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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

15
Jun20

Algo maior do que a Ilíada

Ricardo Nobre

Se Virgílio é um dos grandes escritores da história da Humanidade e a Eneida a sua principal obra, então pode assumir-se que a Eneida é uma obra maior do património literário do planeta.

Eneida

Depois da destruição de Tróia pelos exércitos gregos, mulheres e homens troianos foram mortos, capturados ou vendidos como escravos. Houve, todavia, um grupo que conseguiu escapar, talvez por o seu líder ser semidivino. Eneias, filho de Vénus (a deusa que protegeria os marinheiros portugueses na sua primeira viagem marítima até à Índia), foge de Tróia levando o pai, Anquises, às cavalitas, o filho e os deuses tutelares da cidade (já não teve mãos para salvar a mulher, Creúsa).

Lá vão eles num barquinho que, depois de morrer Anquises e sobrevivendo a ventos e tempestades (suscitados pelos deuses, cujo desentendimento tem sempre influência no destino dos homens), aporta no norte de África, onde testemunham a construção de uma grande cidade e civilização, que iria dominar o Mediterrâneo durante algum tempo. Eneias conhece aí a rainha, de origem fenícia, Dido, que está a fundar Cartago; oferecem-se prendas de e pela hospitalidade (era um turismo mais familiar). Com a ajuda da mãe de Eneias, Vénus (que tem poderes sobre esses assuntos), Dido enamora-se daquele troiano e oferece-lhe a honra e Cartago, acabada de estrear. Eneias, porém, depois de contar a sua história em ricos e deliciosos banquetes, recebe ordens divinas para fazer o que lhe compete e lhe foi destinado: rumar a Itália, pois é lá que deve fundar uma nova civilização. Bem mandado, mal-educado e péssimo namorado, parte com os companheiros pela calada, sem nada dizer a Dido. Quando esta percebe que foi abandonada, usa um punhal que Eneias lhe oferecera para se matar. Isto simboliza que ele próprio lhe provoca as golfadas de sangue. O nosso Correia Garção escreveu sobre isto uma cantata, recitada na peça Assembleia ou Partida. Bocage comporia um poema em que defende que não foi Eneias quem provocou a morte de Dido, mas sim a sua castidade (ela tinha já sido casada e, para evitar entregar-se ao irmão, fugiu e foi por isso que estava a fundar uma cidade nova) e a purificação da sua honra.

Antes de aportar no local destinado, Eneias teve tempo para passear um bocado, sendo-lhe permitida, como só aos heróis deste tempo, ir ao reino dos mortos. A ideia era falar com Anquises, o falecido pai, mas, antes de o encontrar, Eneias topa com… Dido, evidentemente. Se, no momento da morte, Dido dirigira a palavra a Eneias ausente, num monólogo que vale três literaturas, agora Eneias tenta meter conversa, e Dido responde com um silêncio que vale sete literaturas. Volta-lhe as costas e vai ter com o primeiro marido morto (mais um casal de amorosos que só a morte pôde juntar).

Por fim, Eneias fala com o pai, ou melhor, Anquises fala com Eneias. As suas palavras estão carregadas de simbolismo político, mas ao mesmo tempo são uma gema literária. Ao filho, Anquises prevê a fundação de um poderoso império, que pode não ser o melhor em termos culturais, científicos, artísticos, mas é certamente excelente na arte militar, na cultura diplomática e na ciência da submissão do inimigo. Além disso, será clemente e saberá poupar os vencidos.

De novo debaixo do Sol, Eneias lá chega a Itália. Nas imediações do sítio onde se devia fundar uma cidade, junto ao Tibre, existia um civilizado aldeamento, cujo rei era Latino, que faz a Eneias uma visita guiada pelos sítios mais pitorescos. Claro que Latino tinha uma filha, e Eneias, duas vezes viúvo, aceita mais esta noiva (Lavínia, chamava-se a moça). Acontece que ela já estava prometida a outro (Turno, um jovem da zona)… mas não houve problema porque Eneias, filho da deusa do Amor, era igualmente um grande guerreiro (embora na Ilíada tenha perdido todas as batalhas em que entrou — só sobreviveu porque os deuses o retiraram da luta) e tinha excelentes armas (forjadas por ninguém menos do que o seu padrasto, Vulcano, um pobre deus que viria a dar nome a uma marca de esquentadores).

