Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

28
Jun17

Transportes públicos (por quem usa)

Ricardo Nobre

No mês passado, quando Assunção Cristas queria fazer crescer a rede do Metro vinte estações, Ricardo Costa notava no Expresso, de que é jornalista, que as eleições tornam as estações do metro a “fruta da época”. Poderemos ouvir os especialistas em transportes (porque os há, e bastante bons), mas os passageiros são absolutamente ignorados pelas empresas de transportes, cujas decisões não raramente se podem considerar bizarras, prepotentes e economicistas; poupam em tudo, menos no preço dos bilhetes e passes. Isto tem de ser dito muito claramente: o transporte público em Lisboa não é barato e o preço está muito acima da qualidade do serviço. O debate fica a perder com a atenção centrada em mudanças no regime de administração (qual é, do ponto de vista do passageiro-contribuinte, a melhoria decorrente da concessão a privados?) pelo simples facto de, venha quem vier, as decisões vão ser tomadas por quem não sabe utilizar nem nunca andou de transportes públicos (porque têm um «carro da empresa»).

A proximidade de eleições abre, afinal, a época dos transportes. A opinião de um utilizador diário.

1. O Metro de Lisboa (novamente separado da Carris), na linha verde, vai voltar a ter quatro carruagens. Como a estação de Arroios não tem dimensões para comboios com seis carruagens, em vez de quatro que teve antes do governo Passos Coelho/Paulo Portas, na linha verde estavam a circular composições com três. Interesse no passageiro? Nenhum. Lógica? Não, poupança — e evidente estado de degradação do material circulante. Só não se poupou quando houve a WebSummit: fechou-se Arroios para que os génios das startups não andassem apertados em três carruagens e não levassem a summit para outra cidade, como a do medicamento ou a mais verde (estes se calhar viram isto).

2. Na CP (Comboios de Portugal) as mudanças na administração trouxeram algumas boas notícias (como o comboio de passageiros a circular na linha do Leste). Até nos informam de que vai haver transportes reforçados e preços especiais para a praia e um especial de Verão na linha do Tua. Não vou falar do reforço ou da activação de carreiras para a praia (ainda me lembro de a Carris ter um autocarro que ia para a Costa da Caparica em Agosto), porque me parece legítimo e útil que as empresas de transportes aproveitem a sazonalidade. Prefiro os comboios especiais (que a CP já promove quando são concertos de grande dimensão).

Quero recordar que, há poucos anos, a CP fez alterações na circulação dos comboios na linha da Azambuja (revertendo uma solução tomada pouco tempo antes): os comboios de Alcântara-Terra (1) deixaram de ir para a Azambuja (encurtando o percurso à coroa imediatamente anterior, ou seja, Castanheira do Ribatejo) e deixaram de funcionar aos fins-de-semana e feriados (reduzindo o serviço a Azambuja-Santa Apolónia, onde há metro, mas sem passar por Roma-Areeiro [ligação com linha verde do metro, a Fertagus e autocarros suburbanos], Entrecampos [ligação com linha amarela do metro e a Fertagus], Sete Rios [ligação com linha azul do metro, a Fertagus e a Rede Expressos] (2). Que me lembre, houve protestos, mas apenas a Câmara de Vila Franca de Xira teve êxito junto da CP, que repôs comboios mais cedo e mais tarde e (até ao ano passado) abriu aos fins-de-semana e feriados, na época balnear, a linha até Alcântara-Terra para que os veraneantes pudessem ir à praia. Para isso, havia comboios que iam de manhã para Alcântara, mas não havia comboios a sair nesse período (apenas à tarde, no regresso da praia). Para comparar com a atitude de Vila Franca, gostaria de saber que atitude tiveram, em defesa dos munícipes e fregueses (3), a Câmara de Lisboa, a Junta de Freguesia de Alcântara e a Junta de Freguesia da Estrela quando a CP retirou os comboios de Alcântara-Terra aos fins-de-semana e feriados (não foi por falta de comboios, dado que estão a degradar-se em Campolide). Além desta passagem para a praia, a CP tem agora um bilhete especial para a Linha de Cascais: quem vai para a praia paga menos. Quem trabalha aos fins-de-semana e feriados, por seu lado, tem de arranjar alternativas porque a CP não ajuda sequer a fazer ligação a Campolide (o 713 da Carris também não funciona nesses dias), estação sem ligação à linha de Cintura porque os comboios não passam em Sete Rios (é preciso ir a Benfica fazer transbordo). Pensamento focado no passageiro? Não, desinteresse.

