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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

18
Jun19

Dicionários

Ricardo Nobre

Os textos da colecção Philologia têm-se dedicado a quem se quer iniciar no estudo das línguas clássicas europeias. Por isso, ainda não houve qualquer menção de dicionário, visto que, no início da aprendizagem de uma língua, não deverá haver necessidade de consultar nenhum. Aconselho a sua utilização apenas depois de chegar ao fim de um método (o Reading Latin ou o Athenaze, por exemplo), no momento de fazer a transição para uma fase mais complexa do estudo.

Também na produção de dicionários de latim e grego Portugal está muitos anos atrasado em relação ao mundo ocidental.

Na colecção de dicionários da Porto Editora, há apenas dicionários de latim-português e português-latim (os volumes de grego-português e português-grego respeitam ao grego moderno e são desadequados para o clássico). São dicionários escolares e nem sempre conseguem dar resposta rigorosa às dúvidas que a leitura dos textos suscita. O mesmo se diga do famoso Torrinha (Dicionário Latino-Português, de Francisco Torrinha, obra de 1937, reeditada até 1945), que se encontra fora de mercado, sendo, ainda assim, relativamente fácil de encontrar em alfarrabistas ou em feiras de livros usados.

O Dicionário Grego-Português e Português-Grego, de Isidro Pereira, está esgotado (1.ª ed. 1951; última edição 1998). Era um dicionário com falhas, mas com menos problemas do que a que os helenistas portugueses gostavam de lhe apontar (apelidando-o de «O Crime do Padre Isidro»). É que a maior virtude do dicionário era existir, enquanto o principal defeito dos críticos é não terem produzido nada semelhante.

Assim sendo, latinistas ou helenistas portugueses recorrem a obras estrangeiras. Os franceses têm o Gaffiot (disponível gratuitamente aqui) e o Bailly, para latim e grego, respectivamente (ambas as obras têm versões escolares, simplificadas e mais baratas); no mundo anglófono as obras de referência são o Lewis & Short e o Liddel & Scott. Estes dicionários, publicados pela Oxford University Press, estão sob domínio público (são obras do século xix) e encontram-se disponíveis na internet (por exemplo no portal Perseus). Dicionários mais elementares são os editados por James Morwood, mas facilmente se tornam demasiado simples quando se avança no estudo.

Reforço a ideia do início: quem está a começar a aprender línguas clássicas não tem necessidade nenhuma de usar dicionário. A melhor estratégia é adquirir vocabulário a partir do método de latim ou de grego que escolheu. Lendo, relendo, repetindo a leitura dos textos adquire-se mais vocabulário do que fazendo listas e decorando significados.

31
Mai19

Duas velinhas

Ricardo Nobre

Parecendo que não, passaram dois anos da fundação deste blogue.

Antes de Entrar Aristóteles nasceu da vontade de traduzir em letra de forma reflexões sobre o mundo da perspectiva de um filólogo com preocupações culturais, sociais, políticas, ecológicas e pedagógicas.

Apesar da boa vontade do autor, nem sempre foi possível manter uma regularidade na publicação de textos. Tal deve-se principalmente ao cumprimento de um dos princípios norteadores deste espaço: Antes de Entrar Aristóteles tem muito orgulho de ser um blogue original, no qual se publicam apenas conteúdos inéditos, e ilustrado (sempre que possível) com fotografias próprias. Evita fazer comentários sobre a «actualidade» ou personalizar reflexões; também não serve para partilhar histórias da minha vida nem para conversar ou mandar recados a ninguém; não é um marcador ou plataforma de sugestão de leituras.

