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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

05
Set19

Temporada de leitura

Ricardo Nobre

Costuma ler-se que Verão (e férias) é tempo de «pôr a leitura em dia» (para ilustração das gentes: a leitura nunca está em dia) e, criando uma necessidade que não existe, as livrarias dos coletes verdes e as dos coletes laranja, os meios de comunicação social e as redes sociais desdobram-se em sugestões de leitura. Empiricamente parece fazer algum sentido que, havendo mais tempo livre, haja também mais disponibilidade para ler, visto que esta é uma actividade geralmente considerada no âmbito do lazer e do ócio. Apesar de todas as campanhas de promoção de leitura, jornais e revistas jornalisticamente responsáveis e blogues cujos autores estão cheios de boas intenções perpetuam o estigma da leitura como o que se deve fazer quando não há mais nada para ocupar o tempo. Têm-no conseguido, e com bastante mérito.

Outra tendência frequente é associar o Verão e as férias a leituras menos «pesadas» e, por conseguinte, livros que não são suficientemente sérios para serem lidos de Setembro a Junho. É então que deparamos com listas constituídas apenas por obras literárias — o resto do ano é, supostamente, dedicado a «leituras de gestor», como diz o nosso Mário de Carvalho em «O Binóculo Russo». Recorde-se o trecho antológico (d’Os Contos Vagabundos, publicados em 2000):

Ele já lá estava e lia, à mesa, com aquele desprendimento selecto que tanto a havia impressionado na véspera. Matilde [com os binóculos] tinha-o agora ao perto, muito nítido, com as cores muito vivas. Podia acompanhar-lhe o perfil, milímetro a milímetro, o azulado da barba na face bem escanhoada, as riscas da camisa, cuidadosamente arregaçada nos punhos e o livro, manuseado com displicência. Conseguiu ler as letras da capa: Cultive a Sua Vontade de Vencer, por J. D. Russel West. Céus, aquilo eram leituras de gestor.

Não obstante tudo o que nos fazem crer os meios de comunicação de massas antes enumerados, debalde tentei encontrar informação estatística sobre a venda de livros ao longo do ano para confirmar esse empirismo. As bibliotecas públicas, objecto de largos elogios neste liceu, têm serviços mínimos de função pública, não acompanhando, assim, esse suposto aumento sazonal da procura pelo livro e pela leitura amena. No Algarve, cujo Verão apenas rima com praia, acreditando nas informações dos respectivos sites e registando apenas as diferenças em relação ao resto do ano, acontece[ra]m estes fenómenos:

  • a Biblioteca Municipal António Ramos Rosa (em Faro) esteve encerrada de 1 a 15 de Agosto;
  • a Biblioteca Municipal Álvaro de Campos (em Tavira) reduziu o horário de atendimento;
  • a Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes (em Portimão) apenas fechou ao sábado;
  • a Biblioteca Municipal Vicente Campinas (em Vila Real de Santo António) apenas abriu até às três da tarde em Agosto;
  • a Biblioteca Municipal Lídia Jorge (em Albufeira) e a Biblioteca Municipal de Castro Marim (por sinal, um espaço extraordinário) mantiveram o horário de funcionamento;
  • a Biblioteca Municipal de Lagos também manteve, mas infelizmente esta tem horário de Verão o ano inteiro (abre às 10h, fecha às 18h e encerra à hora de almoço);
  • o site da Biblioteca Municipal de Olhão, que não é actualizado desde 2016, informa que no Verão o espaço abre no fim da manhã para encerrar ao meio da tarde.

N.B.: Deixei de fora a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen (em Loulé) e a Biblioteca Municipal de Silves (que deve ter o site mais caro de todas, apesar de não ter conteúdo) por não serem em cidades junto à praia. Mas talvez valha a pena dizer que no Verão apenas encerram ao sábado e que a biblioteca de Loulé tem um dos horários de funcionamento mais alargados de todas as bibliotecas públicas.

Seria interessante ter informação sobre a afluência a todos estes espaços e sua utilização; seria muito relevante saber se os horários estão ajustados à procura (fecham ao sábado porque não vai lá ninguém ou é necessário dar folga ao funcionário público? abrem de manhã porque há afluência ou estão vazias até meio da manhã? fecham às cinco da tarde quando não está lá ninguém ou é a hora em que mais gente a frequenta, mas o funcionário público tem de picar o ponto?).

Como em muitos outros aspectos da nossa sociedade e vida em comum, são mais as dúvidas que as certezas, há mais palpites que estudos, há mais opiniões que factos.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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