Há ainda muitas escarmuças e acontecimentos que não foram nem serão aqui contados (Niso e Euríalo, Camila…), mas é preciso dizer, ainda, que Turno matou Palante, um grande amigo de Eneias, filho de Evandro (equivale, mais ou menos, à morte de Pátroclo na Ilíada, que é o acontecimento que determina a reentrada de Aquiles na luta, para vingar a morte do amigo).

Eneias já está pronto para combater contra Turno. Tem umas armas novinhas em folha e muito treino (aquilo da guerra de Tróia parecia a formação dos comandos — e Eneias lutara com Aquiles, que matara Heitor, o melhor dos Troianos), por isso é sem surpresa que vence Turno. Prostrado, derrotado, Turno pede clemência a Eneias, que está inclinado a conceder-lha.

 

Para saber o resto da história (o fim e o muito que pelo meio ficou por dizer), deverá o/a leitor(a) ler a nova tradução da Eneida, acabada de publicar pelos sempre estimáveis Livros Cotovia. A tradução, em verso, é de Carlos Ascenso André, professor aposentado da Universidade de Coimbra.

 

P.S.: O título deste texto é uma citação do poeta latino Propércio, que escrevia a propósito da composição da Eneida.

01
Jun20

Um escritor

Ricardo Nobre

— Se ele tinha inteligência — disse António Joaquim — fizesse­-­se escritor.
Ouvido isto, benzi­-me, pus os olhos no céu, e disse:
— A providência divina houve por bem endoidecê-­lo pelos processos ordinários da loucura vulgar, antes de lhe incutir a loucura extraordinária de fazer­-se escritor em Portugal. Que paradoxo! A inteligência do teu amigo não lhe abriu as portas do funcionalismo público? Não: pois bem; faça-­se dessa inteligência alguma coisa! Um escritor — o derradeiro mester em que pode ser aproveitado esse raio luminoso do coração de Deus!…
Ó meu amigo, o máximo favor que um português pode receber do céu é endoidecer, na véspera de fazer-­se escritor público!*

Faz hoje 130 anos que morreu Camilo Castelo Branco (1825-1890).

 

* Cito Vinte Horas de Liteira (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 218-219)

04
Fev20

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett

Da série poetas na cidade

Ricardo Nobre

Cidadão empenhado, desde cedo mostrou inclinação para as letras. Os primeiros testemunhos dos poemas que escreveu documentam que foi na adolescência, enquanto vivia nos Açores (para onde a família foi viver por causa da segunda invasão francesa, depois de ter nascido no Porto, em 1799), que João Baptista da Silva Leitão sentiu o impulso da escrita. Começou por ser um desforço com um substituto do professor de Latim, uma menção épica ao pau de marmeleiro com que foi castigado por considerar que sabia mais do que aquele substituto. Escreveu ainda uns poemas amorosos e traduziu tragediógrafos gregos, mas quando se aproxima a partida para Coimbra já canta as saudades que a despedida do campo lhe vai deixar. A universidade viu-o crescer como poeta e dramaturgo, diligente defensor da liberdade e da causa liberal, que entretanto triunfaria no Porto, em 1820 (na sequência da qual faz uma viagem à sua cidade natal, cai do cavalo e fica seriamente doente; virá daí o uso de um capachinho). Nas férias, no Porto e nos Açores, continua sempre a escrever, voltado para a alegria e prazeres da vida, brincadeiras de rapazes, e amores que se sucedem. As amadas têm ainda pseudónimos neoclássicos. Traduziu Catulo, Horácio, Píndaro e poemas atribuídos a Safo, Anacreonte e a Alceu.

A política nunca o deixou de interessar. Militante liberal, depois das contra-revoluções absolutistas, teve de emigrar: esteve na Inglaterra e em França (onde publicaria as primeiras obras poéticas: Camões, Dona Branca, Adozinda, que viria a integrar o Romanceiro, e Lírica de João Mínimo). Exerceu cargos públicos em Portugal e na Bélgica; a sua presença (e indumentária) nas cortes davam que falar no meio galante. É depois do setembrismo que publica as suas obras-primas: Frei Luís de Sousa, Flores sem Fruto (colectânea onde reúne «As Minhas Asas»), Viagens na Minha Terra. Em 1853 publica Folhas Caídas, recebidas não sem escândalo.