Actualmente, o blogue apresenta nove «tags», que aqui recebem o nome de «colecções»:

breviário: memórias e monólogo interior;

cousas de folgar e gentilezas: expressão de Garcia de Resende no prólogo do Cancioneiro Geral, é aqui utilizado para catalogar textos sobre cultura e política cultural;

deleite e lição de sã linguagem: Camilo Castelo Branco (A Queda dum Anjo) é o autor que dá nome à colecção sobre língua portuguesa (a expressão continua com «e sãs doutrinas»);

excelentes costumes & manhas: de novo, Garcia de Resende, no mesmo prólogo, título da «tag» para textos sobre política e sociedade;

facilmente das outras és princesa: o verso de Camões (Os Lusíadas) cataloga textos sobre Lisboa;

no interior dos livros: (título ainda para amadurecer) sobre objectos e inscrições dentro de livros de várias bibliotecas;

obra vtil & necessaria pera bem screuer: sobre ortografia, incluindo o Acordo Ortográfico (provavelmente o maior logro que entidades públicas nos impuseram e certamente o pior que um regime democrático fez a uma língua, revelando ignorância sobre política de língua, conceito de ortografia e o mais elementar bom senso);

philologia: textos sobre línguas clássicas;

quem não sabe arte não na estima: verso de Camões (Os Lusíadas), dá nome à colecção de textos sobre a promoção pública da literatura e da leitura.

Sem pretender auferir de algum reconhecimento ou prestígio, nestes dois anos, o autor foi homenageado pela equipa do Sapo: os textos «A expansão do Metro e o estado da rede ferroviária», «Como aprender latim (a escolha do método)» «Falta o respeito por pessoas com mobilidade reduzida», «Os tempos são outros; os costumes também» e «Financiar a leitura» foram colocados em destaque. Obviamente que os meus destaques seriam outros (como por exemplo «O fim da Arcádia», «O peão é para a via pública», «Todos os dias são dias do livro, mas nem todos os livros são do dia» ou o «Compêndio de insultos online»), mas não quero ser mal-agradecido.

Quanto aos propósitos que orientam o blogue para o futuro, diria que pretendo continuar a escrever, sendo independente, correcto e criativo.

21
Mai19

Graecum est: legitur!

Ricardo Nobre

O que em textos anteriores foi sendo dito sobre a aprendizagem do latim pode ser repetido relativamente ao grego. Antes, porém, é necessário distinguir os gregos: estou aqui a falar do grego antigo, não da língua que se fala hoje na Grécia, que é significativamente diferente da língua em que foram escritos os poemas homéricos, as histórias de Heródoto, a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, os diálogos de Platão, as obras de Aristóteles, os discursos de Demóstenes e a poesia de Safo, Anacreonte ou Píndaro. E estes autores não escreviam todos da mesma maneira: o grego clássico tem dialectos diferentes (Heródoto escreveu em jónio, mas Platão em ático), situação que a partir da época helenística vai uniformizar-se no que se chama koinê, a língua comum a todas as geografias em que se falava grego (uma espécie de «inglês internacional» dos dias de hoje: uma versão única de que são eliminados os traços que distinguiam os dialectos).

Assim sendo, para começar a estudar grego é preciso começar por definir um objectivo, pois ele determinará não só por que dialecto começar, mas também que pronúncia usar — e, consequentemente, que método seguir:

1. Se o objectivo do Demódoco é aprender a ler o Novo Testamento, deve começar por aprender a koinê.

2. Se o Críticas quer ler Platão tem de começar por aprender o dialecto ático.

3. Se a Xantipa quer ler os poemas homéricos iniciará os estudos com um método que a introduza logo na língua de Homero.

4. Como é mais pragmática, a Corina quer aprender a variante em que estão escritos mais textos em grego antigo. Logo, aprenderá a koinê.

Claro que, depois de ler o Novo Testamento, Platão ou os poemas homéricos, Demódoco, Críticas, Xantipa e Corina (antropónimos gregos) podem querer ler autores que usem outra variante dialectal; nessa altura, basta aprender as características do dialecto de Safo ou Heródoto, que escreveram em eólio e jónio, respectivamente. O que é preciso é que o estudo comece com uma motivação séria e verdadeiramente entusiástica. Não há limites quanto à chegada porque o grego é como as cerejas: atrás de um autor ou de um poema, vem outro diálogo, discurso, tragédia ou comédia.

