil não é uma língua de índios, é uma variante do português, tal como o português europeu — e tal como os países africanos têm as suas variantes (nos casos de Angola e Moçambique as realidades linguísticas são muito interessantes porque grande parte da população não fala o português como língua materna, sendo aquela a língua do ensino). Isso não lhe atribuiu (tal como não atribui ao português do nosso jardim) nem qualidades inferiores nem superiores. As coisas são como são e são diferentes. Não me repugnaria ortografias diferentes, mas parece que se é para ser orto- («correcta») só deveria haver uma grafia. Se se considerar que as variantes divergiram tanto que se tornaram línguas diferentes, então a história é outra: é que países independentes usam a língua como garante da sua soberania.

N.B.: Republicação com pequenos ajustes do comentário deixado à Sarin aqui.

13
Jun19

O interruptor

Ricardo Nobre

Até à última crónica de opinião (mencionada neste blogue), os textos de Fernanda Câncio no sítio da TSF eram acompanhados da mensagem «a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990» (itálico original). O texto com data de ontem já não tem essa informação e segue a norma ortográfica do Acordo Ortográfico de há quase trinta anos.

Cada falante é livre de falar e escrever como quiser. Por comodidade, convém que faça uso de um sistema reconhecido pela restante comunidade; por boa-educação, é aconselhável que escreva sem erros ortográficos. Fora isso, apenas requeiro que em meios de comunicação social de referência a língua seja usada com correcção e com a dignidade que merece. Por isso, sendo eu profundamente contra as regras ortográficas do tal Acordo Ortográfico (porque entendo a ortografia de uma forma muito diferente de quem é a favor ou contra as «novas» regras), também não me ofendo que pessoas inteligentes o adoptem na sua escrita. A reflexão que a grafia do último texto de Fernanda Câncio me suscita é: qual é o ponto em que uma pessoa decide que chegou o momento de abandonar uma ortografia que, embora com alguns problemas, é muito mais segura do que a que se encontra mais difundida pelos jornais?

Já tenho ouvido vários motivos por que o fazem. Aqueles que me dão mais alegria dizem respeito à interacção com os filhos porque leio há muitos anos literatura em português dos séculos xv, xvi, xvii, xviii, xix e xx e nunca tive dificuldades em compreender o que lá estava escrito por causa da ortografia — e não quero acreditar que um falante de português que está a terminar o primeiro ciclo do ensino básico não consiga perceber o que o pai ou a mãe lhe querem dizer quando escrevem «óptimo» ou «acção».

31
Mai19

Duas velinhas

Ricardo Nobre

Parecendo que não, passaram dois anos da fundação deste blogue.

Antes de Entrar Aristóteles nasceu da vontade de traduzir em letra de forma reflexões sobre o mundo da perspectiva de um filólogo com preocupações culturais, sociais, políticas, ecológicas e pedagógicas.

Apesar da boa vontade do autor, nem sempre foi possível manter uma regularidade na publicação de textos. Tal deve-se principalmente ao cumprimento de um dos princípios norteadores deste espaço: Antes de Entrar Aristóteles tem muito orgulho de ser um blogue original, no qual se publicam apenas conteúdos inéditos, e ilustrado (sempre que possível) com fotografias próprias. Evita fazer comentários sobre a «actualidade» ou personalizar reflexões; também não serve para partilhar histórias da minha vida nem para conversar ou mandar recados a ninguém; não é um marcador ou plataforma de sugestão de leituras.

Actualmente, o blogue apresenta nove «tags», que aqui recebem o nome de «colecções»:

breviário: memórias e monólogo interior;

cousas de folgar e gentilezas: expressão de Garcia de Resende no prólogo do Cancioneiro Geral, é aqui utilizado para catalogar textos sobre cultura e política cultural;

deleite e lição de sã linguagem: Camilo Castelo Branco (A Queda dum Anjo) é o autor que dá nome à colecção sobre língua portuguesa (a expressão continua com «e sãs doutrinas»);

excelentes costumes & manhas: de novo, Garcia de Resende, no mesmo prólogo, título da «tag» para textos sobre política e sociedade;

facilmente das outras és princesa: o verso de Camões (Os Lusíadas) cataloga textos sobre Lisboa;

no interior dos livros: (título ainda para amadurecer) sobre objectos e inscrições dentro de livros de várias bibliotecas;

obra vtil & necessaria pera bem screuer: sobre ortografia, incluindo o Acordo Ortográfico (provavelmente o maior logro que entidades públicas nos impuseram e certamente o pior que um regime democrático fez a uma língua, revelando ignorância sobre política de língua, conceito de ortografia e o mais elementar bom senso);

philologia: textos sobre línguas clássicas;

quem não sabe arte não na estima: verso de Camões (Os Lusíadas), dá nome à colecção de textos sobre a promoção pública da literatura e da leitura.