Fernando Pessoa começou a escrever em português depois de o ler. É, sem dúvida, o nosso primeiro poeta, romancista e dramaturgo moderno. Almeida Garrett, nome que viria a adoptar depois da morte do tio D. Frei Alexandre da Sagrada Família (clérigo de altíssimo nível intelectual), que morreu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854, na casa onde vivia (Rua Saraiva de Carvalho, n.os 66 a 68) e que foi demolida por não ter «valor arquitectónico, patrimonial ou histórico», faria hoje 221 anos. Encontra-se sepultado no Panteão Nacional.

Túmulo de Almeida Garrett no Panteão Nacional

Em Lisboa, dá nome à antiga Rua do Chiado (outrora com dois nomes, pois do actual Largo do Chiado à Praça Camões chamava-se Rua das Portas de Santa Catarina), com início em frente aos actuais Armazéns do Chiado (na Rua Nova do Almada), desde Junho de 1880, por edital do então Presidente da Câmara, José Gregório da Rosa Araújo (que tem um busto, de Costa Motta, 1936, na Avenida da Liberdade, defronte da rua perpendicular a que dá nome). Garrett é celebrado por uma estátua de Salvador Barata Feyo (1950) na mesma Avenida da Liberdade (cruzamento da Rua Alexandre Herculano, onde se encontram igualmente as esculturas a Alexandre Herculano, ainda de Barata Feyo, de António Feliciano de Castilho e de Oliveira Martins, estas do Mestre Leopoldo de Almeida); no átrio poente do Teatro Nacional de Dona Maria II, encontra-se um busto dele (da autoria de João Anastácio Rosa). No Porto, que tem uma biblioteca pública com o nome dele nos jardins do Palácio de Cristal, a sua estátua, igualmente de Barata Feyo (1954), ergue-se diante da Câmara Municipal, na Avenida dos Aliados.

Estátua a Almeida Garrett (Porto)

Chegou a dar nome ao Teatro Nacional de Dona Maria II (cuja sala principal conserva o seu nome) e ao Liceu de Lisboa (actual Maria Amália Vaz de Carvalho).

14
Out19

Morreu Harold Bloom

Da série mundo a perder referências

Ricardo Nobre

São poucos os professores que nos fazem mudar a forma de olhar para a literatura. Harold Bloom (1930-2019) foi um pensador da literatura que revalorizou a tradição, deu-lhe um sentido novo e definiu-a dentro de parâmetros que foram, depois do estruturalismo, perdendo relevo nos estudos literários, em favor dos estudos culturais em que aqueles se transformaram. Foi um teórico, autor de uma obra de grande envergadura, sabedoria e interesse, pelas ideias que defendeu — entre as quais Shakespeare era Deus, como hoje recorda o Expresso. Entre nós são mais conhecidas O Cânone Ocidental — definido a partir de Shakespeare — e a Angústia da Influência — onde estuda como um autor novel passa por seis fases de formação até encontrar a sua voz.

Como todos os pensadores, pode concordar-se com o que diz ou debater-se sobre a forma como argumenta, mas dificilmente merece que a notícia da sua morte tenha pelo menos três vezes o adjectivo «polémico» (aguardamos a reescrita da necrologia por Luís Miguel Queirós). O Professor Bloom foi — com Todorov e Barthes — um dos mais importantes teóricos da literatura da segunda metade do século XX. Era e é um célebre crítico: polémico é não ter uma ideia sobre literatura e escrever nos jornais sobre livros.

 

Actualizado dia 15 de Outubro de 2019 às 17h23: Conforme intuí, a necrologia de Luís Miguel Queirós foi publicada aqui. Infelizmente, mantém algumas formulações da notícia original, mas em compensação resume as apreciações do professor de Yale sobre a literatura portuguesa (Camões, Saramago e Pessoa, sobre os quais tinha uma opinião que, em grande parte, partilho). A Academia não «torce o nariz» a Bloom pelo simples facto de a Academia não ser um corpo único e inerte, mas contemporizar várias opiniões diferentes (como saudavelmente convém). Bloom foi um grande leitor e um dos mais importantes pensadores sobre o fenómeno literário.

07
Out19

Os livros que (não) envelhecem

Da série vai ao dicionário

Ricardo Nobre

Não posso dizer — porque não me lembro — que desde cedo me interessei por livros, mas sei mais ou menos do momento em que eles se tornaram parte do meu quotidiano. E sei perfeitamente que o primeiro livro não infanto-juvenil que li foi A Cidade e as Serras, comprado por mera casualidade (porque conhecia o nome do autor) na feira do livro durante umas férias de Verão, na ressaca de dois anos lectivos em que o português e o funcionamento da língua se tornaram as minhas disciplina e matéria favoritas (em vários aspectos, sou um produto dos professores que tive e durante muitos anos ambicionei ter uma carreira no ensino básico e secundário, sonho que abandonei quando outros caminhos se revelaram ainda mais estimulantes). Lembro-me de que ia muitas vezes ao dicionário (um tipo de obras de que sempre gostei), e por isso a leitura de Eça foi exigente e cansativa, o que não quer dizer que me tivesse impedido de fascinar com o transporte para uma época muito anterior à minha, na qual era possível começar a desfrutar dos primeiros resultados da tecnologia.

