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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

14
Out19

Morreu Harold Bloom

Ricardo Nobre

São poucos os professores que nos fazem mudar a forma de olhar para a literatura. Harold Bloom (1930-2019) foi um pensador da literatura que revalorizou a tradição, deu-lhe um sentido novo e definiu-a dentro de parâmetros que foram, depois do estruturalismo, perdendo relevo nos estudos literários, em favor dos estudos culturais em que aqueles se transformaram. Foi um teórico, autor de uma obra de grande envergadura, sabedoria e interesse, pelas ideias que defendeu — entre as quais Shakespeare era Deus, como hoje recorda o Expresso. Entre nós são mais conhecidas O Cânone Ocidental — definido a partir de Shakespeare — e a Angústia da Influência — onde estuda como um autor novel passa por seis fases de formação até encontrar a sua voz.

Como todos os pensadores, pode concordar-se com o que diz ou debater-se sobre a forma como argumenta, mas dificilmente merece que a notícia da sua morte tenha pelo menos três vezes o adjectivo «polémico» (aguardamos a reescrita da necrologia por Luís Miguel Queirós). O Professor Bloom foi — com Todorov e Barthes — um dos mais importantes teóricos da literatura da segunda metade do século XX. Era e é um célebre crítico: polémico é não ter uma ideia sobre literatura e escrever nos jornais sobre livros.

 

Actualizado dia 15 de Outubro de 2019 às 17h23: Conforme intuí, a necrologia de Luís Miguel Queirós foi publicada aqui. Infelizmente, mantém algumas formulações da notícia original, mas em compensação resume as apreciações do professor de Yale sobre a literatura portuguesa (Camões, Saramago e Pessoa, sobre os quais tinha uma opinião que, em grande parte, partilho). A Academia não «torce o nariz» a Bloom pelo simples facto de a Academia não ser um corpo único e inerte, mas contemporizar várias opiniões diferentes (como saudavelmente convém). Bloom foi um grande leitor e um dos mais importantes pensadores sobre o fenómeno literário.

07
Out19

Os livros que (não) envelhecem

Ricardo Nobre

Não posso dizer — porque não me lembro — que desde cedo me interessei por livros, mas sei mais ou menos do momento em que eles se tornaram parte do meu quotidiano. E sei perfeitamente que o primeiro livro não infanto-juvenil que li foi A Cidade e as Serras, comprado por mera casualidade (porque conhecia o nome do autor) na feira do livro durante umas férias de Verão, na ressaca de dois anos lectivos em que o português e o funcionamento da língua se tornaram as minhas disciplina e matéria favoritas (em vários aspectos, sou um produto dos professores que tive e durante muitos anos ambicionei ter uma carreira no ensino básico e secundário, sonho que abandonei quando outros caminhos se revelaram ainda mais estimulantes). Lembro-me de que ia muitas vezes ao dicionário (um tipo de obras de que sempre gostei), e por isso a leitura de Eça foi exigente e cansativa, o que não quer dizer que me tivesse impedido de fascinar com o transporte para uma época muito anterior à minha, na qual era possível começar a desfrutar dos primeiros resultados da tecnologia.

À medida que ia lendo vários tipos de literatura, lia também sobre literatura, o que provocou uma reacção semelhante à observação de uma tapeçaria, capacitando-me para a apreciação das suas cores, texturas, materiais e nós que a rematam. Além de ver a tapeçaria, via também o seu reverso e compreendia como a imagem se constrói. Se, como falantes, apreciamos a estrutura de superfície de uma língua, o estudo da gramática e da sua projecção artística (o que comummente se chama literatura) confere-lhe profundidade, complexidade e maior interesse. Se as árvores não têm raízes iguais, dão frutos diferentes — assim, a leitura informada por um conhecimento teórico e histórico também permite atribuir valor aos textos, que são sempre distintos, formando aliás conjuntos a partir das suas características: estilo, imaginário, novas ideias (raramente revolucionárias até ao século XX), relação com a tradição (entre o respeito e a ruptura há um espectro gradativo de enorme amplitude).