3. Na Carris apenas se vê que a degradação do serviço prestado é consistente. A única mudança da actual administração (esta é agora uma empresa da câmara) que os passageiros podem notar empiricamente é o aumento de autocarros a circular com encurtamentos (v.g., 736, de Odivelas para Cais do Sodré, encurtada frequentes vezes para Rossio, Restauradores, Marquês de Pombal e Saldanha — quando é das raras carreiras que faz a Avenida da Liberdade; 738, da Quinta de Barros para o Alto de Santo Amaro, encurtada a horas de ponta ao Rato — sítio até onde também vai o metro, cujo percurso acompanha desde a Cidade Universitária).

De resto, com tantos turistas em Lisboa, é evidente que ninguém percebeu que o 727 (um dos autocarros que serve Belém) não pode circular de meia em meia hora ao fim-de-semana; também um 714 (circula no Parque de Campismo, Belém, Praça da Figueira) sempre cheio dá uma ideia aos turistas de que Portugal «está na moda» mas também no século xix. Há, aliás, muitas coisas urgentes a resolver na Carris: a adequação da oferta à procura é uma delas. Talvez os eleitores, contribuintes e passageiros não tenham bem consciência de que a empresa de autocarros de Lisboa não alterou horários e número de autocarros em circulação por causa da onda (ou tsunami) de turistas; talvez se tenha perdido a percepção de que, pelo mesmo motivo, os lisboetas não conseguem andar de eléctrico. Salvar o eléctrico do empecilho do vizinho que estaciona o carro em cima dos carris para ir beber café ou «ir só ali entregar uma coisa» é, aliás, outro problema. A Polícia Municipal (4), que parece uma associação columbófila com tanto apito, não deveria ser mobilizada para evitar situações de entupimento do trânsito? Não deveria ter reboques prontos a retirar os carros dos carris? Outra melhoria que os utentes dos transportes de Lisboa apreciariam seria painéis como os que existem no Metro do Porto: à saída da estação, há informação clara sobre todas as carreiras das paragens dos interfaces e o tempo que falta para cada uma. Em Lisboa, muitos painéis do tempo de espera estão como este, na paragem da Avenida 24 de Julho: sem funcionar há mais de um ano.

painel de contagem do tempo em Alcântara

Neste breve texto, percebe-se que os responsáveis políticos (e os gestores, seus representantes) estão há anos a discutir transportes, ligações, horários e mobilidade: está na altura de ouvir os utentes. É fundamental haver representação dos passageiros na administração das empresas, cheias de gestores e gente certamente muito competente, mas sem experiência de andar numa carruagem do metro completamente cheia ou num autocarro sem ar condicionado; sem experiência de esperar todos os dias mais de vinte minutos por um autocarro, lidar com supressões e atrasos. Está na altura de respeitar os utilizadores dos transportes e mudar a mentalidade acerca de quem, afinal de contas, é contribuinte e passageiro.

(1) Estação terminal da linha de Cintura, com (penosa) ligação pedonal à linha de Cascais (estação de Alcântara-Mar, onde as escadas rolantes não funcionam há mais de cinco anos), problema por resolver há quase vinte anos. É possível que leitores que não usam transportes de Lisboa tenham ficado impressionados com a notícia de que a estação de Alcântara-Terra (onde fica o Banco Alimentar contra a Fome) está a funcionar, e não devoluta (apesar de o edifício ter sido restaurado em 2005). Como a ironia não tem fim, funciona no edifício dessa estação o serviço de Património das Infraestruturas de Portugal (antiga REFER).

(2) A ligação com a linha vermelha ocorre no interface do Oriente, onde não há comboios da Fertagus.

(3) A propaganda oficial da Junta da Estrela escreve fregueses com aspas. Talvez por os impostos pagos à edilidade não revertam a seu favor, como noutro tipo de comércio, mas em feiras do cavalo?

(4) Gostaria de falar um dia sobre esta força policial, que me tem surpreendido pela descortesia e ameaças com que fala com os automobilistas, perdidos no meio das mil e trezentas obras; talvez fosse mais inteligente apostar na pedagogia e saber explicar às pessoas como se circula de carro depois da reorganização de trânsito.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

classificados

Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.