À medida que ia lendo vários tipos de literatura, lia também sobre literatura, o que provocou uma reacção semelhante à observação de uma tapeçaria, capacitando-me para a apreciação das suas cores, texturas, materiais e nós que a rematam. Além de ver a tapeçaria, via também o seu reverso e compreendia como a imagem se constrói. Se, como falantes, apreciamos a estrutura de superfície de uma língua, o estudo da gramática e da sua projecção artística (o que comummente se chama literatura) confere-lhe profundidade, complexidade e maior interesse. Se as árvores não têm raízes iguais, dão frutos diferentes — assim, a leitura informada por um conhecimento teórico e histórico também permite atribuir valor aos textos, que são sempre distintos, formando aliás conjuntos a partir das suas características: estilo, imaginário, novas ideias (raramente revolucionárias até ao século XX), relação com a tradição (entre o respeito e a ruptura há um espectro gradativo de enorme amplitude).

A importância de um texto não é conferida por um só leitor, mas por vários, e não se resume a uma geração, mas a todas. Reflectirmos e escrevermos sobre um texto mais antigo insere-nos na sua história de leitura, para a qual podemos até nem contribuir mais do que com impressões genéricas. Falar sobre um texto é metermo-nos numa conversa que tem diversas vozes e intervenientes, de diversas origens, sensibilidades e cronologias.

Escolher um livro também — porque, teoricamente falando, um texto se relaciona com o presente em que é produzido (partilhando autor e leitor uma experiência mais ou menos comum, conflituante ou não), mas responde igualmente a aspectos históricos, pois a maneira de escrever ou de falar de qualquer de nós decorre, em termos nada despiciendos, do que sabemos e do que lemos. Um texto é também, portanto, uma resposta do presente ao passado de leituras do autor (frequentemente referido como a «enciclopédia do autor») e é recebido positiva ou negativamente de acordo a experiência (de leitura ou de vida) do leitor. Além disso, ninguém escreve apenas para o presente, uma vez que em 2019 somos o futuro do que se escreveu em 1572, ano em que se publicam em Lisboa Os Lusíadas, ou 1888 (data da primeira edição d’Os Maias).

Dito de forma radical, escrever é sempre uma reescrita e ler é um releitura.

Pacheco Pereira defendeu há algum tempo a ideia de que se pode fazer uma boa carreira de leitor lendo apenas livros que o tempo nos seleccionou, ou seja, os clássicos, obras cuja qualidade, interesse e importância várias gerações de leitores já escolheram. No entanto, o valor de uma obra literária é variável, se não de leitor para leitor, pelo menos de época para época. É falsa a ideia de que o cânone é fixo ou se encontra definido, pois está em constante revisão: quer do ponto de vista estético, quer atendendo a preocupações sociais, culturais, políticas, pedagógico-didácticas (houve o tempo em que se exigia que a literatura doutrinasse), entre outras. Nesse sentido, livros mais ou menos antigos ou recentes tendem a cair no esquecimento, enquanto outros — por vezes contemporâneos daqueles — são recuperados.

Todos os tempos são de revisão e todas as épocas (incluindo o Barroco, Neoclassicismo, Romantismo e Modernismo) são de transição para algo que veio ou virá a seguir a nós. Ainda assim, nos últimos anos tem-se assistido a um movimento de revisão do cânone e das obras clássicas na dependência dos ideais que hoje fundamentam a nossa sociedade. Sem calar «tudo o que a Musa antiga canta», «outro[s] valore[s] mais alto[s] se alevanta[m]». Importa colocar no cânone grandes obras da humanidade, mas mostrar preocupações de representatividade. Em termos institucionais, verificou-se, a este propósito, a ramificação dos Estudos Literários em Estudos Culturais, Estudos de Géneros, Estudos Pós-Coloniais (com especificações relevantes, como a literatura das grandes guerras e do 11 de Setembro ou a literatura escrita por mulheres). Seja qual for a vantagem disso, a verdade é que o respeito pela leitura, pela palavra escrita, nasce da consciência de que um texto literário trilha um caminho muito antigo e que dificilmente será lido se não se desviar dele, ainda que por momentos, ou, em casos raros, construa ele próprio um caminho inteiramente novo. Erigir um novo cânone só porque se almeja a representatividade pode revelar-se despropositado — ou pelo menos ums atitude de pouca duração e sem consequências.