A importância de um texto não é conferida por um só leitor, mas por vários, e não se resume a uma geração, mas a todas. Reflectirmos e escrevermos sobre um texto mais antigo insere-nos na sua história de leitura, para a qual podemos até nem contribuir mais do que com impressões genéricas. Falar sobre um texto é metermo-nos numa conversa que tem diversas vozes e intervenientes, de diversas origens, sensibilidades e cronologias.

Escolher um livro também — porque, teoricamente falando, um texto se relaciona com o presente em que é produzido (partilhando autor e leitor uma experiência mais ou menos comum, conflituante ou não), mas responde igualmente a aspectos históricos, pois a maneira de escrever ou de falar de qualquer de nós decorre, em termos nada despiciendos, do que sabemos e do que lemos. Um texto é também, portanto, uma resposta do presente ao passado de leituras do autor (frequentemente referido como a «enciclopédia do autor») e é recebido positiva ou negativamente de acordo a experiência (de leitura ou de vida) do leitor. Além disso, ninguém escreve apenas para o presente, uma vez que em 2019 somos o futuro do que se escreveu em 1572, ano em que se publicam em Lisboa Os Lusíadas, ou 1888 (data da primeira edição d’Os Maias).

Dito de forma radical, escrever é sempre uma reescrita e ler é um releitura.

Pacheco Pereira defendeu há algum tempo a ideia de que se pode fazer uma boa carreira de leitor lendo apenas livros que o tempo nos seleccionou, ou seja, os clássicos, obras cuja qualidade, interesse e importância várias gerações de leitores já escolheram. No entanto, o valor de uma obra literária é variável, se não de leitor para leitor, pelo menos de época para época. É falsa a ideia de que o cânone é fixo ou se encontra definido, pois está em constante revisão: quer do ponto de vista estético, quer atendendo a preocupações sociais, culturais, políticas, pedagógico-didácticas (houve o tempo em que se exigia que a literatura doutrinasse), entre outras. Nesse sentido, livros mais ou menos antigos ou recentes tendem a cair no esquecimento, enquanto outros — por vezes contemporâneos daqueles — são recuperados.

Todos os tempos são de revisão e todas as épocas (incluindo o Barroco, Neoclassicismo, Romantismo e Modernismo) são de transição para algo que veio ou virá a seguir a nós. Ainda assim, nos últimos anos tem-se assistido a um movimento de revisão do cânone e das obras clássicas na dependência dos ideais que hoje fundamentam a nossa sociedade. Sem calar «tudo o que a Musa antiga canta», «outro[s] valore[s] mais alto[s] se alevanta[m]». Importa colocar no cânone grandes obras da humanidade, mas mostrar preocupações de representatividade. Em termos institucionais, verificou-se, a este propósito, a ramificação dos Estudos Literários em Estudos Culturais, Estudos de Géneros, Estudos Pós-Coloniais (com especificações relevantes, como a literatura das grandes guerras e do 11 de Setembro ou a literatura escrita por mulheres). Seja qual for a vantagem disso, a verdade é que o respeito pela leitura, pela palavra escrita, nasce da consciência de que um texto literário trilha um caminho muito antigo e que dificilmente será lido se não se desviar dele, ainda que por momentos, ou, em casos raros, construa ele próprio um caminho inteiramente novo. Erigir um novo cânone só porque se almeja a representatividade pode revelar-se despropositado — ou pelo menos ums atitude de pouca duração e sem consequências.

Penso que um dos aspectos que contribui para o reavivar do interesse de um livro que passou despercebido no seu tempo e para lá dele diz respeito à forma como ele fala ao presente em que se vive. Foi o que aconteceu com Cesário Verde, por exemplo, que Fernado Pessoa e Óscar Lopes — cada um à sua maneira, naturalmente — impuseram como figura canónica da nossa literatura. E também por isso Uma Agulha no Palheiro e Pela Estrada Fora começam a cair no esquecimento; por isso, se pretende recuperar Aquilino Ribeiro (a que eu juntaria facilmente José Cardoso Pires, Vitorino Nemésio, Natália Correia, e sobretudo Irene Lisboa).