Esse objectivo da aprendizagem determina, ainda, que pronúncia escolher para usar. A pronúncia clássica do grego, ao contrário do que acontece com o latim, não está muito difundida em Portugal, onde se usa a pronúncia tradicional da língua helénica. Essa diferença começa no verbo que significa «ser, estar», pois ει, primeira sílaba de εἰμι, era pronunciado por Platão como «êê» e na pronúncia tradicional helenística diz-se «éi» (em grego bizantino e dos nossos dias já é «i»). Isto pode ser um problema no momento de usar elementos multimédia que existem pela internet, sobretudo no YouTube, onde, mesmo nos melhores canais em que se usa o latim, não há maior empenho ou qualidade na divulgação do grego antigo como língua oral. Seja como for, aconselho a que se escolha um sistema de pronúncia e que ele se mantenha, mesmo que se mude de época. Por isso, talvez seja mais prudente aprender a pronúncia da koinê (como é hábito entre nós), embora eu prefira aplicar-me na pronúncia clássica, menos adequada ao nosso aparelho fonador.

Estabelecido o princípio orientador do estudo, precisamos de um método. Como com o latim, distinguimos obras de duas naturezas:

Protótipo A: manual de grego que ensina a gramática para ler textos. Modelo: Hansen e Quinn. Outros: Mastronarde e Luschnig.

Protótipo B: manual de grego em que se lêem textos para aprender a gramática. Modelo: Athenaze (edição italiana, com vocabulário em italiano, mas também a partir de ilustrações). Outros: Reading Greek (vocabulário em inglês), Alexandros (em grego).

Dentro do protótipo B, inserem-se os métodos que ensinam grego antigo como língua viva: Ancient Greek Alive, de Paula Saffire e Catherine Freis (3.ª ed., The University of North Carolina Press, 1999), e Pólis são os mais conhecidos e certamente os melhores. Só o segundo ensina os temas tradicionais da saudação, apresentação, etc. Com o Alexandros, mencionado antes, é também possível aprender diálogos.

Como escrevi acima, existem métodos que podem ser usados para o objectivo imediato de aprender grego homérico, bíblico, helenístico. Poderei falar deles nos comentários, se algum leitor se mostrar interessado; para já, importa salientar que todas as obras que conheço que cumprem esse propósito se inserem no protótipo A.

08
Mai19

Uma língua morta muito viva (métodos de ensino de latim como língua viva)

Ricardo Nobre

Os latinistas (linguistas ou filólogos que se dedicam ao estudo do sistema linguístico do latim) costumam defender que o latim não é uma língua morta porque ainda hoje se usam expressões latinas como «etc.» [et coetera], «pari passu» (e não «a par e passo», já agora), «alibi», «grosso modo», ou porque o emblema de um clube desportivo é «e pluribus unum» (literalmente, «de muitos, um [só]») e o arco triunfal da rua Augusta tem a inscrição «Virtutibus maiorum ut sit omnibus documento. P.P.D.» («Às virtudes dos antepassados, para que sirva como ensinamento para todos. Dedicado por dinheiro público»).

No entanto, o principal argumento para defender que o latim não é uma língua morta é o de que a língua «evoluiu» para as actuais línguas do ocidente europeu que, pela expansão marítima, vieram a ser faladas noutros continentes: sobretudo, por ordem decrescente de número de falantes nativos, o espanhol (460 milhões), o português (221 milhões) e o francês (77.2 milhões). O italiano — provavelmente a língua mais bela do mundo — é falado por 64.8 milhões de pessoas. Estes números são os que estão publicados aqui.

Esta é, claro, uma perspectiva algo romanceada (adjectivo participial que, etimologicamente, tem lá dentro a palavra «Roma»), embora seja difícil defender que o italiano, por exemplo, não resulta da «corrupção» (para usar um termo camoniano) do latim, como o grego moderno resulta de uma continuidade (digamos «acidentada») do grego antigo, já de si muito diferente de região para região. Se as línguas românicas não constituíssem sistemas independentes entre si, diríamos que o latim é falado como língua materna por quase mil milhões de seres vivos do nosso planeta.

Apesar desta boa vontade, a expressão «língua morta» costuma designar o idioma que não tem nenhuma comunidade de falantes que o adquirem como língua materna. A metáfora é pobre e limitadora: dos mortos apenas nos podemos recordar, não os podemos usar, não os conseguimos tornar vivos. Não é assim com o latim.