Penso que um dos aspectos que contribui para o reavivar do interesse de um livro que passou despercebido no seu tempo e para lá dele diz respeito à forma como ele fala ao presente em que se vive. Foi o que aconteceu com Cesário Verde, por exemplo, que Fernado Pessoa e Óscar Lopes — cada um à sua maneira, naturalmente — impuseram como figura canónica da nossa literatura. E também por isso Uma Agulha no Palheiro e Pela Estrada Fora começam a cair no esquecimento; por isso, se pretende recuperar Aquilino Ribeiro (a que eu juntaria facilmente José Cardoso Pires, Vitorino Nemésio, Natália Correia, e sobretudo Irene Lisboa).

Enfim, seja como for, o sentimento mais frustrante de quem lê é, provavelmente, a sensação de que, no fim do livro, a leitura não terminou (para não falar das saudades que algumas personagens deixam). Não é um lugar-comum inconsequente ou frase arranjada dizer que os clássicos são livros que nunca deixamos de ler porque nunca deixamos de ler os livros que têm algo para mostrar. O que mostram é tão diverso quanto as individualidades que os criam: por isso já disse aqui que um excelente livro lido em momento não oportuno pode estragar a experiência de leitura. Se só lermos os clássicos, porém, estamos a impedir que a literatura contemporânea prospere e construa o seu próprio caminho, edificando certamente os clássicos do futuro. A decisão sobre que livros ler pode ser um dilema trágico: seja qual for a opção, há sempre um problema que não fica resolvido.

01
Out19

Gostar e não gostar

Da série vai ao dicionário

Ricardo Nobre

O título do «manual de escrita criativa» de Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É porque Tem Razão, baseia-se numa antiga história que reproduzo:

Uma mulher queixa-se a um juiz: «A minha vizinha roubou-me a cabra, o mel e o homem. Faz-me justiça.» E o juiz diz-lhe: «Tens razão.» Mal ela sai, rompe a vizinha pela casa do juiz aos gritos: «Foste enganado por aquela mulher. O homem, a cabra e o mel sempre foram meus. Ela é que mos roubou.» «Tens razão», confirma o juiz. A mulher do juiz, que tinha ouvido tudo, interpelou-o, agastada: «como é que foste dar razão a duas criaturas que afirmam exactamente o contrário?» Responde o juiz: «Tens razão.»

Dando ouvidos ao Padre D. Rafael Bluteau (o autor do primeiro dicionário de português, o Vocabulário Português e Latino), assumiremos que só um(a) leitor(a) mais desprevenido/a dirá sobre um livro «não gosto» porque, defende o lexicógrafo, «ninguém despreza aquilo que sabe».

Dir-se-á, portanto, que a (grande) literatura tem sempre razão: o leitor apenas tem de a descobrir. E se não gosta é porque (em princípio) não percebeu.

15
Set19

Para a escola, rapidamente e em força

Ricardo Nobre

Um motivo para sermos exigentes (connosco próprios ou com outros) é a vontade de melhorar ou fazer melhorar. Nessa linha de pensamento, incluo o jornalismo tradicional, a cuja degradação temos assistido. O YouTube substituiu-se às televisões, e há mesmo «noticiários» cheios de opinião, reclamando estarem a revelar factos e provas — a verdade, em suma. Sabemos que sempre houve notícias falsas, rumores (muitos deles espalhados pela comunicação social — e não estou a referir-me apenas à TVI ou ao Correio da Manhã) e mentira no espaço público, mas agora parece que as forças se desequilibraram porque não é preciso verificar factos para acreditar neles e ajudar a divulgação de conspirações e mentiras nas redes sociais.

Por onde anda o jornalismo? O de Cecília Malheiro, da Agência Lusa, publicado no Público, parece andar num livro de história com gralhas (ou completa falta de noção), ao datar a guerra colonial de 1975.

guerra colonial em 1975

Todos os dias parece que o problema do jornalismo é de escolaridade básica.