Enfim, seja como for, o sentimento mais frustrante de quem lê é, provavelmente, a sensação de que, no fim do livro, a leitura não terminou (para não falar das saudades que algumas personagens deixam). Não é um lugar-comum inconsequente ou frase arranjada dizer que os clássicos são livros que nunca deixamos de ler porque nunca deixamos de ler os livros que têm algo para mostrar. O que mostram é tão diverso quanto as individualidades que os criam: por isso já disse aqui que um excelente livro lido em momento não oportuno pode estragar a experiência de leitura. Se só lermos os clássicos, porém, estamos a impedir que a literatura contemporânea prospere e construa o seu próprio caminho, edificando certamente os clássicos do futuro. A decisão sobre que livros ler pode ser um dilema trágico: seja qual for a opção, há sempre um problema que não fica resolvido.

01
Out19

Gostar e não gostar

ou como apreciar um livro sem parecer ignorante

Ricardo Nobre

O título do «manual de escrita criativa» de Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É porque Tem Razão, baseia-se numa antiga história que reproduzo:

Uma mulher queixa-se a um juiz: «A minha vizinha roubou-me a cabra, o mel e o homem. Faz-me justiça.» E o juiz diz-lhe: «Tens razão.» Mal ela sai, rompe a vizinha pela casa do juiz aos gritos: «Foste enganado por aquela mulher. O homem, a cabra e o mel sempre foram meus. Ela é que mos roubou.» «Tens razão», confirma o juiz. A mulher do juiz, que tinha ouvido tudo, interpelou-o, agastada: «como é que foste dar razão a duas criaturas que afirmam exactamente o contrário?» Responde o juiz: «Tens razão.»

Dando ouvidos ao Padre D. Rafael Bluteau (o autor do primeiro dicionário de português, o Vocabulário Português e Latino), assumiremos que só um(a) leitor(a) mais desprevenido/a dirá sobre um livro «não gosto» porque, defende o lexicógrafo, «ninguém despreza aquilo que sabe».

Dir-se-á, portanto, que a (grande) literatura tem sempre razão: o leitor apenas tem de a descobrir. E se não gosta é porque (em princípio) não percebeu.

15
Set19

Para a escola, rapidamente e em força

Ricardo Nobre

Um motivo para sermos exigentes (connosco próprios ou com outros) é a vontade de melhorar ou fazer melhorar. Nessa linha de pensamento, incluo o jornalismo tradicional, a cuja degradação temos assistido. O YouTube substituiu-se às televisões, e há mesmo «noticiários» cheios de opinião, reclamando estarem a revelar factos e provas — a verdade, em suma. Sabemos que sempre houve notícias falsas, rumores (muitos deles espalhados pela comunicação social — e não estou a referir-me apenas à TVI ou ao Correio da Manhã) e mentira no espaço público, mas agora parece que as forças se desequilibraram porque não é preciso verificar factos para acreditar neles e ajudar a divulgação de conspirações e mentiras nas redes sociais.

Por onde anda o jornalismo? O de Cecília Malheiro, da Agência Lusa, publicado no Público, parece andar num livro de história com gralhas (ou completa falta de noção), ao datar a guerra colonial de 1975.

guerra colonial em 1975

Todos os dias parece que o problema do jornalismo é de escolaridade básica.

08
Ago19

Bibliotecas de memórias

Ricardo Nobre

Há muito tempo que este liceu não fala de bibliotecas, mas um texto da Rapariga do Autocarro fez-me lembrar que é preciso fazer lembrar que há coisas que não podemos esquecer.

Uma biblioteca (nota erudita: do grego bibliothéke, «lugar [théke, “caixa, cofre; túmulo”] para livros [bíblos, “interior do papiro, rolo de papiro; escrito, livro”], depósito de livros», é etimologicamente equivalente a «livraria» [palavra do latim], que também significa «colecção de livros dispostos ordenadamente; biblioteca», DLP, s.v. «livraria», 2) está para os livros como um dicionário para as palavras: o item está lá arrumado, à espera que vamos ter com ele.