No primeiro texto sobre o assunto, falei de dois métodos de ensino do latim, um indutivo e outro dedutivo. Neste último, também dito natural ou de metodologia directa, inclui-se a aprendizagem do latim falado, como sugerido na situação-modelo 1: «A Emília quer aprender latim para se divertir com amigos que também estão a aprender ou querem fazê-lo. Pretendem falar entre si, fingir que encomendam pizas ou que se dirigem ao hospital para serem atendidos de urgência comunicando em latim com o pessoal hospitalar». Parece ingénuo ou desnecessário, mas a verdade é que quem aprende latim falando a língua consegue ler desembaraçadamente um texto; quem apenas aprende a ler terá mais dificuldade em expressar-se em latim. Tal fenómeno deve-se ao funcionamento do cérebro, à forma como ele processa a linguagem. Assim, parece que há vantagem em aprender latim como uma língua viva. No entanto, embora esse estudo possa ser realizado individualmente, é muito mais divertido (e rápido) se houver um grupo constituído para o efeito. Juntando os amigos, poderá optar-se por um dos seguintes métodos (não listados no primeiro texto):

1. O meu favorito é o Septimana Latina: Cursus Vivae Linguae Latinae, editado por Mechtild Hofmann e Robert Maier (Munique: J. Lindauer Verlag, 2011). Há duas partes, uma só com textos (e vocabulário) e outra, num volume à parte, com esquemas gramaticais e exercícios de aplicação. Os volumes têm 95 (o primeiro) e 144 páginas (o outro). Não consegui comprá-lo em Portugal nem a Amazon alemã mo quis enviar, foi preciso recorrer a outras estratégias, mas vale muito a pena.

2. Outro método disponível é o Forum: Lectiones Latinitatis Vivae, de Daniel Blanchard e outros (Jerusalém: Polis Institute Press, 2017). Trata-se de um só volume de 365 páginas, nas quais se encontram diálogos, exercícios, vocabulário e algumas informações gramaticais em que se vai desvendando o funcionamento da língua.

Os livros estão em latim. O seu vocabulário (como no livro de Ørberg, mencionado no texto anterior) é dado em desenhos ou associações de palavras já aprendidas. Evitando a mediação de outra língua, o nosso cérebro não faz tradução, apenas lê ou ouve informação directamente da fonte emissora, que descodifica como se fosse a língua materna.

Como qualquer método de língua moderna, as obras mencionadas começam a ensinar formas de saudação e apresentação. Ensinam ainda a pedir informações, a descrever a casa, a roupa, os alimentos, os passatempos, etc.

Obra de consulta para quem quiser usar um destes métodos será Conversational Latin for Oral Proficiency: phrase book and dictionary. Classical and Neo-Latin, de John C. Traupman (Ilinóis: Bolchazy-Carducci, 2015). Apesar de algumas complexidades, pode ser usado no nível de iniciação.

O nível seguinte a este é o da leitura de textos relativamente simples, como as traduções latinas do Astérix, do Harry Potter, de Alice no País das Maravilhas, do Principezinho, entre muitos outros. Vale muito a pena a leitura de Ad Alpes: a Tale of Roman Life, de H. C. Nutting (original de 1923, reeditado em 2017 por Daniel Pettersson). A leitura destas obras, porém, exige o conhecimento de base que só se pode adquirir no estudo das obras listadas em 1 e 2.

O principal problema deste método é a sua dificuldade de avançar (ou sequer começar) se se não tiver um tutor já experiente (há alguns cursos na internet) porque intuitivamente o estudante compreenderá que liber, librum, libro, librorum é a mesma palavra, mas nem sempre perceberá porquê (no início se calhar nem precisa saber). Este aspecto é especialmente sensível para falantes de português que não conhecem mais nenhuma língua declinável, como o russo, o finlandês, o alemão ou o grego.

Uma solução alternativa para o problema indicado é a possibilidade de se começar com um método tradicional de leitura e explicações gramaticais e ir fazendo incursões nestes métodos que se chamam de imersão.