08
Ago19

Bibliotecas de memórias

Ricardo Nobre

Há muito tempo que este liceu não fala de bibliotecas, mas um texto da Rapariga do Autocarro fez-me lembrar que é preciso fazer lembrar que há coisas que não podemos esquecer.

Uma biblioteca (nota erudita: do grego bibliothéke, «lugar [théke, “caixa, cofre; túmulo”] para livros [bíblos, “interior do papiro, rolo de papiro; escrito, livro”], depósito de livros», é etimologicamente equivalente a «livraria» [palavra do latim], que também significa «colecção de livros dispostos ordenadamente; biblioteca», DLP, s.v. «livraria», 2) está para os livros como um dicionário para as palavras: o item está lá arrumado, à espera que vamos ter com ele.

Sei que ainda existem algumas bibliotecas itinerantes, mas o meu fascínio por bibliotecas não tem que ver com carros, mas sim com paredes e estantes. Por isso, acho que um dos maiores valores que a democracia nos trouxe foi uma rede de bibliotecas públicas que cobre todo o território: em Portugal, todas as capitais de distrito têm bibliotecas municipais, cujos acesso, utilização de espaços (incluindo o parque informático) e empréstimo (de livros ou DVD) são inteiramente gratuitos. Basta formalizar uma inscrição (é necessário um comprovativo de morada ou o papel da inscrição na escola/universidade) e já está. Além disso, existem bibliotecas universitárias cujo acesso é igualmente gratuito, bem como o manuseio dos livros (imagino que para requisitar sejam necessárias outras formalidades se não houver vínculos à instituição).

Tenho várias memórias espalhadas por várias bibliotecas — não é toda a gente que planeia percursos em cidades fazendo contas para passar nas bibliotecas nacionais e locais, tão importantes como museus —, a começar pelas más.

Não me lembro de haver bibliotecas nas escolas primárias que frequentei (apenas armários numa parede, talvez), mas recordo-me bem de ter ido à biblioteca da «Preparatória» D. Afonso III (ainda hoje há cheiros que me lembram desta escola, tal não terá sido o trauma). Era uma sala à direita de quem entra na escola (à esquerda era a secretaria) pela porta principal (que os alunos não podiam usar; apenas lamento não ter tido a consciência que tenho hoje para não respeitar a estupidez desta regra). Uma sala com estantes em três paredes (a outra era a das janelas), em armários fechados. No centro, mesas para nos sentarmos, e à frente de nós, uma terrível funcionária, velhota e mal-encarada, que tinha tanto amor por livros como por crianças. Nos dois anos em que andei na actual EB 2/3 D. Afonso III, devo ter ido à biblioteca duas vezes (se não estou a inflacionar o número em 50 %).

Mas, em 1995, fui para a Pinheiro e Rosa. A escola, inaugurada um ano antes, acabava de receber o nome. Frequentei-a do sétimo ao décimo segundo ano, por isso vi-a também passar de uma escola sem acessos (era, literalmente, no meio da lama, no Inverno; no meio do pó, no Verão) nem pavilhão gimnodesportivo ao que é actualmente. Como escola estreante, a biblioteca ocupava uma salinha e o acervo bibliográfico pouco mais era que manuais escolares não adoptados ou antigos, algumas obras de referência e não me lembro de mais nada antes de, no meu nono ano, ter passado por uma sala ainda menor enquanto decorriam obras para a instalação de uma biblioteca escolar digna, na altura já com uma sala de computadores. E assim foi: o meu ensino secundário decorreu entre aulas, biblioteca e as tardes do «laré», com incursões fúnebres pelo cemitério em dias de teste de História (era a disciplina que mais nos aterrorizava e para a qual, sem dúvida, mais estudava).

Ainda que as actuais instalações não sejam do «meu tempo», lembro-me bem de ter passado parte de um mês de Agosto (no termo do qual já conhecia os leitores residentes e funcionários) na biblioteca municipal de Faro a preparar um projecto. Na verdade, a Biblioteca António Ramos Rosa abriu nas actuais instalações no momento em que eu me estava a mudar para Lisboa. De um espaço tenebroso de um convento do século XVI, não muito diferente da biblioteca da Afonso III, em que os leitores não acediam directamente aos livros, a biblioteca mudou-se para o antigo matadouro, confinando com o jardim da Alameda (a entrada principal faz-se pela Rua Carlos Porfírio, mas chegar pelo jardim é mais impactante, como se diz agora). O espaço é alegre, luminoso, amplo e com os livros em acesso livre.