Sei que ainda existem algumas bibliotecas itinerantes, mas o meu fascínio por bibliotecas não tem que ver com carros, mas sim com paredes e estantes. Por isso, acho que um dos maiores valores que a democracia nos trouxe foi uma rede de bibliotecas públicas que cobre todo o território: em Portugal, todas as capitais de distrito têm bibliotecas municipais, cujos acesso, utilização de espaços (incluindo o parque informático) e empréstimo (de livros ou DVD) são inteiramente gratuitos. Basta formalizar uma inscrição (é necessário um comprovativo de morada ou o papel da inscrição na escola/universidade) e já está. Além disso, existem bibliotecas universitárias cujo acesso é igualmente gratuito, bem como o manuseio dos livros (imagino que para requisitar sejam necessárias outras formalidades se não houver vínculos à instituição).

Tenho várias memórias espalhadas por várias bibliotecas — não é toda a gente que planeia percursos em cidades fazendo contas para passar nas bibliotecas nacionais e locais, tão importantes como museus —, a começar pelas más.

Não me lembro de haver bibliotecas nas escolas primárias que frequentei (apenas armários numa parede, talvez), mas recordo-me bem de ter ido à biblioteca da «Preparatória» D. Afonso III (ainda hoje há cheiros que me lembram desta escola, tal não terá sido o trauma). Era uma sala à direita de quem entra na escola (à esquerda era a secretaria) pela porta principal (que os alunos não podiam usar; apenas lamento não ter tido a consciência que tenho hoje para não respeitar a estupidez desta regra). Uma sala com estantes em três paredes (a outra era a das janelas), em armários fechados. No centro, mesas para nos sentarmos, e à frente de nós, uma terrível funcionária, velhota e mal-encarada, que tinha tanto amor por livros como por crianças. Nos dois anos em que andei na actual EB 2/3 D. Afonso III, devo ter ido à biblioteca duas vezes (se não estou a inflacionar o número em 50 %).

Mas, em 1995, fui para a Pinheiro e Rosa. A escola, inaugurada um ano antes, acabava de receber o nome. Frequentei-a do sétimo ao décimo segundo ano, por isso vi-a também passar de uma escola sem acessos (era, literalmente, no meio da lama, no Inverno; no meio do pó, no Verão) nem pavilhão gimnodesportivo ao que é actualmente. Como escola estreante, a biblioteca ocupava uma salinha e o acervo bibliográfico pouco mais era que manuais escolares não adoptados ou antigos, algumas obras de referência e não me lembro de mais nada antes de, no meu nono ano, ter passado por uma sala ainda menor enquanto decorriam obras para a instalação de uma biblioteca escolar digna, na altura já com uma sala de computadores. E assim foi: o meu ensino secundário decorreu entre aulas, biblioteca e as tardes do «laré», com incursões fúnebres pelo cemitério em dias de teste de História (era a disciplina que mais nos aterrorizava e para a qual, sem dúvida, mais estudava).

Ainda que as actuais instalações não sejam do «meu tempo», lembro-me bem de ter passado parte de um mês de Agosto (no termo do qual já conhecia os leitores residentes e funcionários) na biblioteca municipal de Faro a preparar um projecto. Na verdade, a Biblioteca António Ramos Rosa abriu nas actuais instalações no momento em que eu me estava a mudar para Lisboa. De um espaço tenebroso de um convento do século XVI, não muito diferente da biblioteca da Afonso III, em que os leitores não acediam directamente aos livros, a biblioteca mudou-se para o antigo matadouro, confinando com o jardim da Alameda (a entrada principal faz-se pela Rua Carlos Porfírio, mas chegar pelo jardim é mais impactante, como se diz agora). O espaço é alegre, luminoso, amplo e com os livros em acesso livre.

Mas isso foi em 2014; mais de dez anos antes, passei de uma biblioteca que considerava boa, na Pinheiro e Rosa, para uma que iria mudar a minha vida para sempre — onde, juntando todas as horas lá passadas, faria meses ininterruptos, talvez doze, porventura mais. Em 2001 entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A biblioteca começara a funcionar naquele edifício (o actual) um ou dois anos antes: as bibliotecas dos departamentos, institutos e centros deixaram de estar espalhadas nas instalações da faculdade e juntavam-se à «biblioteca central» num edifício em que não se distingue sala de leitura de local onde estão os livros (embora exista, obviamente, um depósito). Ali trabalhava e estudava em mesas ao lado das estantes aonde se podia ir buscar o livro sem pedir a ninguém. Os livros acumulavam-se em cima da mesa e no fim colocavam-se nos carrinhos de apoio. E podiam ser requisitados para casa.