A acompanhar as actividades do estudo do latim como língua viva, recomenda-se o estímulo do cérebro mediante audição: de notícias, de podcasts, de vídeos e músicas. Alguns canais e sites (dos quais será necessário tratar individualmente em textos próximos a este) têm uma boa oferta desses materiais, mas é preciso escolher os que não são maçadores ou aqueles cujos locutores não tenham um sotaque da sua língua materna que desfigura a pronúncia do latim.

02
Mai19

Como aprender latim (a escolha do método)

Ricardo Nobre

Desde há dias, Antes de Entrar Aristóteles tem uma nova colecção na coluna dos apontadores, à direita deste texto. Philologia pretende reunir algumas questões ligadas ao conhecimento das línguas antigas, o latim e o grego, a respeito das quais escreverei pequenos textos de divulgação, sem deixar de ter cuidado com o rigor que a matéria exige. Para inaugurar a colecção, começarei do princípio: como aprender latim.

Aprende-se latim estudando latim.

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Com esta declaração, estou a defender que a aprendizagem do latim se faz como a de qualquer outra língua, ou seja, não é possível ler uma gramática e ficar apto a ler as Tusculanas de Cícero. Assim, começa-se a ler frases simples, depois algo mais complexo e por fim, eventualmente, textos literários, de especulação filosófica ou de elaboração teológica.
Para pôr o plano em prática, é preciso escolher um método e uma pronúncia, cuja selecção depende em larga medida do objectivo que se pretende atingir com a aprendizagem. Exemplos:
1. A Emília quer aprender latim para se divertir com amigos que também estão a aprender ou querem fazê-lo. Pretendem falar entre si, fingir que encomendam pizas ou que se dirigem ao hospital para serem atendidos de urgência comunicando em latim com o pessoal hospitalar.
2. O Cornélio é um homem religioso e gostaria de aprender latim com o objectivo de ler a Summa Theologica.
3. O Públio é filósofo e tem interesse em ler Séneca e Descartes sem precisar da mediação de uma tradução.
4. O Marco estuda História e está a pensar especializar-se na Idade Média: precisa de ler as fontes historiográficas portuguesas medievais. Além disso, quer ler a correspondência dos humanistas para de lá colher informações para o estudo daquela época.
5. A Júlia tem apenas interesses na área da história das ciências. Quer ler sobre botânica e agricultura em Plínio, Catão e Varrão; precisa ainda de ler as Questões Naturais de Séneca.
6. A Cláudia entrou na carreira diplomática e sabe que a língua da diplomacia foi o latim, língua que quer aprender para poder ler o Tratado de Methuen e muita correspondência diplomática.
7. Com uma infinita paixão pelas línguas, o Tito é poliglota e linguista. Precisa de compreender, na origem, o funcionamento de alguns traços da sua língua materna, relacionando-a com outras da mesma família.
8. Cansada de aprender expressões latinas de cor sem verdadeiramente as entender, a estudante de Direito Camila decide que chegou a hora de compreender a língua. Além disso, quer ler as Instituições de Gaio sem ser por meio de uma tradução.
9. Marcela adora ler e encontrou na literatura mais do que uma forma de passar o tempo: compreendeu que se insere numa tradição cultural que a antecede em milhares de anos e que está na altura de ler poesia de Horácio e de Sulpícia no original.
10. Na sua profissão de bibliotecário e arquivista, Aulo precisa de catalogar e descrever paleograficamente muitos documentos que se encontram escritos em latim. Para os compreender, decidiu aprender a língua.
As situações-modelo (em que as personagens têm nomes romanos) ajudam na escolha da pronúncia a adoptar na aprendizagem. Com efeito, excluindo o exemplo 1, normalmente não se aprende latim para falar, mas isso não quer dizer que esta seja uma língua muda ou silenciosa. Assim, nos casos 2, 4, 5, 6 e talvez 10, porque farão a leitura de muitos textos não antigos, mas medievais, renascentistas ou dos séculos xvii-xviii, é provável que seja mais adequada uma pronúncia tradicional (normalmente a italiana), enquanto para todos os outros se deverá usar a pronúncia clássica ou restaurada.
Tomada a primeira decisão, é necessário escolher um método, ou seja, que livro usar para aprender1 latim. Existem muitos livros, mas podemos distinguir dois modelos prototípicos, o A e o B.