Mas isso foi em 2014; mais de dez anos antes, passei de uma biblioteca que considerava boa, na Pinheiro e Rosa, para uma que iria mudar a minha vida para sempre — onde, juntando todas as horas lá passadas, faria meses ininterruptos, talvez doze, porventura mais. Em 2001 entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A biblioteca começara a funcionar naquele edifício (o actual) um ou dois anos antes: as bibliotecas dos departamentos, institutos e centros deixaram de estar espalhadas nas instalações da faculdade e juntavam-se à «biblioteca central» num edifício em que não se distingue sala de leitura de local onde estão os livros (embora exista, obviamente, um depósito). Ali trabalhava e estudava em mesas ao lado das estantes aonde se podia ir buscar o livro sem pedir a ninguém. Os livros acumulavam-se em cima da mesa e no fim colocavam-se nos carrinhos de apoio. E podiam ser requisitados para casa.

A minha existência naquela biblioteca tornou desnecessária a utilização de outras. Aliás, aquilo que estudava na altura não exigia outras: nas suas áreas do conhecimento, a biblioteca da Faculdade de Letras não tinha (e não tem) tudo, mas tem muita coisa, quase tudo.

Na minha vida, porém, surgiriam outras necessidades. Ainda hoje me lembro da primeira vez que entrei, leitor caloiro com o cartão acabado de fazer na mão, na sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Lisboa. Era a primeira de tantas horas sentado nas cadeiras do Daciano Costa. Aguentei as obras da construção da ampliação da torre dos depósitos e a péssima iluminação da sala depois de escurecer às cinco da tarde nos meses de Inverno. Além desta, ainda me lembro dos fins-de-semana e férias de Verão itinerantes pelas bibliotecas do Palácio Galveias (antes de fechar), de Belém e, sobretudo, Orlando Ribeiro, em Telheiras (a que tem secção de música e filmes). Infelizmente, apesar de o acesso não ser difícil para mim, ainda não fui à de Marvila e, desde que este liceu abriu as portas, aguardo a reabertura da biblioteca de Alcântara (da antiga, já nada existe: agora, está lá o excessivamente grande novo hospital da C.U.F., na Avenida 24 de Julho).

As bibliotecas de Lisboa (existem outras que não foram aqui mencionadas) permitem o acesso gratuito a livros (que podem ser requisitados e devolvidos em qualquer biblioteca, mesmo que venham de outros espaços), ou seja, em Portugal não há carência de pontos de acesso ao conhecimento ou à imaginação de escritores e escritoras de todo o mundo. Talvez falte interesse do conhecimento e em atribuir valor à imaginação como forma de sensibilidade. Nem o dinheiro vale tanto.

25
Jul19

Irresponsabilidade jornalística

Ricardo Nobre

O texto de Clara Viana, publicado no Público de ontem, sobre um excerto d'Os Lusíadas que saiu no Exame Nacional de Português é a prova de que os jornalistas se comportam como provocadores profissionais, amplificando o ruído que não tem razão de ser.

Recordo que o Exame Nacional de Português em lado nenhum tem de incluir apenas excertos de obras estudadas em aula. Aliás, esta prova começa com um texto de Manuel Alegre. Se os estudantes estiveram doze anos na escola, deveriam estar aptos a ler qualquer texto escrito em língua portuguesa.

Eu, que nem sou professor de português e que há muito tempo não leio Os Lusíadas, comecei a ler as estrofes em causa e soube identificar que se tratava de um trecho do concílio dos deuses no mar. Consultado o exame, essa informação estava lá, bem como um extenso vocabulário (eventualmente destinado aos alunos que nunca foram às aulas). Não estou a dizer que sou melhor que os outros (e muito menos que a minha memória é boa): é apenas um texto escrito em português, acerca do qual se faziam perguntas no âmbito de processos retóricos e da argumentação que fazem parte do programa (saber a estrutura d'Os Lusíadas também), e não é por isso que é preciso ler Aristóteles.

Clara Viana e professora de português que expôs a «situação», aprendei a ler. Começai pelos clássicos. Talvez Os Lusíadas. Integralmente. Muito melhor que o Público.

21
Jun19

Sem erros de leitura

Ricardo Nobre

Uma coisa mal aprendida pode ser muito prejudicial ao desenvolvimento do indivíduo. Não é raro ouvir pessoas com algum discernimento a argumentar que uma coisa é assim porque foi assim que ela aprendeu. Mal comparado, isso equivale a dizer que quem aprendeu que o Sol anda à volta da Terra não poderia querer (é este verbo que faz diferença) aprender que é a Terra que anda à volta do Sol ou que, tendo aprendido que não há cura para o cancro, não pode querer que haja investigação científica que tenha por objectivo encontrar soluções para problemas que hoje existem.