A minha existência naquela biblioteca tornou desnecessária a utilização de outras. Aliás, aquilo que estudava na altura não exigia outras: nas suas áreas do conhecimento, a biblioteca da Faculdade de Letras não tinha (e não tem) tudo, mas tem muita coisa, quase tudo.

Na minha vida, porém, surgiriam outras necessidades. Ainda hoje me lembro da primeira vez que entrei, leitor caloiro com o cartão acabado de fazer na mão, na sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Lisboa. Era a primeira de tantas horas sentado nas cadeiras do Daciano Costa. Aguentei as obras da construção da ampliação da torre dos depósitos e a péssima iluminação da sala depois de escurecer às cinco da tarde nos meses de Inverno. Além desta, ainda me lembro dos fins-de-semana e férias de Verão itinerantes pelas bibliotecas do Palácio Galveias (antes de fechar), de Belém e, sobretudo, Orlando Ribeiro, em Telheiras (a que tem secção de música e filmes). Infelizmente, apesar de o acesso não ser difícil para mim, ainda não fui à de Marvila e, desde que este liceu abriu as portas, aguardo a reabertura da biblioteca de Alcântara (da antiga, já nada existe: agora, está lá o excessivamente grande novo hospital da C.U.F., na Avenida 24 de Julho).

As bibliotecas de Lisboa (existem outras que não foram aqui mencionadas) permitem o acesso gratuito a livros (que podem ser requisitados e devolvidos em qualquer biblioteca, mesmo que venham de outros espaços), ou seja, em Portugal não há carência de pontos de acesso ao conhecimento ou à imaginação de escritores e escritoras de todo o mundo. Talvez falte interesse do conhecimento e em atribuir valor à imaginação como forma de sensibilidade. Nem o dinheiro vale tanto.

25
Jul19

Irresponsabilidade jornalística

Ricardo Nobre

O texto de Clara Viana, publicado no Público de ontem, sobre um excerto d'Os Lusíadas que saiu no Exame Nacional de Português é a prova de que os jornalistas se comportam como provocadores profissionais, amplificando o ruído que não tem razão de ser.

Recordo que o Exame Nacional de Português em lado nenhum tem de incluir apenas excertos de obras estudadas em aula. Aliás, esta prova começa com um texto de Manuel Alegre. Se os estudantes estiveram doze anos na escola, deveriam estar aptos a ler qualquer texto escrito em língua portuguesa.

Eu, que nem sou professor de português e que há muito tempo não leio Os Lusíadas, comecei a ler as estrofes em causa e soube identificar que se tratava de um trecho do concílio dos deuses no mar. Consultado o exame, essa informação estava lá, bem como um extenso vocabulário (eventualmente destinado aos alunos que nunca foram às aulas). Não estou a dizer que sou melhor que os outros (e muito menos que a minha memória é boa): é apenas um texto escrito em português, acerca do qual se faziam perguntas no âmbito de processos retóricos e da argumentação que fazem parte do programa (saber a estrutura d'Os Lusíadas também), e não é por isso que é preciso ler Aristóteles.

Clara Viana e professora de português que expôs a «situação», aprendei a ler. Começai pelos clássicos. Talvez Os Lusíadas. Integralmente. Muito melhor que o Público.

21
Jun19

Sem erros de leitura

Ricardo Nobre

Uma coisa mal aprendida pode ser muito prejudicial ao desenvolvimento do indivíduo. Não é raro ouvir pessoas com algum discernimento a argumentar que uma coisa é assim porque foi assim que ela aprendeu. Mal comparado, isso equivale a dizer que quem aprendeu que o Sol anda à volta da Terra não poderia querer (é este verbo que faz diferença) aprender que é a Terra que anda à volta do Sol ou que, tendo aprendido que não há cura para o cancro, não pode querer que haja investigação científica que tenha por objectivo encontrar soluções para problemas que hoje existem.

