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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

23
Abr19

Todos os dias são dias do livro, mas nem todos os livros são do dia

Ricardo Nobre

Antecipando o dia do livro*, o Expresso de sexta-feira passada lembrava, em texto de José Mário Silva (p. 23), que se tem verificado, de ano para ano, a diminuição da venda de livros em Portugal. Os agentes do livro citados listam alguns (bons) motivos para o fenómeno (a mais interessante é a concorrência com outras formas de passar o tempo), mas ninguém comenta o que para mim é mais óbvio, e o que mais me afecta: o preço do livro.

Vejamos alguns exemplos (por ordem alfabética, de várias nacionalidades):

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água (2 vols.): 18 + 18 = 36
  • edição francesa de bolso, Folio (2 vols.): 8,40 + 8,40 = 16,8
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 10,97

 

A Divina Comédia, de Dante

  • tradução portuguesa, Quetzal (bilíngue): 24,40
  • tradução francesa de bolso, Gallimard: 10,20
  • tradução francesa (obra completa de Dante), Le Livre de Poche: 23
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 12,68

 

Elegias, de Tibulo

  • tradução portuguesa, Cotovia: 25
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics (bilíngue): 12,17
  • tradução francesa, Les Belles Lettres (bilíngue): 29,50

 

Fausto, de Goethe

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 27
  • tradução francesa de bolso, Gallimard: 9
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics (2 vols.): 9,75 + 12,20 = 21,95

 

Os Irmãos Karamázov, de Dostoievski

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 36,50
  • tradução portuguesa, Presença (2 vols.): 17,90 + 22,80 = 40,70
  • tradução francesa de bolso, Folio: 9
  • tradução francesa de bolso, Le Livre de Poche: 8,70
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 9,07

 

Kalevala

  • tradução portuguesa, Dom Quixote: 30
  • tradução francesa, Gallimard: 25,30
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 11,63

 

Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

  • versão portuguesa, Assírio e Alvim: 24,90
  • versão portuguesa, Tinta da China: 24,99 (capa mole: 18)
  • versão portuguesa, Relógio D’Água: 30
  • versão portuguesa de bolso, Assírio e Alvim: 16,60
  • tradução francesa: 27
  • tradução inglesa de bolso, Penguin: 18,72

 

Middlemarch, de George Eliot

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 30
  • tradução francesa de bolso, Folio: 13,80
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 13,10
  • tradução inglesa de bolso, Penguin: 8,26

 

Moby Dick, de Herman Melville

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 24,23
  • tradução portuguesa, Guerra e Paz: 30
  • tradução francesa de bolso, Folio: 10,20
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 9,75

 

A Morte do Pai(vol. 1), Karl Ove Knausgård

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 22
  • tradução francesa de bolso, Folio: 9,50
  • tradução inglesa de bolso, Vintage: 10,97

 

Odisseia, de Homero

  • tradução portuguesa, capa dura, Quetzal: 24,40
  • tradução portuguesa, capa dura, Cotovia (esgotado): 35
  • tradução portuguesa, de bolso, da Cotovia (esgotado): 16
  • tradução francesa, capa dura, Les Belles Lettres (bilíngue, 3 vols.): 45 + 36,60 + 43 = 124,6
  • tradução francesa, capa mole, Les Belles Lettres (bilíngue, 3 vols.): 33
  • tradução francesa, de bolso, Folio: 5,60
  • tradução francesa, de bolso, Gallimard: 4,40
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 9,75
  • tradução inglesa, capa dura, Loeb Classical Library (bilíngue, 2 vols.): 24,29 + 19,66 = 43,95
  • tradução inglesa, de bolso, Penguin: 9,76

 

Ulisses, James Joyce

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 24
  • tradução francesa de bolso, Folio: 13,30
  • edição inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 10,32

 

Todos os valores estão em Euros. A negrito, os mais caros e os mais baratos.

Os títulos foram escolhidos ao acaso (antes de verificar os preços) olhando para as minhas estantes, o que ajuda a justificar a repetição de algumas editoras. Deve ainda notar-se que a amostra foi feita apenas com obras literárias, e não com livros técnicos, académicos ou dicionários (obras que, publicadas por editoras do Reino Unido, podem ter preços mesmo muito elevados). Normalmente, há várias edições ou traduções noutras línguas, cujos preços podem variar, mas o que mais importa é precisamente o preço a que o leitor pode aceder ao livro. Por exemplo, em Portugal, só se pode ler Tibulo numa luxuosa edição da Cotovia, de capa dura e com fita. Mas a versão de Les Belles Lettres, menos luxuosa, além de tradução, tem edição crítica.

Os preços indicados nos livros portugueses são os preços da Wook sem os famosos dez por centro de desconto (que as livrarias independentes não têm). Os preços dos livros estrangeiros são o valor de referência da Amazon espanhola ou francesa (normalmente há alternativas mais baratas para livros usados, mas depois acresce o porte de envio). Não tive em consideração portes de envio porque a Amazon espanhola não cobra portes para Portugal.

O que esta comparação sugere é que aprender línguas estrangeiras é a melhor forma de poupar na compra de livros (escolhi inglês e francês, mas os resultados com espanhol e italiano seriam semelhantes). Além disso, optar por livros de bolso permite arrumá-los melhor nas estantes. Os livros de bolso em causa são de boa qualidade (e não se comparam aos famigerados livros de bolso da Europa-América). Como o nome indica, são também muito mais portáteis (quando um livro sai de casa é lido mais depressa, além de tornar as viagens mais agradáveis).

É normal que toda a gente com o mínimo de intelecto se preocupe com a iliteracia. No entanto, o fenómeno não é incompreensível, como sugerem as notícias como a mencionada no início deste texto. O estado português mantém jovens na escola dos seis aos dezoito anos. São doze anos para formar consciências e adultos informados e esclarecidos, que sabem ler e escrever, fazer contas e pensar, que compreendem os fenómenos da natureza e até conhecem a história do seu país e do mundo. No entanto, o estado pouco faz para lá desse limite na formação do indivíduo. Com efeito, o Ministério da Cultura é politicamente irrelevante porque aparentemente a economia cultural é irrelevante. Mas não é: não temos só sol e praia para mostrar aos turistas. Temos monumentos, museus, teatros, cinema, ópera e concertos. E livros. Falta, ainda assim, uma verdadeira promoção do livro no ponto que mais o afasta das pessoas: o preço. Não serve de nada ensinar as pessoas a ler e a escrever se não houver livros a preços comportáveis: 20 € é um preço muito alto para quem ganha 650 € por mês. Os editores que pensem nisto quando o próximo jornalista lhes pedir comentários sobre quedas de 21,5 % de vendas em dez anos.

 

* Hoje, data em que se assinala a morte de Cervantes (e de Garcilaso) e de Shakespeare (e de Wordsworth), é o dia Internacional do Livro.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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