Protótipo A: manual de latim que ensina a gramática para ler textos. É o método indutivo, usado tradicionalmente na aprendizagem de línguas antigas. Cria dependência de dicionário porque a aquisição de vocabulário é preterida em favor da gramática. Paradigma deste método: Wheelock’s Latin. Outros exemplos: Intensive Basic Latin, Latin: An Intensive Course, Classical Latin: An Introductory CourseIntroduction to Latin, etc.
Protótipo B: manual de latim em que se lêem textos para aprender a gramática. É o método intuitivo ou natural, usado normalmente na aprendizagem de línguas estrangeiras. Paradigma: Lingua Latina per Se Illustrata, de Hans Ørberg. Outros exemplos: Cambridge Latin Course, Oxford Latin CourseReading Latin, etc. Destes, só Ørberg não faz uso de nenhuma língua para comunicar com o leitor sem ser o latim; os outros usam o inglês. Merece ainda referência o método Assimil.
As diferenças entre todos os livros mencionados2, acerca dos quais falarei individualmente em textos próximos, residem essencialmente no tipo de texto usado para iniciar o estudo. Deve-se notar que, além de não haver nada em português sem ser uma tradução do Cambridge Latin Course, não há nenhum método que faça uso exclusivo de enunciados autênticos, pois isso implicaria que se lessem apenas textos produzidos por falantes nativos de latim, ou seja, as personagens das situações descritas em 1, 2, 4, 6 e 10 (pelo menos) perderiam o interesse na sua aprendizagem, visto que o que os motiva a iniciar este estudo é a leitura de textos escritos depois do fim do período de dissolução do latim como língua «viva». Além disso, como ninguém começa a aprender inglês lendo Shakespeare ou português lendo Camões, não é didacticamente tolerável iniciar o estudo do latim lendo Virgílio ou Cícero.
Os textos iniciais do protótipo A são sobretudo frases simples adaptadas de autores clássicos, desligadas umas das outras, que ilustram um aspecto gramatical que é explicado antes ou depois das frases, fazendo-se exercícios a seguir. O método baseia-se em traduções.
Os textos do protótipo B configuram uma história contínua, construída com frases em que a estrutura gramatical se vai adensando à medida que o enredo se desenrola. Fazem uso de ilustrações diversas para a compreensão imediata do texto mediante a leitura sem tradução. Por vezes, há livros extras com exercícios ou explicações gramaticais, cuja utilidade, nalguns casos, pode e tem sido questionada.
Independentemente da natureza do método, todavia, o objecto de estudo é o mesmo, ou seja, a aprendizagem de uma língua altamente flexionada. Por isso, apesar da facilidade que qualquer método promete, a verdade é que é necessário decorar («saber de coração») as tabelas de declinação e de conjugação. Há quem diga que basta escrevê-las duzentas vezes, o que parece ser exagerado, dado que cento e cinquenta devem chegar.
Para vários casos descritos nas situações-modelo, existem manuais específicos (latim para medievalistas, latim para juristas…), mas há reservas a essas formas de ensinar a língua. A recomendação é: adquirir as bases com um método A ou B e depois estudar características específicas (particularmente variações diacrónicas) dos textos. Isto em nada é diferente do que fazíamos nas aulas de português; antes de ler um autor, estudávamos as características da sua época e do seu estilo. O que importa é ter o conhecimento de base, geral e teórico; o específico e o circunstancial vem depois.

 

1 Excluo situações em que a Emília, o Cornélio, o Públio, o Marco, a Júlia, a Cláudia, o Tito, a Camila, a Marcela e o Aulo pagam cursos ou se matriculam numa escola ou universidade onde se ensina a língua.
2 As lojas Amazon permitem ver os índices e algumas páginas do interior dos livros. Além disso, as obras estão muito comentadas e, no momento de escolher qual adquirir, ler a experiência de outros utilizadores pode ajudar na selecção (as piores «notas» na Amazon costumam estar ligadas a problemas de fabrico dos livros físicos ou em deficiências no formato Kindle, em nada comprometendo o método propriamente dito). É por isso que incluí ligações à loja americana da Amazon. No entanto, em encomendas feitas na loja espanhola não são cobrados portes.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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