Não estou a dizer que o conhecimento blinda as pessoas: estou a dizer que o erro e coisas mal aprendidas blindam as pessoas a novos conhecimentos e a novas formas de pensar. Claro que os exemplos podem partir de casos práticos da nossa sociedade e dos avanços civilizacionais de que temos sido testemunhas nas últimas décadas (modos de vida amigos do ambiente, reciclagem, escolhas de consumidor sustentáveis), mas, em respeito da natureza deste blogue, dou realce a questões do âmbito linguístico, de que sobressaem interpretações supra-realistas e supra-concretistas da língua, de onde resultam as chamadas «hipercorrecções». Designa-se hipercorrecção a aplicação de um erro onde antes havia correcção. Exemplo de café:

— Queria um chá.

— Queria? Já não quer?

O segundo falante não sabe ou não quer saber que «queria» é uma forma de imperfeito do indicativo e que esse tempo, além de pretérito, tem uma tonalidade modal que lhe permite ser usado quase como um condicional («quereria um chá se o senhor funcionário tiver a gentileza de o confeccionar e entregar à mesa»). Chama-se a isto imperfeito de cortesia porque o indicativo («quero») ou o imperativo («traz») são sentidos como demasiado impositivos de uma ordem.

Outro exemplo de café é o «copo com água», que acabou por alastrar a todo o lado em vez de «copo de água». Não sei de que são feitos a caixa de sapatos, o armário dos pratos ou a chávena de chá na casa destas pessoas. Talvez não tenham sequer paredes brancas, mas sim paredes de tijolo rebocadas com cimento e pintadas com uma tinta com pigmentação branca. «Copo de água» é como sapatos de futebol: o copo não é feito de água como os sapatos não são feitos pelo futebol, mas para o futebol. A isto se chama metonímia, já Aristóteles a conhecia, e não beneficiamos em desmerecer do Mestre.

Não estou a dizer nem a insinuar que os empregados de café são responsáveis por estes erros: todos nós somos responsáveis por eles porque, no dia em que fomos «corrigidos», não tivemos coragem, jeito ou paciência de explicar que não nos estavam a corrigir, mas a impor um erro atroz, justificando coerente e compassivamente porque é mais correcto dizer «copo de água» e errado «copo com água».

O que este texto defende de um ponto de vista linguístico poderia defender no âmbito literário. Sobretudo no período da Feira do Livro li muitas observações sobre livros. Normalmente, são pessoas bem-intencionadas que dão conselhos (e a quem se pedem conselhos) de leitura. Só que a leitura de um livro não cai bem a todos os leitores. Pensemos nos comprimidos que compramos com receita médica na farmácia: foram-nos prescritos pelo médico que nos conhece, a nós, às nossas condições físicas e resultados de análises. Quantas vezes nos acontece aconselharmos (ou oferecermos) um livro a uma pessoa por querermos que ela tenha a mesma sensação que tivemos ao lê-lo, e a recepção é muito negativa. O motivo é simples: a nossa experiência, os nossos anticorpos, a nossa estrutura genética de leitura é outra — e, tal como com os medicamentos, o que salva um doente provoca náuseas a outros.

Nem preciso de iniciar aqui o debate em torno de distinção entre literatura e formas que dominam o sector livreiro, a que se tem chamado subliteratura ou paraliteratura.

É por isso que acho graça a uns textos muito ternurentos em que alguém fala de um livro para incentivar outra pessoa a ler. São textos muito ingénuos, cheios de mistura de sensações de leitura com uma espécie de vocabulário técnico (falam em trama, protagonista e personagens), valorizando-se coisas que eu nem sabia que contribuíam para a qualidade de um livro (como a velocidade com que a acção decorre, o facto de ser baseado em acontecimentos reais ou não). Usam depois uns adjectivos muito abstractos para falar do «estilo do(a) autor(a)».