Sem pretender auferir de algum reconhecimento ou prestígio, nestes dois anos, o autor foi homenageado pela equipa do Sapo: os textos «A expansão do Metro e o estado da rede ferroviária», «Como aprender latim (a escolha do método)» «Falta o respeito por pessoas com mobilidade reduzida», «Os tempos são outros; os costumes também» e «Financiar a leitura» foram colocados em destaque. Obviamente que os meus destaques seriam outros (como por exemplo «O fim da Arcádia», «O peão é para a via pública», «Todos os dias são dias do livro, mas nem todos os livros são do dia» ou o «Compêndio de insultos online»), mas não quero ser mal-agradecido.

Quanto aos propósitos que orientam o blogue para o futuro, diria que pretendo continuar a escrever, sendo independente, correcto e criativo.

26
Abr19

Medindo água em toneladas

Ricardo Nobre

… é assim o jornalismo de referência em Portugal.

Nota para as redacções: tonelada é uma unidade de medida de massa ou de energia. É certo que no registo informal ou figurado pode significar «grande quantidade», mas o jornalismo de qualidade usa registo informal ou linguagem figurada? Enfim, a unidade de medida de capacidade ou de volume (aplicada a líquidos) é o litro. Como uma tonelada são mil quilos (abreviatura de quilogramas), mil litros são um quilolitro.

Isto aprendia-se na escola primária.

12
Abr19

É sempre engraçado

Ricardo Nobre

O site do Expresso (o próximo jornal cuja assinatura não renovarei) informa de uma iniciativa daquele semanário com um restaurante de hambúrgueres e o Plano Nacional de Leitura que pretende, uma vez mais, salvar as crianças da ignorância que o facto de não ler provoca nos seres humanos.

É certamente um projecto muito louvável, mas não se pode publicar por escrito supostas declarações de uma pessoa, neste caso «a autora infantil Maria Inês Almeida», que terá afirmado «Gostava que houvessem reading classes» (sem itálicos nem nada, que a evolução tecnológica aboliu essas antiguidades tipográficas). Na verdade, pelo menos no vídeo publicado naquela página, Maria Inês Almeida não diz houvessem, mas hesita entre o termo inglês reading classes e a expressão bem formada em português aulas de leitura.

houvessem reading classes

É engraçado uma declaração, ainda por cima tão curta e a propósito de literacia, ser citada com dois erros tão maçadores. Quase apetece dizer que gostava que houvesse gramáticas e dicionários para educar os jornalistas (a notícia não está, prudentemente, assinada) para aprenderem a usar a língua portuguesa e a fazer citações exactas, que é para isso que servem as aspas, não para tentar sintetizar uma declaração. Já agora, em aulas de leitura de livros (e jornais de «referência») que não usassem o verbo «haver» no plural quando tem sentido impessoal.

16
Abr18

Uma ortografia para o ensino

Ricardo Nobre

Ao contrário do que acontecia com a nomenclatura gramatical, que foi substituída pelo Dicionário Terminológico, o acordo ortográfico não tem na sua base uma necessidade urgente devida a desadequação científica. As regras ortográficas datadas de 1945 serviriam a todos os utentes da língua portuguesa sem deficiências. Dizer-se que ajuda o ensino não é correcto. Não podemos partir do princípio que os alunos não são capazes de escrever «acção», apesar de não pronunciarem o «c». Mesmo os alunos estrangeiros que aprendem português reconhecem que o Acordo Ortográfico lhes dificulta a aprendizagem (já me disseram que percebem melhor a nossa língua lendo-a pela grafia do século XIX). Não se aprende a escrever escrevendo o que se ouve: e isso é assim em português, em francês, em espanhol, em inglês, em grego, e certamente em quase todas as línguas vivas.

Não se recusa o Acordo Ortográfico pelo medo de mudança, muito menos de conservadorismo (aliás, isto não é argumento para se dizer sim) — trata-se, antes de mais, de respeito pela tradição ortográfica, baseada na etimologia, na História da nossa língua.

15
Abr18

Dias difíceis para as artes e para todos nós

Ricardo Nobre

Não há dúvida de que a capacidade (acima do normal) que o sector artístico tem para ocupar o espaço público lhe dá um poder que dificilmente se pode comparar a outros profissionais, igualmente dignos de respeito por parte de uma sociedade europeia de natureza democrática.