Não estou a dizer que o conhecimento blinda as pessoas: estou a dizer que o erro e coisas mal aprendidas blindam as pessoas a novos conhecimentos e a novas formas de pensar. Claro que os exemplos podem partir de casos práticos da nossa sociedade e dos avanços civilizacionais de que temos sido testemunhas nas últimas décadas (modos de vida amigos do ambiente, reciclagem, escolhas de consumidor sustentáveis), mas, em respeito da natureza deste blogue, dou realce a questões do âmbito linguístico, de que sobressaem interpretações supra-realistas e supra-concretistas da língua, de onde resultam as chamadas «hipercorrecções». Designa-se hipercorrecção a aplicação de um erro onde antes havia correcção. Exemplo de café:

— Queria um chá.

— Queria? Já não quer?

O segundo falante não sabe ou não quer saber que «queria» é uma forma de imperfeito do indicativo e que esse tempo, além de pretérito, tem uma tonalidade modal que lhe permite ser usado quase como um condicional («quereria um chá se o senhor funcionário tiver a gentileza de o confeccionar e entregar à mesa»). Chama-se a isto imperfeito de cortesia porque o indicativo («quero») ou o imperativo («traz») são sentidos como demasiado impositivos de uma ordem.

Outro exemplo de café é o «copo com água», que acabou por alastrar a todo o lado em vez de «copo de água». Não sei de que são feitos a caixa de sapatos, o armário dos pratos ou a chávena de chá na casa destas pessoas. Talvez não tenham sequer paredes brancas, mas sim paredes de tijolo rebocadas com cimento e pintadas com uma tinta com pigmentação branca. «Copo de água» é como sapatos de futebol: o copo não é feito de água como os sapatos não são feitos pelo futebol, mas para o futebol. A isto se chama metonímia, já Aristóteles a conhecia, e não beneficiamos em desmerecer do Mestre.

Não estou a dizer nem a insinuar que os empregados de café são responsáveis por estes erros: todos nós somos responsáveis por eles porque, no dia em que fomos «corrigidos», não tivemos coragem, jeito ou paciência de explicar que não nos estavam a corrigir, mas a impor um erro atroz, justificando coerente e compassivamente porque é mais correcto dizer «copo de água» e errado «copo com água».

O que este texto defende de um ponto de vista linguístico poderia defender no âmbito literário. Sobretudo no período da Feira do Livro li muitas observações sobre livros. Normalmente, são pessoas bem-intencionadas que dão conselhos (e a quem se pedem conselhos) de leitura. Só que a leitura de um livro não cai bem a todos os leitores. Pensemos nos comprimidos que compramos com receita médica na farmácia: foram-nos prescritos pelo médico que nos conhece, a nós, às nossas condições físicas e resultados de análises. Quantas vezes nos acontece aconselharmos (ou oferecermos) um livro a uma pessoa por querermos que ela tenha a mesma sensação que tivemos ao lê-lo, e a recepção é muito negativa. O motivo é simples: a nossa experiência, os nossos anticorpos, a nossa estrutura genética de leitura é outra — e, tal como com os medicamentos, o que salva um doente provoca náuseas a outros.

Nem preciso de iniciar aqui o debate em torno de distinção entre literatura e formas que dominam o sector livreiro, a que se tem chamado subliteratura ou paraliteratura.

É por isso que acho graça a uns textos muito ternurentos em que alguém fala de um livro para incentivar outra pessoa a ler. São textos muito ingénuos, cheios de mistura de sensações de leitura com uma espécie de vocabulário técnico (falam em trama, protagonista e personagens), valorizando-se coisas que eu nem sabia que contribuíam para a qualidade de um livro (como a velocidade com que a acção decorre, o facto de ser baseado em acontecimentos reais ou não). Usam depois uns adjectivos muito abstractos para falar do «estilo do(a) autor(a)».

Já aqui se disse que a leitura é uma actividade solitária, porque não se pode fazer em conjunto (mesmo os clubes de leitura são assembleias em que se juntam pessoas para falar de um livro que leram previamente, sozinhas). É nessa actividade solitária que nos formamos, permeabilizamos a outros saberes e avançamos no conhecimento — mesmo que seja preciso ler uma biblioteca inteira — literalmente.

Bom Verão!

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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