Já aqui se disse que a leitura é uma actividade solitária, porque não se pode fazer em conjunto (mesmo os clubes de leitura são assembleias em que se juntam pessoas para falar de um livro que leram previamente, sozinhas). É nessa actividade solitária que nos formamos, permeabilizamos a outros saberes e avançamos no conhecimento — mesmo que seja preciso ler uma biblioteca inteira — literalmente.

Bom Verão!

21
Jun19

Nada é em vão

Ricardo Nobre

Nem sempre é fácil ter um conhecimento relativamente seguro sobre uma coisa e deparar com pessoas que dele falam equivocadamente. Prefiro escrever «equívoco» para garantir que não estou apenas a falar de engano propositado, mas também dos erros que são transmitidos e perpetuados involuntariamente, por muito boas que sejam as nossas intenções, como o/a jornalista (que terá tido uma formação em ciências sociais) a tratar de assuntos científicos ou económicos. O/A especialista nestas matérias ouvirá ou lerá o/a jornalista e irá pensando ou dizendo «isto não é bem assim». Mas mesmo o não ser «bem assim» pode ter uma motivação nada ignóbil: falar para um público alargado, com muitas sensibilidades e estudos diferentes obriga a uma simplificação do nível do discurso ou da exclusão de fenómenos mais complexos. Se já deu aulas ou se já teve de falar para uma plateia de estudantes mais jovens ou de pessoas de outras áreas de estudo, o/a «especialista» já cometeu os mesmos pecados do(a) jornalista: às vezes as circunstâncias obrigam a nivelar abaixo do desejável um discurso produzido sobre um tópico com alguma complexidade, de que não está ausente um «erro em nome da pedagogia».

O problema é a percepção que o público (ouvinte ou leitor) terá da questão, a forma como ele próprio a vai discutir, resumir, impor noutro círculo. No fundo, o conhecimento transmitido sofre uma erosão, fenómeno semelhante à perda de qualidade entre o que um(a) professor(a) explica e o que o/a aluno(a) escreve no exame (curiosamente, há casos em que o exame é melhor que a explicação original!).

A forma de consolidar um conhecimento é, parece, mediante um extenso trabalho de leitura. Só que as dúvidas aumentam na mesma proporção: ler o quê, de quem, onde? Talvez em livros de divulgação (que resultam em simplificações redutoras de estudos científicos de assinalável complexidade que o cidadão ou cidadã comum não compreende sem dois cursos universitários), artigos de enciclopédia (que não estão isentos de erros, em particular numa obra de reconhecido mérito e divulgação), jornais e revistas? Entremos na papelaria (o/a leitor(a) conhece uma loja assim: é o sítio onde vai comprar tabaco ou pôr o Euromilhões) e dêmos lá uma volta: há publicações dedicadas a todos os assuntos, de bordados a videojogos, de automóveis à saúde, da educação infantil à literatura, da ciência à história.

O conhecimento é mesmo infinito e vem em diversas formas, incluindo sob a forma de não-conhecimento. Por exemplo, que conhecimento se pode adquirir da literatura? Esta é uma das perguntas mais antigas da história da Humanidade, e as tentativas de resposta variam entre o «nenhum» e o «todo». O patrono deste blogue é um dos que tentaram dar-lhe resposta, que veio, entre outras, sob o conceito de «catarse». Todavia, se nada se aprende com a literatura porque é que quem lê tem, normalmente, um nível cultural superior a quem não lê? Julgo que em parte isso pode ter que ver com o desenvolvimento do raciocínio e com a fundamentação da argumentação, que se adquire na leitura e exercício que conduzem ao alargamento de vocabulário, percepção de pequenas diferenças entre fenómenos semelhantes, arranjo e arrumação de ideias e formas de as expor, para não falar em questões de gosto. Além disso, a leitura permite o encadeamento de conhecimentos e a sua própria questionação. É um treino como outro qualquer e por isso se costuma dizer que só um grande leitor pode ser um grande escritor (havendo excepções atestadas em todas as literaturas do mundo) e que ser pensador é resultado de ser leitor.

Seremos certamente melhores cidadãos se lermos mais. Desenvolvendo a massa crítica, seremos mais exigentes também com os nossos governantes, criticaremos as suas visões do mundo, a sua forma de reflectir sobre o Estado e a sua presença na vida das pessoas e, nas próximas eleições, talvez consigamos fazer escolhas mais acertadas.