Com efeito, não são poucas as profissões que beneficiam do apoio público para funcionar, incluindo a saúde e a educação. E, como estas, a protecção civil, a investigação no meio universitário e a segurança social. Existem ainda outros sectores em que o peso do estado é assinalável, como os transportes (que têm um papel importante no tecido económico por questões de mobilidade e turismo, além da preservação do ambiente). Sem falar da Defesa e das Forças Armadas, o papel do Estado, não estando completamente bem definido, é, intuitivamente, esse: dar condições para que sejamos bem educados, instruídos e cultos, vivendo com saúde e protegidos.

Ora, mesmo que eu ignorasse o papel civilizacional da cultura (incluindo a edição, as bibliotecas, a tradução), alguém poderia lembrar-me do relevo económico que as actividades artísticas têm. Acontece que, apesar do sucesso do Acordo Ortográfico de 1990 ao unificar a língua falada neste corredor litoral da Península, no Brasil, em Timor e nos PALOP, tornando a nossa língua verdadeiramente universal, os turistas que tiram a casa aos lisboetas não têm invadido a sala Garrett, tal como não saem do «resort Medina» para assistir aos espectáculos do Teatro Viriato ou Gil Vicente. Assim sendo, o Estado precisa de intervir, estar presente, promover e pagar muita da nossa produção cultural, tal como paga aos bancos e compra submarinos.

Para isso, o Estado burocratizou, e bem, a atribuição de subsídios às artes (companhias de teatro, de dança, de música e de circo, entre outras). As companhias têm de fazer como outros organismos públicos, que têm de prever actividades com dois, quatro ou mais anos de antecedência. A este respeito, é muito interessante reflectir sobre o que o Estado pensa sobre a actividade científica: pouco se pode prever sobre o rumo de um projecto de investigação, que, como as artes, podem ser muito pouco previsíveis. No entanto, a burocratização é, também, uma forma de nivelar todos por igual, sem que o Estado se assuma como dirigista ou como censor do tipo de concertos a que os seus cidadãos podem assistir (tal como dirige os livros da literatura portuguesa que se lêem na escola, sendo essa, porém, outra questão).

Entretanto, pude perceber que muitos critérios dos formulários do concurso da Direcção-Geral das Artes são semelhantes às da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que financia centros de investigação e laboratórios. Nas artes, as companhias agora precisam de apresentar os seus projectos criativos num formulário burocrático que quer saber coisas como a adequação das propostas artísticas à organização que as promove, as peças que querem levar ao palco ou os concertos que querem dar, descrevendo as actividades que tudo isso implica. Dito de outro modo, uma companhia de teatro não apresenta uma candidatura para desenvolver actividades de culinária, como os investigadores não apresentam projectos dedicados a História Medieval no Centro de Nanotecnologia de Braga, e pode estabelecer com a antecedência de um par de anos quais os espectáculos que pretende promover.

O processo é burocrático e moroso e retira tempo às actividades criativas? Sim, tal como preencher relatórios retira tempo à docência e à investigação. Os investigadores da FCT também se queixam disso, mas não fazem manifestações e não conseguem que o Governo abra os cofres para aumentar o financiamento depois dos resultados dos concursos. Há critérios como a definição de prioridades ou a excessiva centralização que podem ser revistos. Não se pode lamentar a desertificação do interior só quando ardem florestas, fecham correios ou agências bancárias. É preciso prover o país de uma rede cultural coerente e adequada, assegurando, por exemplo, digressões (se a Companhia de Teatro do Algarve faz uma peça de Gil Vicente, deve poder levá-la a cena em Trás-os-Montes) e que todas as capitais de distrito tenham estruturas capazes de garantir o acesso à cultura.

Todavia, estes problemas podem ser resolvidos mantendo o modelo de financiamento actual, alterando pontualmente os critérios. É preciso que os concursos estejam abertos em permanência (como se faz em países que gostamos de tomar como exemplo), que o financiamento seja maior (toda a gente fala de 1 % e eu pergunto se não seria de aumentar o orçamento da cultura para três ou quatro, visto que ainda precisamos de monumentos e museus, além de continuar a validar projectos ligados à leitura e ao livro). Os jornais poderiam, desse modo, gastar menos tempo e espaço a enumerar problemas da cultura e a fazer-lhes referência do ponto de vista crítico (e não apenas o promocional actualmente em vigor).

O meu desejo é que os agentes culturais não vão para casa depois das manifestações e que continuem a ocupar o espaço público, mesmo depois de resolvidas (ou minoradas) as questões entretanto levantadas pelo processo de avaliação de candidaturas à Direcção-Geral das Artes. E que não façam como o Teatro Nacional de Dona Maria II, que se esquece do repertório português. Não prejudica ninguém as companhias assumirem o seu papel e especializarem-se, pois mesmo dentro de uma tradição há sempre muitas oportunidades de diversificação (que a referida digressão pode, evidentemente, potenciar). Se isso implicar preencher formulários, pois que os preencham: não lhes falta engenho e arte.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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