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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

08
Mai19

Uma língua morta muito viva (métodos de ensino de latim como língua viva)

Ricardo Nobre

Os latinistas (linguistas ou filólogos que se dedicam ao estudo do sistema linguístico do latim) costumam defender que o latim não é uma língua morta porque ainda hoje se usam expressões latinas como «etc.» [et coetera], «pari passu» (e não «a par e passo», já agora), «alibi», «grosso modo», ou porque o emblema de um clube desportivo é «e pluribus unum» (literalmente, «de muitos, um [só]») e o arco triunfal da rua Augusta tem a inscrição «Virtutibus maiorum ut sit omnibus documento. P.P.D.» («Às virtudes dos antepassados, para que sirva como ensinamento para todos. Dedicado por dinheiro público»).

No entanto, o principal argumento para defender que o latim não é uma língua morta é o de que a língua «evoluiu» para as actuais línguas do ocidente europeu que, pela expansão marítima, vieram a ser faladas noutros continentes: sobretudo, por ordem decrescente de número de falantes nativos, o espanhol (460 milhões), o português (221 milhões) e o francês (77.2 milhões). O italiano — provavelmente a língua mais bela do mundo — é falado por 64.8 milhões de pessoas. Estes números são os que estão publicados aqui.

Esta é, claro, uma perspectiva algo romanceada (adjectivo participial que, etimologicamente, tem lá dentro a palavra «Roma»), embora seja difícil defender que o italiano, por exemplo, não resulta da «corrupção» (para usar um termo camoniano) do latim, como o grego moderno resulta de uma continuidade (digamos «acidentada») do grego antigo, já de si muito diferente de região para região. Se as línguas românicas não constituíssem sistemas independentes entre si, diríamos que o latim é falado como língua materna por quase mil milhões de seres vivos do nosso planeta.

Apesar desta boa vontade, a expressão «língua morta» costuma designar o idioma que não tem nenhuma comunidade de falantes que o adquirem como língua materna. A metáfora é pobre e limitadora: dos mortos apenas nos podemos recordar, não os podemos usar, não os conseguimos tornar vivos. Não é assim com o latim.

No primeiro texto sobre o assunto, falei de dois métodos de ensino do latim, um indutivo e outro dedutivo. Neste último, também dito natural ou de metodologia directa, inclui-se a aprendizagem do latim falado, como sugerido na situação-modelo 1: «A Emília quer aprender latim para se divertir com amigos que também estão a aprender ou querem fazê-lo. Pretendem falar entre si, fingir que encomendam pizas ou que se dirigem ao hospital para serem atendidos de urgência comunicando em latim com o pessoal hospitalar». Parece ingénuo ou desnecessário, mas a verdade é que quem aprende latim falando a língua consegue ler desembaraçadamente um texto; quem apenas aprende a ler terá mais dificuldade em expressar-se em latim. Tal fenómeno deve-se ao funcionamento do cérebro, à forma como ele processa a linguagem. Assim, parece que há vantagem em aprender latim como uma língua viva. No entanto, embora esse estudo possa ser realizado individualmente, é muito mais divertido (e rápido) se houver um grupo constituído para o efeito. Juntando os amigos, poderá optar-se por um dos seguintes métodos (não listados no primeiro texto):

1. O meu favorito é o Septimana Latina: Cursus Vivae Linguae Latinae, editado por Mechtild Hofmann e Robert Maier (Munique: J. Lindauer Verlag, 2011). Há duas partes, uma só com textos (e vocabulário) e outra, num volume à parte, com esquemas gramaticais e exercícios de aplicação. Os volumes têm 95 (o primeiro) e 144 páginas (o outro). Não consegui comprá-lo em Portugal nem a Amazon alemã mo quis enviar, foi preciso recorrer a outras estratégias, mas vale muito a pena.

2. Outro método disponível é o Forum: Lectiones Latinitatis Vivae, de Daniel Blanchard e outros (Jerusalém: Polis Institute Press, 2017). Trata-se de um só volume de 365 páginas, nas quais se encontram diálogos, exercícios, vocabulário e algumas informações gramaticais em que se vai desvendando o funcionamento da língua.

Os livros estão em latim. O seu vocabulário (como no livro de Ørberg, mencionado no texto anterior) é dado em desenhos ou associações de palavras já aprendidas. Evitando a mediação de outra língua, o nosso cérebro não faz tradução, apenas lê ou ouve informação directamente da fonte emissora, que descodifica como se fosse a língua materna.

Como qualquer método de língua moderna, as obras mencionadas começam a ensinar formas de saudação e apresentação. Ensinam ainda a pedir informações, a descrever a casa, a roupa, os alimentos, os passatempos, etc.

Obra de consulta para quem quiser usar um destes métodos será Conversational Latin for Oral Proficiency: phrase book and dictionary. Classical and Neo-Latin, de John C. Traupman (Ilinóis: Bolchazy-Carducci, 2015). Apesar de algumas complexidades, pode ser usado no nível de iniciação.

O nível seguinte a este é o da leitura de textos relativamente simples, como as traduções latinas do Astérix, do Harry Potter, de Alice no País das Maravilhas, do Principezinho, entre muitos outros. Vale muito a pena a leitura de Ad Alpes: a Tale of Roman Life, de H. C. Nutting (original de 1923, reeditado em 2017 por Daniel Pettersson). A leitura destas obras, porém, exige o conhecimento de base que só se pode adquirir no estudo das obras listadas em 1 e 2.

O principal problema deste método é a sua dificuldade de avançar (ou sequer começar) se se não tiver um tutor já experiente (há alguns cursos na internet) porque intuitivamente o estudante compreenderá que liber, librum, libro, librorum é a mesma palavra, mas nem sempre perceberá porquê (no início se calhar nem precisa saber). Este aspecto é especialmente sensível para falantes de português que não conhecem mais nenhuma língua declinável, como o russo, o finlandês, o alemão ou o grego.

Uma solução alternativa para o problema indicado é a possibilidade de se começar com um método tradicional de leitura e explicações gramaticais e ir fazendo incursões nestes métodos que se chamam de imersão.

A acompanhar as actividades do estudo do latim como língua viva, recomenda-se o estímulo do cérebro mediante audição: de notícias, de podcasts, de vídeos e músicas. Alguns canais e sites (dos quais será necessário tratar individualmente em textos próximos a este) têm uma boa oferta desses materiais, mas é preciso escolher os que não são maçadores ou aqueles cujos locutores não tenham um sotaque da sua língua materna que desfigura a pronúncia do latim.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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