 

P.S.: Às vezes sento-me para escrever um texto neste blogue sobre um assunto e acabo com um post sobre outra questão. Este texto devia ter outro tópico, deveria abordar um tema de forma concreta, mas partiria de exemplos empíricos e o meu desejo é generalizar, teorizando. Por isso, desta vez, terei de assumir que o texto continua.

10
Jun19

Camões

Ricardo Nobre

Vítor Bastos, Monumento a Camões, 1867

O feriado nacional português é hoje, 10 de Junho, o (suposto) dia da morte de Camões, em 1580.

Não se sabe onde nem quando nasceu (naquela época não havia registo civil) Luís de Camões, e na verdade pouco se sabe de concreto sobre a sua vida, que, como em muitos outros casos, sofreu a diegese fabulística e mitográfica de vários biógrafos. Mesmo o que escreveu continua um mistério. A primeira edição das Rimas é póstuma (1595) e atribui-lhe poemas que já tinham sido publicados pelo Cancioneiro Geral, compilado por Garcia de Resende em 1516 (fazendo contas, Camões pode ter nascido quanto muito em 1524). O cânone da lírica continua, aliás, um dos temas mais interessantes (e sem solução) da literatura portuguesa, e nós, leitores, aguardamos uma edição crítica e completa de todos os poemas que são atribuídos a Camões pelas diversas edições da obra, mas também pelos cancioneiros manuscritos (que eram muito usados porque em Portugal o estado sempre gostou bastante de censura).

Conhecedor da literatura italiana do Umanesimo, da tradição literária e historiográfica e literária portuguesa e da Antiguidade Clássica, Camões foi, por isso, um poeta culto: escreveu Os Lusíadas, que veio a publicar em 1572. É a obra maior da língua portuguesa, responsável por várias «respostas» (de que Mensagem, de Fernando Pessoa, 1934, será a mais conhecida, embora com contornos muito mais nacionalistas) ao longo dos séculos, e a configuração da identidade de Portugal (ao pé dele todos os outros poetas parecem menores e só Pessoa se pode aproximar da sua grandeza).

Fora a questão estética e a utilização da língua, que daquele modo se formou enquanto literatura superior, Os Lusíadas contam bem mais do que a «história de Portugal em verso»: são a expressão máxima de um povo que, tendo poder para conquistar o mundo, também o faz selvaticamente, sendo, ainda, capaz de se fechar na maior ignorância:

O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza. (Os Lusíadas, 10.145)

Camões é, por isto e por muito mais, o Poeta que identifica Portugal. Bom feriado.

09
Jun19

Graça

Ricardo Nobre

Se a memória não me falha, foi por ocasião da Feira do Livro de Guadalajara, no México, que Graça Fonseca, a terceira ministra da Cultura do vigésimo primeiro governo constitucional português, produziu a afirmação de que era «óptimo», durante quatro dias, não ler jornais portugueses (os jornalistas, sem muito que comentar sobre livros, queriam tourada sobre o que muitos já sabem que é falta de civilização, as corridas de touros). Não houve ninguém que não criticasse a afirmação, justificando-se pelo facto de esta ser a ministra responsável pela tutela da comunicação social (muitos críticos são os mesmos que reclamam por o Estado se imiscuir nas redacções).

Sem a conhecer pessoalmente, posso aqui dizer que simpatizo muito com Graça Fonseca. Não sei explicar porquê, mas talvez por, de cada vez que fala em público, ter alguma coisa para dizer e fazê-lo de modo inteligente (ainda falta uma política para a promoção da leitura, mas sem orçamento os livros continuam acessíveis a alguns excêntricos). Isto para confessar que não ler jornais portugueses nem ver ou ouvir notícias portuguesas é uma das melhores coisas que tenho feito desde que morreu Agustina Bessa-Luís, ocasião em que o espaço público se encheu de testemunhos sobre a obra da escritora, que certamente reprovaria, cheia de humor, tantos disparates, a começar por quem é «especialista».

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.